08 de julho de 2026
Saúde

Nutrição se aprende em sala de aula

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 7 min

O valor dos alimentos, as propriedades nutricionais e funções de cada um e o melhor equilíbrio para as refeições - isto é o que um grupo de crianças de 2 a 12 anos está aprendendo em sala de aula desde o mês passado. Elas fazem parte do Programa Nutriamigos, idealizado pela nutricionista Suzana Janson Franciscato para ensinar educação nutricional para crianças.

Os Nutriamigos são personagens criados para ensinar ao público infantil, de maneira divertida, o valor dos alimentos e a importância de uma dieta balanceada. Inicialmente, o programa foi desenvolvido em vídeos e jogos educativos. Agora, a nutricionista resolveu levá-lo para a sala de aula, dando origem a uma nova fase.

Assim surgiu o curso "Aprendendo a comer", um pacote de seis aulas leves e divertidas com todos os recursos didáticos do Programa Nutriamigos. A sala é decorada com os personagens, painéis interativos e mesas onde são aplicados os jogos e atividades.

As aulas são realizadas uma vez por semana e duram apenas uma hora. Na primeira parte, os alunos assistem a um rápido vídeo, que mostra uma garotinha fazendo um trabalho para a escola. Ela tem que falar sobre os grupos de alimentos e são os Nutriamigos que aparecem para ajudá-la.

Em cada aula, um personagem fala sobre um dos grupos. Assim, as crianças conhecem as gorduras, as proteínas, os carboidratos e as vitaminas, fibras e sais minerais. Esta semana, por exemplo, os alunos conheceram as “Proteínas”. O personagem conta que as proteínas têm função construtora, ou seja, elas são os “tijolinhos” que formam músculos e ossos. Por isso, são essenciais para o crescimento, para o fortalecimento muscular, para a cicatrização e para as unhas.

No vídeo, o personagem explica que existem as proteínas de origem animal e vegetal, que as de origem animal são completas (leite, carne, ovos e derivados), enquanto as de origem vegetal são incompletas e precisam ser combinadas umas com as outras - é por isso que se come arroz junto com feijão e assim por diante.

Depois do vídeo, a nutricionista distribui tarefas para reforçar o aprendizado. “Vai depender da idade. No grupo de 2 a 5 anos nós usamos desenhos para pintar e ligar; no grupo de 6 a 8 anos, usamos desenhos e palavras-cruzadas simples ou frases para completar. E no grupo de 9 a 12 anos trabalhamos mais com a escrita”, descreve Suzana.

Os alunos têm um tempo para fazer os exercícios, que são corrigidos em conjunto com os demais alunos. Para encerrar a aula, a turminha participa de um joguinho que vai ajudar a fixar as informações.

De acordo com a nutricionista, o objetivo do programa é mostrar para a criança que cada alimento tem o seu valor, do chocolate à berinjela. “Nós não ensinamos uma dieta. Nós mostramos que todos os alimentos são importantes, mas que eles devem ser ingeridos com equilíbrio”, completa.

Ela salienta que as aulas são abertas para qualquer criança entre 2 e 12 anos de idade. “Temos alunos obesos que precisam perder peso, temos magrinhos que precisam engordar e temos crianças com peso adequado, mas que se recusam a comer determinados alimentos. O curso não é uma consulta, mas sim um programa de educação nutricional. Vamos ensiná-los a reconhecer e escolher os alimentos”, esclarece.

Questionada sobre o maior desafio na educação e reeducação alimentar, Suzana afirma que o mais difícil é convencer os pais a mudar seus hábitos. Ela lembra que a obesidade pode ser uma característica genética, mas que, muitas vezes, ela é reflexo apenas de maus hábitos.

“Ao trabalhar com as crianças, eu espero que elas levem os novos conceitos para seus pais, que ensinem para eles e cobrem uma mudança de hábitos. Mas ainda temos muitos desafios. Temos a mídia anunciando guloseimas tentadoras e temos todas estas guloseimas expostas no balcão da cantina da escola. Uma situação que também precisa mudar”, ressalta.

Ela cita exemplos, como o da Escola Dante Alighieri, em São Paulo, que reduziu em 14% o Índice de Massa Corporal (IMC) de seus alunos depois que desenvolveu ações educativas e modificações na cantina.

“A criança que se alimenta bem, com refeições equilibradas, distribuídas de três em três horas, tem boa memória, mais atenção, melhores resultados cognitivos, é mais ativa, mais apta a fazer atividades físicas, tem suas defesas imunológicas mais adequadas, enfim, é muito mais saudável”, completa.

• Serviço

Interessados em participar das aulas ou em adquirir os produtos Nutriamigos devem entrar em contato pelo telefone (14) 234-1323.

