08 de julho de 2026
Auto Mercado

A hora de deixar o volante

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 4 min

Quem é que não sonha, ou já sonhou, em um dia tirar a carteira de habilitação para conquistar aquela que pode ser considerada um dos símbolos da independência e da autonomia pessoal? Entretanto, certamente nenhum motorista perderá noites de sono se o assunto em questão for a hora de parar de dirigir.

Para muitos, trata-se de uma questão proibida e até vexatória de se comentar; outros já encaram com naturalidade e aceitam. Só que mais difícil ainda do que o ato de parar de dirigir é tomar a decisão de quando fazer isso. Segundo Abraham Rothberg, médico bauruense especialista em medicina do tráfego, o “xeque-mate” para tal iniciativa deve levar em conta, principalmente, as condições físicas do condutor.

Alguns dos indícios de que chegou o momento de abandonar o volante são a diminuição da capacidade de visão e a perda de reflexos e de movimentos em articulações de braços, pernas e joelhos, sintomas normalmente mais comuns em idosos. “Eles têm mais chance de desenvolver doenças articulatórias, como a artrose e o bico-de-papagaio, e oculares, como a miopia ou uma infecção, que podem incapacitar uma pessoa para guiar”, alerta ele.

Apesar disso, os jovens não estão ilesos do problema. Segundo Rothberg, apesar de serem mais raros em comparação aos idosos, há casos em que eles também estão sujeitos a ter de colocar a carta de habilitação para escanteio. “Isso ocorre, especialmente, devido a miopias, que tornam a pessoa incapaz de enxergar a longas distâncias e distinguir, por exemplo, uma placa de sinalização”, ensina o médico.

Entretanto, Rothberg enfatiza que, por tratar-se de uma decisão difícil e gerar certo constrangimento, é preciso conscientização. “Independente da idade em que estejam, as pessoas devem ter autocrítica suficiente para entender que suas deficiências na direção podem causar acidentes e colocar tanto sua própria vida em risco como a de outras em sua volta”, considera ele.

Apoio familiar

Mas a hora de parar de dirigir não envolve apenas aspectos físicos. Fatores psicológicos também influenciam nesse momento crucial na vida de muitas pessoas.

A psicóloga bauruense Regina Maura Pereira Torres, que aplica exames psicotécnicos em candidatos para obter ou renovar a carteira de habilitação, ressalta que a depressão profunda, as doenças neurológicas e alguns medicamentos, além do alcoolismo e das drogas, podem tornar um indivíduo incapaz para a atividade.

Além disso, acrescenta a especialista, características comportamentais, como agressividade, imaturidade e insegurança, no caso dos jovens, e de senilidade para os idosos são os principais motivos de reprovações durante os testes tanto para homens quanto para mulheres. “Nesses casos, pode-se supor que em qualquer situação de conflito no trânsito a pessoa não responderia adequadamente”, destaca ela.

Entretanto, Regina frisa que a idade também é relativa para decretar a incapacidade ou a aptidão de alguém para dirigir. “Há pessoas com 50 anos sem condições para assumir o volante de um veículo, enquanto outras com mais de 60 são perfeitamente capazes. Essas diferenças envolvem todo o histórico de vida de cada um e seus laços afetivos e emocionais”, argumenta.

Mesmo assim, a resistência em aceitar uma eventual impossibilidade de dirigir ainda é o maior obstáculo, conforme Regina. “Há os que encaram numa boa, mas a maioria reluta”, salienta.

E é justamente para auxiliar o “ex-motorista” na transição para sua nova realidade que a psicóloga sustenta ser fundamental o apoio familiar. “Não quer dizer que a pessoa deixará de sofrer, mas amenizará os problemas e ajudará a pessoa a se acostumar”, afirma.

Para Regina, o fato de ter de largar o volante não deve significar o “fim da vida” para o quem está passando por esta situação. “No Brasil dirigir tem tanta importância que não poder fazê-lo é visto até como uma perda de poder. Assim, a família deve reforçar a idéia de que, mesmo sem poder comandar o automóvel, o ex-condutor não deixará de andar de carro”, orienta ela.

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Ex-motoristas

Parar de dirigir não é um assunto que todos gostam de falar. Mas há quem, em um exemplo de amadurecimento e conscientização pessoal, converse sem a menor cerimônia ou constrangimento a respeito.

É o caso do aposentado bauruense José Luís, 82 anos, que não dirige mais automóveis há dois anos. Ele conta que abandonou o volante após contrair pneumonia e sofrer com as tonturas provocadas por uma labirintite. “Guiei durante 60 anos e tive de parar. Por isso, quem conduz um carro sem condições para isso está arriscando a própria vida”, pondera ele.

Outro aposentado, Anibal Ferreira, 77 anos, também não dirige “há muito tempo”, diz ele sem revelar o período. “Parei porque aposentei após dirigir mais de 40 anos. Além disso, cheguei à conclusão de que não dava mais para guiar”, afirma. Ele aproveita, ainda, para criticar o trânsito bauruense. “Está feio demais. Há muitos apressados”, considera.