09 de julho de 2026
Pesca & Lazer

História de Pescador: Travessia perigosa (parte I)


| Tempo de leitura: 2 min

Depois de seis horas de viagem de Kombi, partindo de Goiânia, transportando de carreta barco, motor de popa e todo material pesado de pesca. Nosso objetivo era o “Lagoão”, incrustado em pleno recôndito mato-grossense, nas imensidões de terras de nosso saudoso amigo Galdino de Almeida Prado, patriarca de influente família residente em Marília.

Éramos eu, “Beca”, José Toline, Wagner (médico), meus filhos Jacson, Marcelo e o dono da fazenda, que seria mais uma vez nosso anfitrião.

A perua gemia de peso, mas nenhum sinal de fraqueza apresentou. Nas descidas, ela embalava firme que dava medo, isso para compensar as subidas que a “amarrava” um pouco, mas logo em seguida tomava velocidade, apesar da leve pressão que exercíamos no acelerador.

O rio apresentava-se calmo. Teríamos de atravessar com a Kombi aqueles 1.000 metros de água que nos separavam da outra margem, mas como fazê-lo? As praias eram fofas e assim não dava.

O “Beca” que é engenheiro “bolou” um plano que poderia parecer de extrema loucura se visto por outros pescadores, mas nós éramos titulares de “carteirinha”, o que nos dava status de meio loucos, mas sabíamos onde encontrar nossas presas.

Escolhemos um barranco menos alto, uns 3 metros mais ou menos, desbastamo-lo com enxadas, deixando-o com um declive não mais do que quarenta e cinco graus; mesmo diminuída ela ainda nos parecia muito forte. Antes de levá-la à beira da encosta, fizemos um trato: se algum prejuízo houvesse ele seria rateado entre nós. Encostamos nosso barco de sete metros na base do barranco junto ao outro da fazenda que já nos esperava no local. Jungimo-os às quatro tábuas amarradas firmemente nas suas alças de transporte, formando um tablado atravessado, com espaço suficiente para acomodar o veículo.

Temeroso manobrei-o e o levei à beira da rampa. Ao olhar de cima aquelas águas profundas e a altura me parecendo cada vez maior minhas mãos tremeram. Vacilei...

Mesmo sob árvores frondosas nos sombreando e ventinho sul fresco batendo de frente em nossos corpos sem camisas, ainda assim sentia suores mornos gotejantes molhando meu peito nu e minhas faces lívidas, deixando-as brilhantes como se as tivesse besuntado de azeite. Sensação desconfortável e esquisita percorreu minha espinha dorsal, ao ponderar como seria possível eu controlar o pesado veículo nessa descida íngreme, confiando apenas nos breques e lá embaixo águas ligeiras e leito fundo? Tiques nervosos contraíam os músculos de meu rosto, boca ressequida pelos mil arrependimentos que sentia ao realizar tão audaciosa aventura.

Pensei em recuar, mas os colegas percebendo minha apreensão e também a deles resolveram reforçar nossa estratégia: amarramos duas cordas grossas nos eixos das rodas traseiras, à guisa de cirgas de efeitos contrários, demos uma volta com elas em duas árvores, para funcionar como se fora um talha (aparelho para levantar objetos pesados, com um mínimo de esforço). (Felisdeu Leão é pescador e contador de histórias)

* Continua na próxima edição