Não é por falsidade, impostura ou fraude, mas no Brasil mente-se mais que em outros países por uma questão de educação.
“Nossa cultura é muito preocupada com o que as pessoas vão pensar. As pessoas não mentem por simples conveniência ou desvio de caráter, usam a mentira para não magoar o próximo”, afirma a psicóloga Sandra Leal Calais, docente da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Bauru.
Nesse sentido, ela cita que nos Estados Unidos se uma pessoa é convidada para jantar na casa de alguém, pode recusar, recusa e diz com todas as letras: “Não quero jantar em sua casa!”.
“Os americanos recusam sem problemas um convite para jantar. Eles respondem friamente não quero jantar na sua casa e fica tudo bem”, comenta.
Na Europa, a sinceridade e o respeito às regras impostas pela sociedade são ainda maiores. Uma pessoa pode participar de uma festa na casa do vizinho, que tem hora marcada para terminar, e ao se ausentar antes do horário, pode ligar para a polícia reclamando que a festa se prolongou. O policial vai contar quem fez a denúncia, mas no dia seguinte os vizinhos continuarão amigos. Pode parecer incoerente, mas se exercita um direito.
A doutora em psicologia revela que as pessoas acabam por não dizer a verdade, por ter medo das reações que os outros teriam ao ouvi-la.
Isso ocorre no dia-a-dia e muitas vezes não tomamos conhecimento das nossas inverdades. Sandra cita exemplos comuns como o fato de elogiar uma roupa da amiga que não lhe agradou, a comida no restaurante que não foi aprovada.
“Temos o hábito de elogiar e depois sair falando mal, xingando, dizendo que não voltamos mais e ainda falamos mal para todo mundo. Mas não somos sinceros o suficiente para resolver a situação.”
Ela conta que recentemente foi questionada por um garçom de restaurante de posto de estrada se a comida estava boa e perguntou ao rapaz se poderia ser sincera. Em poucos segundos, destruiu o semblante simpático do funcionário, elencando defeitos e falhas em cada prato do cardápio que já era modesto. “Nos não temos uma cultura que favoreça a sinceridade”, sentencia.
Fazendo escola
Neste universo de falsa polidez, as crianças são ensinadas a mentir e muitas vezes acabam tendo tolhida a espontaneidade. Mais tarde temem a punição e alimentam a rede de mentiras. Afinal, se ela quebrar um objeto e falar a verdade, ela vai apanhar. Se inventar uma história, uma mentira, poderá ser absolvida.
Entre os adultos, os atrasos no horário, o toque do telefone e os encontros amorosos são os maiores estímulos a pequenas e grandes mentiras. “Nós temos um mau hábito e acabamos envolvendo os outros”.
Quando uma adolescente mente para a mãe que vai à casa da amiga para sair com o namorado, muitas vezes precisa avisar a família inteira da colega para poder sustentar sua afirmação e faz até com que outras pessoas mintam por ela.
Da mesma forma, o namorado que inventa uma doença para ficar em casa quando não quer sair com a namorada ou ainda irá passear com os amigos.
A mentira é usada nestes casos para evitar brigas, discussão da relação e a negativa da liberdade. Quando o ideal seria usar da sinceridade e cada um respeitar as necessidades do outro.
“Hoje se mente mais do que antigamente, pois as redes de relacionamento estão menores e se a intenção é preservá-las a mentira acaba sendo uma arma. Mas as pessoas não sentem prazer em mentir”, revela Sandra.
Muitos recorrem aos consultórios por não concordar com o comportamento mentiroso ou ilusório.
Segundo a psicóloga, o mentiroso, com o tempo, se desmarcara, pois as pessoas ao seu redor vão percebendo que o que ele fala não é verdade, que num determinado momento vai se contradizer. Afinal, se prende a uma série de pequenos detalhes, o que acaba por justificar a expressão popular que diz que “a mentira tem perna curta”.
Ainda no setor das crendices, os pescadores passam por uma classe mentirosa, pois na empolgação de contar suas histórias, eles “capricham na cor” para ficar mais interessante e emocionante. Mas de forma geral, a psicóloga avalia que não o fazem por maldade.
“Quem fala a verdade não merece castigo”
A psicóloga acha o bordão fundamental e sempre fez as suas filhas segui-lo à risca. “Quando elas queriam matar aula, fazia questão de que me comunicassem e me contassem o destino, seja lá qual for.” Sandra conta que sempre livrava a barra das meninas no colégio e, às vezes, até inventava uma mentirinha, como uma cólica, dor de cabeça ou uma necessidade doméstica.
“Como poderia deixar passar em branco esse período escolar! Quem nunca matou aula! Agora, sempre cobrei onde elas estavam. Ficava preocupada, mas sabia que falavam a verdade.”
