Bagdá - Caiu o regime de Saddam Hussein. No 21.º dia do ataque anglo-americano ao Iraque, e após 24 anos de uma das ditaduras mais sangrentas da história contemporânea, a maior parte de Bagdá estava ontem sob controle da coalizão, após uma coluna de tanques conduzidos por marines terem chegado ao centro de Bagdá sem sofrer ataques significativos.
A tomada culminou com a queda de uma estátua do ditador numa praça da capital cercada por populares, que comemoravam. Para consolidar sua vitória, porém, faltam aos EUA dois elementos fundamentais: deter ou matar Saddam, 65 anos, cujo paradeiro segue desconhecido, e exibir ao mundo o suposto arsenal de armas de destruição em massa usado por Washington e Londres como justificativa para a guerra.
“Saddam Hussein está agora tomando seu lugar de direito ao lado de Hitler, Stálin, Lênin e Ceaucescu no panteão dos ditadores brutais fracassados”, disse o secretário da Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld. No Catar, o comando militar da coalizão foi reticente e evitou declarar vitória ou mesmo confirmar a queda de Bagdá.
“A capital é uma das áreas sobre a qual o regime não tem mais controle”, limitou-se a dizer o general Vincent Brooks. Igualmente parcimonioso foi o tom de Washington e de Londres. “O presidente está sensibilizado pela exibição do poder da liberdade”, afirmou o porta-voz de George W. Bush, Ari Fleischer.
Para o premiê britânico, Tony Blair, o conflito não acabou e ainda há resistência, não amplamente difundida entre os iraquianos, mas entre partes do regime de Saddam que querem se manter no poder. No fim da tarde, o embaixador do Iraque na ONU, Mohammed Al-Douri, disse: “O jogo acabou, esperamos que a paz prevaleça”, quando questionado sobre a situação em Bagdá.
Foi a única autoridade do antigo regime a se manifestar publicamente. Rumsfeld retrucou em Washington: “Isso não é um jogo”. Mais tarde, o embaixador respondeu: “Eu quis dizer a guerra”. Ao mesmo tempo que celebrou a queda de Saddam, parte significativa do mundo árabe ficou perplexa com a rapidez com que o regime iraquiano desmoronou e teme o aumento da hegemonia dos EUA na região.
“As imagens dos soldados norte-americanos fazendo piquenique no coração de Bagdá atormentarão a mentalidade árabe por muitas gerações”, escreveu John Bradley, editor-chefe do diário “Arab News”. Apesar de enfrentar uma resistência inicial mais forte do que a antecipada por muitos, EUA e Reino Unido surpreenderam pela velocidade com que conseguiram desmontar a estrutura do regime iraquiano.
O último sinal de que o que restava do núcleo de Saddam Hussein não funcionava mais foi dado na manhã de ontem, quando o Ministro da Informação, Mohammed Said al Sahaf, não apareceu para suas entrevistas diárias.
Nos últimos dez dias, ele era o único que ainda falava em nome do regime. E negava, de forma quase surrealista, os avanços dos invasores. Em certo sentido, essa tem sido a guerra do não. Não está sendo tão cirúrgica e precisa como prometeu a coalizão - as vítimas civis iraquianas de bombardeios podem estar na casa dos 10 mil, segundo dados preliminares de organizações humanitárias.
Além disso, não houve ataques com armas químicas e biológicas por parte das forças leais a Saddam, que também não mandou mísseis em direção a Israel, Irã ou Jordânia, como se temia antes -apenas o vizinho Kuwait foi alvo de mísseis.
Mesmo assim, até as 20h30 de ontem (horário de Brasília) ainda havia combates em pontos isolados de Bagdá e em regiões ao norte da capital, como Tikrit, cidade-natal de Saddam Hussein. Não se sabe se Saddam sobreviveu aos bombardeios direcionados a ele e a seus filhos Uday e Qusay, e ele pode virar o próximo Ossama Bin Laden, o terrorista saudita que planejou os ataques de 11 de setembro contra os EUA e nunca foi encontrado.
Aproveitando o vácuo de poder, iraquianos em Bagdá e nas cidades tomadas do Sul saquearam durante todo o dia de anteontem prédios identificados com o regime deposto, como sedes do partido Baath, governista, delegacias de polícia, instalações militares e palácios presidenciais. Mesmo o quartel-general da ONU foi invadido.
As mercadorias roubadas - ou retomadas, como diziam muitos - iam de aparelhos de ar-condicionado a cadeiras, passando por quadros, pneus e até mesmo maços de flores. Outro momento significativo de ontem foi a entrada dos marines em Saddam City.
A favela, a leste de Bagdá, reúne cerca de 2 milhões de xiitas, maioria da população mas marginalizados pela minoria sunita, que comandava o país. “Bem-vindos, senhores”, gritavam eles aos soldados dos EUA.