08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

"Amigo é coisa para se guardar... "


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Bauru não foi escolha, foi aceitação. Ao deixar São Paulo, não lamentei os restaurantes, museus, teatros; mas, os preciosos amigos que deixava para trás... Amizades depuradas ao longo de anos de convivência e muita troca. Felizmente a distância não diminuiu o carinho, tirou o aperto de mão, o olho no olho e o abraço.

Começar de novo, do zero. Ah, ter que se explicar, estar diante de pessoas que não conhecem a nossa história e não sabemos as delas... Fiquei um tempo na encolha, digerindo a solidão, conhecendo Bauru, curtindo as caminhadas, os jardins primorosos da USC, o frescor vindo das árvores das pistas do Bosque da Comunidade e do Horto Florestal. Substituindo a Eldorado AM pela Unesp FM e num domingo descobrir o delicioso “Jazz entre outros” na 96 FM, trocando o Jô Soares pelo João Dez e Meia sem nenhuma perda.

E veio o primeiro amigo: Celso F. Carvalho, médico homeopata que cuidou e cuida tanto do corpo quanto da minha alma, cuja sensibilidade mostrou que eu poderia construir minha felicidade aqui. O segundo, Larain Belair Mozer notei no restaurante onde almoçávamos, devido a semelhança física com meu mestre Maurício Gertsenchtein, a semelhança era igualmente espiritual. Com a “Lara” e sua filha Elaine descobri o encanto da frase: “Eu também.”

Todos os dias tínhamos um encontro marcado naquele curto espaço de tempo onde nós três trocávamos livros, CDs, recortes de jornais e bilhetinhos rabiscados em guardanapos. Os dois me apresentaram o Café 21 prometendo ser o “melhor café de Bauru” e lá virou uma extensão dos almoços, aos sábados à tarde para conversar saboreando um capuccino.

Foi no Café 21 que a generosidade do Pedro Lyra dividiu comigo seu amigo João Dez e Meia, em um memorável café da manhã. Conheci na Oficina de Artes e Ofícios o trio Gisèle Aidar, Yara Martini e Mara Frisina que mudaria o rumo da minha carreira artística - lá a pintora se descobriu escultora. Mara e seu marido João Eduardo Frisina me acolheram e passei a ser convidada para deliciosos jantares onde a conversa inteligente e o humor, às vezes ácido e instigante, faziam parte do cardápio. Momentos mágicos brutalmente interrompidos em janeiro deste ano com o infarto fulminante que tirou o Frisina de nosso convívio.

O atelier da Oficina de Artes e Ofícios fechou e Yara Martini abriu as portas de sua casa para os remanescentes Wagner Junqueira de Paiva, Célia Campos e eu. Vieram depois Emiliano e recentemente a Janira Fainer Bastos que se instalou com malas e bagagens em meu coração.

Muito trabalho e conversa nos tornaram um grupo, o “Uns e Outros” que rendeu a mostra “Vôo” que ficará até 13 de abril na Oficina Cultural Regional Glauco Pinto de Moraes. Hoje, eu, nascida em Bauru mas só recentemente moradora, posso dizer finalmente: estou em casa. (Arlete Guimarães - RG 3.487.671)