O mesmo ocorria com as notas. Sandra nunca recriminou uma nota baixa para nunca ter sua assinatura falsificada.
A psicóloga aconselha aos pais estimularem a verdade e também não mentir para os filhos, que seguirão o modelo familiar.
Ela cita atos de cumplicidade, principalmente entre mãe e filha, que acabam comprando uma roupa ou utensílio e afirmam ao pai ter recebido um presente de uma amiga.
As mentiras na hora de tomar remédio ou injeção também são uma constante desde os primeiros anos e podem atrapalhar a formação do paladar.
“Nunca se deve dizer que o peixe é frango na hora da criança comer. Ela tem que saber que é peixe e aprender a saboreá-lo. Da mesma forma ela precisa saber que uma injeção dói, mas é necessário tomá-la.”
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As maiores mentiras que contamos
“Disse para as minhas amigas que tinha cinco meninos na minha classe que gostavam de mim e elas acreditaram. Mas acabei de contar para a minha mãe que a professora de matemática está grávida e não é verdade.” (Gabriela Moço de Farias, 10 anos, estudante)
“Eu tinha 13 anos. Falei para o meu pai que tinha passado de ano e tinha repetido. Esperei passar as festas e só quando estava perto de começar as aulas contei a verdade. Mas aí não teve problema.” (Alessandro Denrique Leandro, 26 anos, autônomo)
“Falei que era amiga de uma menina que pensava que eu era amiga dela. Mas na verdade eu sou a melhor amiga da inimiga dela.” (Isabela Moço de Farias, 5 anos, estudante)
“Falei para a minha mulher que estava viajando, mas estava na cidade e não fui para casa.” (Ricardo Ferreira Toscano, 37 anos, administrador de empresas)
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Dia oficial
Há muitas explicações para o 1.º de abril ter se transformado no Dia da Mentira. Uma delas diz que a brincadeira surgiu na França. Desde o começo do século XVI, o Ano Novo era festejado em 25 de março, data que marcava a chegada da primavera. As festas duravam uma semana e terminavam no dia 1.º de abril.
Em 1564, depois da adoção do calendário gregoriano, o rei Carlos IX determinou que o Ano Novo seria comemorado no dia 1.º de janeiro. Alguns franceses resistiram à mudança e quiseram manter a tradição. Só que os gozadores passaram a ridicularizar os conservadores, enviando presentes esquisitos e convites para festas que não existiam.
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No cinema
“O Mentiroso”
“Pinóquio”
“As Aventuras do Barão de Munchausen”
“Sexo, Mentiras e Videotape”
“O Auto da Compadecida”
“Segredos e Mentiras”
“O Show de Truman”
“No Coração da Mentira”
“Os Suspeitos”
“O Jogador”
“Prenda-me se for Capaz”
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Eles dizem a verdade
“Não costumo mentir. Não me recordo de nenhuma mentirona. Aliás, odeio mentiras. Meu marido é um mentiroso nato e mente tão bem que acredita nas suas mentiras. O Pinóquio perde para ele.” (Carla Andréia Garcia da Silva, 29 anos, promotora de vendas)
“Minha filha me ligou no trabalho para dizer que tinha tirado progressão insatisfatória (P.I) na escola e a professora tinha ficado brava com ela na frente da classe. Aproveitei que era primeiro de abril e disse que já que P.I. existe, era para se tirar mesmo.” (Maria Valeria Grassi, 41 anos, bancária, falando da filha Dhárana, 10 anos, estudante)
“Nunca contei nenhuma mentira porque não tenho motivos. Sou correto, honesto, vivo em paz com todos e com a minha família e não vejo necessidade em mentir. A pessoa que vive de mentira vive em desarmonia e inventa algo para levar as pessoas na conversa.” (Wilson Fiorillo, 66 anos, funcionário público estadual)
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Famosos
Barão de Munchausen O alemão Karl Friederich Hieronymus lutou contra os turcos de 1740 a 1741, e, quando voltou da guerra, passou a relatar suas aventuras aos amigos. Ele conta que venceu um exército inteiro fantasiado de galinha, conseguiu sair de um poço muito fundo puxando os próprios cabelos, cavalgou em uma bala de canhão, ficou pendurado com seu cavalo na torre de uma igreja e subiu até a Lua escalando uma corda.
Pedro Malasartes Pedro Malasartes é um tipo caipira que defende os humildes desde a Idade Média. As histórias do mito, cheias de artimanhas e astúcias, já foram criadas em países da Europa e no Brasil.
Pinóquio Criado pelo escritor italiano Carlo Collodi, Pinóquio é um boneco de madeira que quer se transformar num menino de verdade. O livro foi editado pela primeira vez em 1883, na Itália. A particularidade do boneco é que seu nariz cresce cada vez que conta uma mentira.