09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Homenagem a Graciliano Ramos de Oliveira


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No último dia vinte, completaram-se cinqüenta anos da morte de Graciliano Ramos, sem dúvida um dos mais completos escritores e o maior estilista da nossa literatura. Não é absurdo dizer que Graciliano “garimpava” as palavras procurando o melhor sentido, o conteúdo pleno, os adjetivos mais adequados, o verbo mais próprio.

Tive o privilégio de privar da presença do autor de Angústia, toda segunda, quarta e sexta-feira, durante cinco anos. Lecionava eu no “Colégio Barão de Mesquita” e o “Velho Graça” era o inspetor federal do colégio. Aliás, o único inspetor federal que conheci que ia todos os dias à escola e lá permanecia durante quase todo tempo do turno. Certa ocasião, durante uma aula no terceiro ano “científico”, afirmei que eles, os alunos, tinham a ventura de ter todos os dias da semana, durante o período de aulas, um dos maiores escritores brasileiros pertinho deles, obrigaram-me a pedir a Graciliano que os brindasse com um “bate papo”. Eu pedi e Graciliano aquiesceu.

Durante o “bate papo”, um aluno perguntou ao mestre:

- Como posso saber que um texto que escrevi está bom?

Graciliano respondeu:

- É muito fácil. Leia o texto, corte dois terços do que escreveu que o que sobrar estará bom.

Quando se fala em Graciliano, logo pensam em Caetés, que ele abominava, São Bernardo (no dizer de Antônio Cândido, um romance único na literatura), Vidas Secas, Angústia, Memórias do Cárcere... É importante no entanto dizer que ele tem "Histórias do Alexandre", livro próprio para adolescentes e uma gostosura de se ler, "Viventes das Alagoas", livro muito curioso e o autobiográfico “Infância”, fundamental para quem desejar uma explicação para o pessimismo e a secura do romancista.

O maior crítico de Graciliano foi ele próprio pela exigência quase absurda em virtude da sua sede de perfeição o que, aliás, é uma característica muito forte do verdadeiro artista, embora saiba que a perfeição é inatingível. Porém, a sua busca incessante é que leva o artista a quase alcançá-la, como demonstra muito bem Machado de Assis em dois de seus principais contos: “Cantigas de Esponsais” e “Um homem célebre”.

Graciliano Ramos que durante toda a minha vida de intelectual tem ocupado muito, juntamente com Machado de Assis, o meu tempo de estudo é, como mestre Machado, uma fonte inesgotável de conhecimento literário e motivo de análise psicológica, estilística e estética, além de fonte de estudo de seriedade e honestidade intelectual.

Espero que as entidades culturais de nosso país saibam aproveitar o ensejo de seu cinqüentenário de morte para dedicar a Graciliano Ramos de Oliveira todas as homenagens de que ele se faz merecedor por ter levado a mais de sessenta países uma das mais belas e profundas expressões da Literatura Brasileira. (José Benedicto Pinto - RG 4.440.349)