08 de julho de 2026
Geral

Ecológico, bambu substitui até plástico

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 3 min

“O bambu é um material ecológico leve, resistente, versátil e com excelentes características físicas, químicas e mecânicas, que pode ser utilizado em reflorestamentos e até substituir a madeira ou mesmo plásticos e metais. Entretanto, no Brasil ele é subaproveitado.”

Assim Marco Antonio dos Reis Pereira, docente do Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia da Unesp de Bauru, define a planta que dá o nome a um projeto, do qual ele é o coordenador, desenvolvido na instituição desde 1992 no Laboratório de Processamento de Madeira.

O estudo abrange mais de 25 espécies de bambu, 12 delas prioritárias segundo classificação do International Network for Bamboo and Rattan (Inbar), um dos mais importantes órgãos mundiais de incentivo ao uso da planta.

O primeiro trabalho desenvolvido pelo projeto foi a utilização da gramínea como condutor de água para irrigação de baixa pressão. “Devido aos baixos custos envolvidos, é uma alternativa para os pequenos produtores rurais, que normalmente não têm acesso à tecnologia de irrigação”, explica o docente.

Ele acrescenta que, mesmo sem tratamento de preservação, a tubulação enterrada de bambus tem vida útil de um ano a um ano e meio. “Em seguida, eles apodrecem, mas podem ser substituídos, através de operação fácil e rápida, por outros tipos da planta”, garante.

Atualmente, o projeto acompanha o crescimento das espécies cultivadas no câmpus e desenvolve pesquisas na área de processamento e produtos à base de bambu laminado colado (BLC), como pisos, painéis e cabos de ferramentas, utilizando matéria-prima oriunda de plantio próprio.

Apesar de todo este potencial, Marco Antonio enfatiza que, no Brasil, a utilização do bambu é extremamente limitada, principalmente quando a comparação é feita com países, como a China, Colômbia, Chile, Equador e Peru, onde a planta é elemento constante de sua cultura. “No País, o uso ainda restringe-se à produção de papel, artesanato, vara de pescar, móveis e brotos comestíveis”, ressalta.

Para o professor, a razão de tal “pouco caso” com o bambu está no fato de muitos desconhecerem suas milhares de espécies, características e aplicações. “Na China, por exemplo, há mais de 4 mil utilidades para a planta. Já no Brasil a grande maioria o desconhece, principalmente, pela falta de pesquisas e informações especiais”, considera Marco Antonio.

Segundo o docente, não é exagero classificá-la como a “planta dos mil usos”. “Ele pode ser utilizado na produção de alimentos, armas, utensílios domésticos, ferramentas agrícolas, artesanato, papel, tecido, cordas, jangadas e uma infinidade de itens”, destaca ele. “Ele também não agride o meio ambiente e cresce muito mais rápido em relação a madeiras comerciais como pinus e eucalipto”, complementa.

Apesar disso, destaca o professor, o Brasil já caminha a passos largos para fazer o bambu sair do atual obscurantismo. Além de já ter se filiado ao Inbar, que já reúne 23 países, o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Renováveis (Ibama) está montando um centro de pesquisas e utilizações tecnológicas da gramínea. “São iniciativas fundamentais para tornar as aplicações do bambu mais conhecidas.”

Bambu no mundo

No mundo, o bambu distribui-se dos trópicos até as regiões temperadas, sendo encontrado desde o nível do mar até 3 mil metros de altitude. Há cerca de 50 gêneros e 1250 espécies.

Organismos internacionais ligados à cultura do bambu recomendam a introdução, em cada país, de 19 espécies consideradas prioritárias, com base em critérios relativos à sua utilização, cultivo, processamento, recursos genéticos e agroecologia.

Ele já foi empregado na cúpula do imponente Taj Mahal, construído no século XVII, na Índia, e também na construção dos primeiros aviões por Santos Dumont, no início do século XX.

Conhecido como a madeira dos pobres, na Índia, e no Vietnã, o bambu tem a China como seu maior produtor mundial, com uma área plantada da ordem de sete milhões de hectares. Lá, é utilizado em aplicações industriais como broto comestível, celulose e papel, material para engenharia, construção, química, móveis, produtos à base de bambu processado e laminado colado.