08 de julho de 2026
Geral

"Doenças são o troco da natureza"

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 7 min

Nas últimas décadas, o mundo tem sofrido vários momentos de pânico com o aparecimento e reaparecimento de doenças cada vez mais agressivas. De acordo com o infectologista Domingos Alves Meira, ao contrário do que muitos pensam, não existem vírus e bactérias novos. Eles sempre existiram, mas passam a atacar o ser humano quando este interfere no seu habitat.

Professor emérito da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista de Botucatu (FMB/Unesp) e estudioso das doenças infecciosas e tropicais, Meira afirma que o que acontece é que o homem invade o ambiente de outros animais e tira o equilíbrio original das espécies. “Agredida, a natureza dá o troco”, afirma. Confira trechos da entrevista.

Jornal da Cidade - Nos últimos anos, doenças que pareciam sob controle têm reaparecido e, aparentemente, com poder bem mais destruidor. Inicialmente, muitos especialistas atribuíram essas infecções emergentes e reemergentes ao HIV, vírus que afeta o sistema imunológico. Esse argumento vale para todas essas doenças ou só para as chamadas oportunistas, aquelas que surgem concomitantemente à aids? Domingos Alves Meira - A aids contribuiu muito com isso, mas não tem culpa de tudo. As doenças emergentes e reemergentes são uma questão tão ou mais antiga que o homem na Terra. A malária, por exemplo, apareceu quando a vida se tornou presente na Terra. Começou com um protozoário, invadiu animais primitivos, passou para o antecessor dos macacos, para os macacos, para os hominídeos e para o “Homo sapiens”, há cerca de 25 mil anos. Ela já foi emergente para o ser humano há 30 mil anos e hoje estamos vivendo outra situação explosiva. Na Amazônia, por exemplo, são 600 mil casos novos por ano. E o que fez com que ela ressurgisse? Foram os movimentos migratórios - a construção da rodovia Transamazônica, a repovoação de agrovilas e garimpos por trabalhadores saídos de outras regiões, tudo totalmente desorganizado. Essas correntes fizeram com que a malária ressurgisse em resposta a uma agressão que o homem fez à natureza. Esses microorganismos estavam todos adaptados a animais selvagens. Mas o homem é o maior animal predador do planeta. Ele ocupa pastos, contamina mananciais e a natureza reverte isso. Os microorganismos acabam atingindo o homem.

JC - De que maneira? Meira - Por exemplo, a aids pode ser muito mais antiga do que se imagina. Há registros de dois marinheiros que morreram na década de 50 com sintomas parecidos com os da aids. Tecidos dos corpos deles foram guardados. Recentemente, o Centro de Controle de Doenças de Atlanta (CDC) examinou novamente estas amostras e identificou nelas o vírus HIV. Sabe-se, também, que o vírus da aids é o mesmo vírus encontrado no chimpanzé. Num determinado momento, o homem resolveu fazer uso do chimpanzé como animal de estimação, em práticas de vodu, para fazer produtos medicinais. Não é preciso muita imaginação para pensar que, com esse contato, o vírus do macaco acabou se adaptando ao homem, dando início a toda uma cadeia de transmissão. Então, é o que eu disse desde o começo: o homem é um predador. Ele agride a natureza e recebe o troco.

JC - E essa pneumonia misteriosa e agressiva que não responde a tratamento e está matando pessoas? Meira - A novidade neste caso foi o fato de ter começado com um agente até então desconhecido, que aparentemente não havia causado nenhuma outra epidemia no passado. Agora, se a gente for buscar os porquês (dessa chegada ao homem), a gente pode citar um exemplo muito conhecido: o da gripe espanhola, que matou 21 milhões de pessoas no mundo. Isso aconteceu numa época em que os países estavam saindo de uma guerra mundial. Tinha ocorrido uma grande agressão à natureza e havia inúmeras correntes migratórias de refugiados e repatriados em péssimas condições. Isso representou um conjunto de razões epidemiológicas favoráveis para a doença explodir. A gripe já era conhecida da humanidade há séculos. O vírus provavelmente estava no porco, atingiu alguém e se transformou numa pandemia.

