Uma guerra sem armas bélicas, mortos ou feridos, mas com muitas estratégias. Talvez nada seja melhor para definir o atual momento do mercado automotivo nacional. Nunca o consumidor foi tão disputado e a competição entre as montadoras esteve tão acirrada.
E Bauru não foge à regra. Basta uma rápida visita às concessionárias, que iniciaram, há cerca de 40 dias, uma “avalanche” de promoções para atrair clientes e tentar aquecer as vendas. Para conquistar o consumidor, valia praticamente tudo. A Fiat ofereceu taxas de juros de 0,49%, seguro grátis e frete incluso para alguns de seus modelos, além de uma viagem ao GP Brasil de F1.
A Volks apostou em taxas de 0,9%, descontos para rurais e taxistas e unidades com preços antigos. A Chevrolet atacou com feirões de juros 0% e carros com preços sem os reajustes; a Ford investiu em valores congelados aliados ao ar-condicionado grátis para alguns modelos; a Renault também centrou forças em juros baixos mensais (0,79%), frete incluso e IPVA grátis; e a Peugeot escolheu o 206 1.6 16V para ofertá-lo a juros 0%.
O objetivo inicial, conforme relatam gerentes de agências entrevistados pelo AutoMercado&Cia, foi atingido. Tanto que a iniciativa acabou “salvando” o mês do setor, que se prenunciava tenebroso em virtude do desaquecimento econômico desencadeado pelas turbulências externas - leia-se guerra no Iraque - e pelos reajustes nos preços do automóveis efetuados no primeiro trimestre de 2003.
O gerente Renato Tambara Neto, da Baurucar/Volkswagen, frisa que, comparado à fevereiro, março foi um período “normal”. “Um mês que seria um desastre, em virtude da guerra e das incertezas econômicas, acabou sendo igual aos outros. Não houve acréscimo de vendas, e sim uma recuperação do nível anterior graças às campanhas promocionais”, explica.
E boa parte desse aquecimento, acrescenta ele, destinou-se para o Gol Special Geração 3 quatro portas, que respondeu por cerca de 70% das vendas.
Já o gerente Aldo Deienno Júnior, da Meta/Fiat, ressalta que as promoções aumentaram tanto o fluxo de clientes na loja quanto as vendas - entre 15% e 20%. Ele informa, ainda, que os “campeões” da preferência foram os carros que já possuem bom conceito no mercado, como a linha Palio, Uno Mille, Siena e, principalmente, o Stilo.
Fernando Vieira de Mello, da Amantini/Chevrolet, é outro integrante de concessionária a demonstrar o papel positivo das campanhas no aquecimento do mercado. Segundo o gerente, cerca de 75% das vendas em março foram efetuadas na segunda quinzena, auge do período de execução das mesmas.
“Com o aumento dos preços no primeiro bimestre, buscamos ações diferentes para recuperar os índices de comercialização anteriores. Mesmo assim, as vendas em 2003 ainda não estão iguais às do ano passado”, salienta Fernando. “Mas a expectativa é que abril seja melhor devido à continuidade das promoções”, complementa.
Estas também fizeram o Ka e o novo Fiesta os modelos preferidos da Ford durante as campanhas. O gerente Clóvis Eduardo Simão Filho, da Simão Veículos, afirma que, além do maior fluxo de clientes, as promoções refletiram em um aumento de vendas entre 15% a 20%. “A perspectiva para os próximos meses é que os números melhorem, pois a equipe está motivada”, garante ele.
Já na Renault, os carros-chefe no período foram o Clio 1.0 8V quatro portas e o monovolume Scénic 1.6 16V. O gerente geral Osvaldo Ribeiro destaca que as campanhas deram um novo “fôlego” às vendas. “Em comparação com fevereiro, houve um aumento de 30%”, diz.
Estratégia específica
A Peugeot foi uma das únicas a adotar uma estratégia específica para um modelo: o 206 1.6 16V. O gerente Marcelo Matiello ressalta que, apesar do atual momento do mercado ser um dos piores nos últimos quatro anos, as vendas não caíram. “Trabalhamos para manter e melhorar as estatísticas em relação à concorrência”, conclui ele.
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Bom negócio exige pesquisa
Diante da verdadeira “avalanche” de campanhas, promoções e descontos do mercado, o segredo do bom negócio está na paciência e na pesquisa. A receita é do economista bauruense Carlos Roberto Sette, para quem a razão deve sobrepujar a emoção.
“Os brasileiros têm tendência de passionalidade na hora de comprar algo. Mas isso não é uma boa idéia para quem pretende adquirir um veículo”, considera.
Por isso, antes de pensar no aspecto econômico, ele recomenda aos consumidores adotar alguns procedimentos. O primeiro, conforme Sette, é verificar o tipo de carro preferido entre os vários segmentos existentes atualmente.
Na seqüência deve-se estabelecer as competências técnicas de cada modelo. “Só depois disso é que a pessoa deve partir para a decisão financeira”, ressalta ele.
Sette destaca que, mesmo diferenciadas entre si, todas as ofertas das concessionárias são atraentes. Porém, ele enfatiza que, antes de fechar qualquer negociação, o comprador deve verificar o preço à vista do automóvel e efetuar uma previsão de gastos com o frete, IPVA e as parcelas de um eventual financiamento. “Ninguém deve se decidir sem antes fazer essas simulações ou ter pressa nessa hora”, alerta ele.
Outro cuidado preceituado pelo economista são com as compras financiadas. Segundo Sette, além de atentar-se mais uma vez para o preço à vista do bem, é igualmente importante analisar se o valor das parcelas é compatível ao orçamento familiar.
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Estagnação
Como confirmam os gerentes, apesar de terem contribuído para movimentar o mercado interno no período, as promoções não foram suficientes para fazer o setor de veículos novos retomar o mesmo vigor apresentado há alguns meses. Dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) comprovam a estagnação de vendas.
O total de veículos licenciados (unidades que saíram das fábricas e concessionárias) em março corresponde a uma queda de 17,2% em relação ao mesmo mês de 2002, quando o total vendido foi de 123.788 unidades. Na comparação com fevereiro, quando foram licenciados 117.865 veículos, houve queda de 13%.
No acumulado do ano - período em que a indústria registrou licenciamento de 332.424 unidades, a redução foi de 1,1% em relação ao mesmo período de 2002. Já a produção de veículos no mês passado apontou mais uma diminuição - 7,3% em relação a fevereiro - com a fabricação de 143.420 unidades. Na comparação com março de 2002, a queda foi de 6,9%.