10 de julho de 2026
Guerra no Iraque 2003

EUA tentam impor toque de recolher

Agência Folha
| Tempo de leitura: 4 min

Bagdá - Tropas americanas receberam ordens para impor toque de recolher em parte de Bagdá, para tentar conter os saques e confrontos de rua que acontecem na cidade desde a queda do regime de Saddam Hussein, na última quarta-feira. No Norte, americanos tomaram Mossul, a maior cidade da região.

Tikrit, cidade natal de Saddam, tornou-se o último foco de resistência do Exército iraquiano. Nos EUA, o presidente George W. Bush disse que o Saddam não está mais no poder, mas que é cedo para declarar o fim da guerra. Em comunicado às tropas, o comandante dos EUA no Golfo, Tommy Franks, instruiu os soldados a garantir a operação dos serviços públicos em Bagdá.

Apesar das declarações americanas de que suas tropas tentam colocar ordem no caos que impera em Bagdá, as imagens da cidade ontem mostravam que seu objetivo está longe de ser alcançado. Incêndios eram vistos por várias partes na região central da cidade.

Os prédios dos Ministérios do Comércio e do Planejamento estavam em chamas, assim como um dos principais mercados da capital iraquiana. Dezenas de pessoas invadiram os prédios das faculdades de enfermagem e de engenharia da Universidade de Bagdá e saíram com abajures, mesas, refrigeradores de água e aparelhos de ar-condicionado.

Três homens apareceram no teto do prédio da Embaixada da Alemanha carregando uma antena de TV por satélite. Sofás, mesas, cadeiras, equipamentos eletrônicos e uma geladeira foram retiradas do Ministério da Informação.

A TV saudita mostrou imagens que seriam do escritório do ex-ministro da Informação, Mohammed Said al Sahaf, todo destruído, e de seu carro Mercedes sem os faróis. Crianças de até 10 anos participavam dos saques com seus familiares.

Em alguns bairros, os moradores ergueram barricadas com telhas, pedras e sacos de areia para tentar manter os saqueadores à distância. Muitos defendiam suas posses armados com fuzis.

No distrito de Al Mansur, no oeste da cidade, grupos de voluntários árabes pró-Saddam se postaram atrás de barricadas de sacos de areia, armados com lançadores de granadas e rifles Kalashnikov. Segundo os moradores, eles eram na maioria sírios.

Em Saddam City, pedidos para interromper os saques e a destruição da cidade eram passados pelos minaretes das mesquitas. Algumas pessoas atenderam aos pedidos dos clérigos e levaram produtos roubados para as mesquitas. Grupos de saqueadores também percorreram áreas residenciais, verificando as casas para ver se os moradores estavam.

Jornalistas que tentavam falar com os saqueadores tiveram roubados dinheiro e câmeras. Combatentes curdos e forças especiais norte-americanas completaram ontem a tomada do Norte do Iraque ao entrarem, sem enfrentar resistência, em Mossul, a mais importante cidade da região.

A queda de Mossul deixa Tikrit, cidade natal de Saddam Hussein, como último alvo significativo em território iraquiano a ser ocupado pela coalizão anglo-americana.

Exceto por bolsões de resistência em distritos de Bagdá e regiões como Qaim (Nordeste), as defesas do regime iraquiano ruíram, em não mais que 22 dias, diante do poderio militar dos EUA. “O Exército iraquiano não existe mais como corpo organizado”, disse o general Vincent Brooks, porta-voz do comando militar.

Segundo Brooks, oficiais da 5.º Corpo do Exército iraquiano, encarregado da defesa de Mossul, assinaram um cessar-fogo com as tropas dos EUA - cada unidade dessas do exército iraquiano deveria ter entre 20 mil e 30 mil combatentes, mas o número drasticamente reduzido devido às mais de duas semanas de bombardeios.

A CNN exibiu imagens de centenas de homens, supostamente combatentes, a maioria a pé, sem armas, trajando roupas civis, caminhando pelas estradas da região em direção ao Sul. A tomada de Mossul ocorreu um dia depois de os curdos (e membros de forças especiais dos EUA) terem assumido o controle de Kirkuk, o centro da indústria petrolífera do Iraque.

Ontem, de acordo com os EUA, os guerrilheiros cumpriram a promessa de deixar Kirkuk, a tradicional capital dos curdos. Fronteiriça ao Norte do Iraque, a Turquia reivindicou aos americanos que não permitissem aos curdos continuarem na cidade.

O temor é de que a minoria curda que vive em território turco deflagre um movimento de independência. Forças de coalizão destruíram cinco pequenos aviões (que poderiam ser usados para fugas) em Tikrit. Com apenas 28 mil habitantes, a cidade abriga um dos mais sofisticados palácios de Saddam - no qual estariam instaladas rotas de túneis e abrigos antiaéreos.

A cidade também era considerada um dos mais importantes centros de poder do partido Baath. Assessores próximos de Saddam e mesmo guarda-costas do ex-ditador eram recrutados lá.

Há semanas, por meio de bombardeios, os EUA tentam eliminar as posições da Divisão Adnan da Guarda Republicana, encarregada de defender Tikrit. Segundo um enviado da “Newsweek”, soldados e paramilitares permaneciam na cidade e destruíram uma ponte sobre o rio Tigre.

Mas outros combatentes, relatava o repórter, simplesmente abandonaram seus postos. Isso teria criado uma perímetro “sem lei” no qual guerrilheiros curdos estariam atacando vilarejos.

Tropas da coalizão enfrentaram dura resistência em Qaim, na fronteira com a Síria, considerada outra das rotas de fuga. Membros das forças especiais dos EUA atuavam na região à procura de membros do regime de Saddam.