JC - Essa pneumonia parece vir da China... Meira - O País que tem a maior concentração demográfica do mundo e que, historicamente, sempre foi voltado para si mesmo. Quase nada se sabe sobre a estrutura social deles. Sabemos que os chineses têm uma economia emergente, que são um mercado consumidor promissor, mas não sabemos os detalhes de como vive a população, quais são os movimentos (migratórios) que existem lá dentro, se há áreas de sofrimento. O portal da China para o Ocidente é Hong Kong (...) e de lá teria vindo o primeiro caso para esse lado do mundo por causa da corrida de Fórmula 1 realizada na Malásia. Repórteres e turistas acabaram passeando pela Ásia e alguns deles transportaram o vírus da pneumonia para outros lados do mundo. Agora, ele fatalmente acabará chegando ao Brasil.

JC - As autoridades vêm fazendo uma série de recomendações para tentar impedir isso. O senhor acha que essas orientações estão adequadas? Meira - Os cuidados que devemos ter são esses que nossa saúde pública está tomando, principalmente controle dos aeroportos internacionais. Eu acho que as autoridades estão adotando medidas até corajosas de distribuir folhetos e anunciar em autofalantes usando vários idiomas. Os cuidados que podem ser tomados para defender o País da contaminação são esses - medidas gerais e específicas. Uma delas é considerar as portas de entrada, como os aeroportos, que podem trazer passageiros contaminados.

Outra é fazer rastreamento, e a saúde pública está fazendo. Ela está seguindo todos os passageiros que estiveram no mesmo avião com as pessoas infectadas e estão sendo mantidas isoladas, em quartos de isolamento de altíssima qualidade. Agora, para a população, é fundamental o papel da imprensa em divulgar essas recomendações e informar sobre o andamento da epidemia. Informar que as doenças respiratórias agudas causadas por vírus são mais freqüentes no inverno e que o Brasil está na fase de transição para o inverno.

JC - É quando a possibilidade de disseminação da doença é bem maior... Meira - Justamente, porque as pessoas passam a freqüentar aglomerações, ambientes fechados e pessoas falando, tossindo ou espirrando podem eliminar partículas de saliva com vírus. Então, é preciso evitar as aglomerações. Outra recomendação é fugir dos aeroportos. Sabemos que muitos deles são pontos de atração turística, mas nesse momento é melhor evitar. Uma viagem aérea, sobretudo com rota em países onde há a epidemia, só deve ser feita se for absolutamente necessário. Se não, deve-se postergá-la. Usar máscaras também poderia ser útil, mas não há essa cultura no Brasil. No Japão, basta pegar um resfriado para a pessoa sair às ruas com uma máscara. Mas o brasileiro só usa máscaras no Carnaval, então, não vai pegar. Temos que confiar nas autoridades, que parecem estar no caminho certo, apesar de ainda não sabermos qual é a tendência de progressão do vírus.

JC - Esse pânico que vivemos hoje em função destas doenças é semelhante ao que foi enfrentado em momentos históricos como os da peste negra e da gripe espanhola? Meira - Eu diria que naquela época foi bem pior. Aliás, voltando mais um pouco, a peste bubônica, o cólera e outras pandemias mundiais que dizimaram comunidades inteiras foram tema de pintores clássicos, foram transformadas em cenas dantescas de morte. O pânico sempre existiu. O que faz com que ele seja minimizado agora é a informação correta - o veículo mais importante para que a comunidade não entre em pânico, o que não ajudaria em nada.

JC - Por que a África e a Ásia sempre aparecem como celeiros dessas doenças agressivas? Meira - O Ebola é um exemplo. Ele surgiu na África, especialmente no Congo, às margens do rio, onde houve o primeiro surto. Ele é decorrente de uma má higiene pessoal. Lá, os postos de saúde apresentam estrutura muito rudimentar. Eles reutilizam uma mesma seringa que deveria ser descartável em 100, 200 pessoas e sem esterilização. Foi assim que os casos de Ebola se disseminaram com mortalidade tão brutal. Mas países que não têm esse hábito não têm o problema. O vírus Ebola já foi levado para os Estados Unidos, para a Europa, inclusive através de animais de zoológico, mas a doença não prosperou, porque os hábitos de higiene e as barreiras de saúde são muito eficientes.

Então, esses continentes são celeiros por tudo isso. A África é um continente cujos hábitos, estrutura social, organização política e cultura são completamente diferentes dos nossos. Lá, a estrutura social são tribos que não se entendem, que não se casam entre si - ao contrário, são tribos que se matam, que guerreiam. Nesse exato momento, pelo menos 15 milhões de pessoas são refugiadas. Elas migram por causa de guerras, perseguições políticas, conflitos tribais. E o pano de fundo desses refugiados é a miséria, a fome, o desmatamento e, conseqüentemente, as doenças.