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Quem são os Nutriamigos

Nutriamigos é um programa de educação nutricional especialmente desenvolvido para apoiar profissionais de nutrição e saúde que trabalham com o público infantil. O projeto foi idealizado pela nutricionista Suzana Janson Franciscato em 1999. Ela percebeu que era muito cansativo para as crianças ouvir explicações do profissional durante uma hora de consulta.

“No começo eles até assimilavam alguma coisa, mas depois desistiram. Então, eu precisava criar uma ferramenta animada e divertida de ensinar nutrição para esse público infantil e surgiram os Nutriamigos - quatro personagens que representam os principais grupos alimentares: carboidratos, proteínas, gorduras e vitaminas, fibras e sais minerais”, conta.

Os personagens foram caracterizados por Carlos Alberto Gardin, figurinista responsável por projetos infantis como Castelo Rá-Tim-Bum, Glub-Glub e Mundo da Lua. Então, foram produzidos vídeos com cada um dos personagens que explicam o que é aquele grupo de alimentos, qual a importância dele para a saúde e quais alimentos engloba.

O personagem “Carboidratos”, também chamado de açúcar, representa o grupo dos alimentos energéticos, como pão, arroz, macarrão, bolo de fubá e bolachas. Esses alimentos são responsáveis por fornecer energia para o corpo, permitindo que a criança brinque, estude, nade, jogue bola e muito mais. Os carboidratos devem fazer parte de todas as refeições, mas em quantidades moderadas.

O personagem “Proteínas” representa os nutrientes construtores - aqueles responsáveis pelo crescimento, pelo desenvolvimento dos músculos, pelas unhas fortes e pela cicatrização dos machucados. As proteínas podem ser de origem animal (ovo, carne de vaca, carne de porco, peixe, frango, leite, queijo, iogurtes) e podem ser de origem vegetal (feijão, soja, lentilha, nozes). Elas também devem fazer parte das refeições, em quantidade moderada.

“Gorduras” representa aqueles alimentos que fornecem energia concentrada. A gordura é responsável pelo transporte e absorção de algumas vitaminas, ela regula a temperatura do corpo e protege os órgãos de pancadas fortes. Ela está presente tanto em alimentos de origem animal (carne, ovos, manteiga, leite), como nos de origem vegetal (óleo de soja, de canola, azeite).

Como todos os outros nutrientes, a gordura é muito importante para a saúde, mas em quantidade muito reduzida. Quem come gordura em excesso pode ficar obeso e, aí, esses alimentos acabam se transformando em inimigos.

“Vitaminas, Fibras e Sais Minerais” é o personagem das verduras, frutas e legumes. Ele representa os nutrientes reguladores, ou seja, aqueles que mantêm todas as funções do organismo bem reguladas. São esses alimentos que deixam pele e olhos bonitos, fazem o intestino funcionar diariamente.

Frutas, legumes e verduras devem ter lugar de destaque nas refeições. Um bom prato de salada, algumas colheres de diferentes refogados e uma fruta bem fresquinha de sobremesa compõem, junto com os outros alimentos, a refeição perfeita.

Além dos vídeos, o Programa Nutriamigos também tem um jogo da memória baseado na função dos alimentos, um CD-Rom com jogos educativos e a Nutricomédia - uma peça teatral que percorre 40 municípios do Interior paulista levando informação nutricional em troca de um quilo de alimento.

“E estamos sempre buscando novidades. O Programa Nutriamigos vai lançar em breve suas histórias em quadrinhos. As revistas já estão prontas, mas estamos buscando um patrocínio para que possamos distribuí-las gratuitamente para as crianças. E temos outro projeto em andamento, que são os Nutriamigos em 3D gravados em DVD”, completa Suzana.

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Controle da epidemia

De acordo com a nutricionista Suzana Janson Franciscato, profissionais de todo o mundo têm investido na educação nutricional para tentar conter a epidemia de obesidade que vem se alastrando pelo mundo. Segundo ela, os casos de obesidade infantil no Brasil triplicaram nos últimos 20 anos e hoje 14% das crianças estão acima do peso.

Segundo o pediatra canadense Oded Bar-Or, diretor do Centro de Nutrição e Exercícios para Crianças, da MC Master University, até os quatro anos, a probabilidade de uma criança manter a obesidade depois de adulta é de 20%. Se o excesso de peso permanece até a adolescência, ela pula para 80%.

Como conseqüência desta obesidade, os casos de doenças cardiovasculares, diabetes e hipertensão arterial também têm aumentado. Doenças que antigamente só apareciam em adultos com idade bem avançada já se manifestam mais cedo e até em crianças.