08 de julho de 2026
Saúde

Mudar hábitos é primeira recomendação

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 4 min

Especialistas afirmam que as desordens temporomandibulares (DTM) podem ser causadas por inúmeras situações. Boa parte delas refere-se a maus hábitos. Por isso, a primeira orientação que os pacientes recebem para aliviar os sintomas é uma lista de coisas que não devem fazer.

De acordo com a cirurgiã-dentista Daniela Castilio, professora do curso de Odontologia da Universidade do Sagrado Coração (USC), o estresse, por exemplo, tem se mostrado um dos principais fatores desencadeantes de problemas de ATM. É comum, segundo ela, pacientes relatarem que suas dores apareceram depois de um período de estresse prolongado.

“Ele provoca uma série de alterações em nosso organismo. Algumas são boas, outras são ruins. Em algumas pessoas, o estresse crônico pode tirar os músculos do estado de repouso para um estado de contração excessiva. Essa hiperatividade pode deixá-los doloridos”, comenta.

“Os hábitos parafuncionais também são grandes causadores das DTM”, salienta Paulo César Rodrigues Conti, professor da Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB/USP). Hábitos parafuncionais são aqueles em que a pessoa usa determinada parte do organismo para desempenhar funções que são totalmente desnecessárias.

No caso das articulações temporomandibulares, pode-se citar como maus hábitos o mascar chicletes, morder canetas e roer unhas. Estas situações exigem que as estruturas faciais façam movimentos semelhantes aos da mastigação. Porém, essa mastigação não cumpre com seu papel verdadeiro, que é triturar alimentos que servirão de “combustível” ao organismo.

“O bruxismo é outro hábito parafuncional comum. Pessoas que rangem os dentes enquanto dormem, além de desgastá-los, estão sobrecarregando a articulação, a musculatura e os ligamentos faciais”, acrescenta. Estudos mostram que a força empregada na mordida inconsciente do bruxismo é 30 vezes maior que a força usada na mastigação consciente dos alimentos.

Mas os maus hábitos não são os únicos vilões no aparecimento das DTM. A cirurgiã-dentista Simone Soares comenta que, algumas vezes, o problema articular é conseqüência de uma restauração que ficou muito alta. “Quando isso acontece, ocorre uma alteração na oclusão do paciente. Muitos começam a sentir as dores em poucos dias. Outros adaptam sua mordida e não sentem nada”, explica.

Na opinião dela, estes são os piores. Ao alterar a mordida, eles podem gerar uma sobrecarga às estruturas da articulação. Se não sente dor, a pessoa mantém a mordida alterada e, a médio ou longo prazo, promove desgastes na articulação, nos músculos e ligamentos.

Há, também, os casos de DTM causados por doenças propriamente ditas. Dentre elas, a artrite reumatóide é uma das mais freqüentes. Artrite é uma inflamação que ocorre nas articulações e pode acometer a ATM da mesma forma como afeta joelhos, cotovelos e todas as outras “juntas” do corpo. Neste sentido, a regra vale para várias patologias: artrose, lupos, artrite psoriática e muitas outras.

“Também existem os problemas temporários. A pessoa leva uma bolada no rosto, por exemplo, e sofre uma lesão na musculatura da face ou uma fratura nos ossos da articulação. Ela pode ter uma desordem temporomandibular temporária”, salienta Soares.

Sinais e sintomas

A estrutura temporomandibular engloba ossos, disco articular, ligamentos e músculos. Por isso, as DTM podem apresentar os mais variados sinais e sintomas. Entre eles, o mais comum, segundo os professores entrevistados, é a dor.

Este sintoma pode acometer tanto os músculos da mastigação, como pode irradiar para a cabeça e para o pescoço. É comum uma pessoa procurar um neurologista para tratar uma cefaléia freqüente e descobrir que seu problema está na ATM.

Paralelamente à dor, quem tem DTM costuma apresentar estalidos na articulação, ou seja, sempre que movimenta a mandíbula, ela ouve “cliques” - um barulho bem semelhante ao estalar dos dedos.

Em casos graves, a pessoa poder perder o controle sobre a articulação a apresentar um travamento de mandíbula, ou seja, ela faz um movimento mais brusco e o osso sai do lugar, causando dores muito fortes. Neste caso, é indispensável procurar um profissional.

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Sem protocolo

De acordo com os especialistas ouvidos pela reportagem, a medicina internacional ainda não tem um protocolo de tratamento específico para as desordens temporomandibulares (DTM). Os estudos destes distúrbios começaram há apenas 60 anos - é muito pouco tempo para um estudo científico definitivo.

Por isso, eles salientam que a recomendação que os cirurgiões-dentistas têm para tratar pacientes com DTM são de tomar medidas conservadoras, não invasivas e reversíveis. Isso significa que, se houver uma artrite, os pacientes serão encaminhados para um tratamento reumatológico convencional.

Havendo bruxismo ou tensão exagerada com ranger de dentes, os profissionais podem recomendar o uso de placas miorelaxantes entre os dentes. Estas placas impedem o contato dos dentes enquanto há tensão e podem ser retiradas tão logo a pessoa consiga controlar a origem de seu estresse.

Até há poucos anos, houve quem sugerisse a realização de cirurgias para corrigir desvios. Hoje, segundo os entrevistados, sabe-se que a maioria destes procedimentos não consegue reverter de fato o problema.