Avaí - Índios ensinando as crianças da própria aldeia. Desde fevereiro, assim tem sido a rotina nas salas de aula das tribos de Avaí (40 quilômetros a Noroeste de Bauru), a 33 quilometros de Bauru. Uma decisão da Secretaria Estadual da Educação determinou que os professores de origem indígena deveriam assumir as turmas.
A medida faz parte de uma resolução do Conselho Nacional de Educação (CNE). Os novos professores estão sendo preparados por um curso especial, conhecido como magistério indígena. “Ele permite que nós estejamos preparados para transmitir o conhecimento às nossas crianças”, conta o índio terena Alicio Lípu, que se forma em setembro.
Ele dá aulas para 15 alunos de 3.ª e 4.ª séries na aldeia Kopenoty. A escola, que tem paredes de madeira, vai se mudar até o final do ano para um prédio de alvenaria, que está sendo construída com recursos do governo estadual. O espaço contará até com uma sala de informática.
Lípu, que já trabalhava há dois anos como estagiário, diz que as crianças estão se acostumando à nova grade curricular, que incluiu o idioma local e a cultura indígena. Sobre a preferência dos alunos, ele é enfático. “Eles não fazem distinção. Gostam de todas as matérias.”
Curso superior
A índia Edeutrudes Sebastião, que trabalha com 27 índios de 1ª e 2ª séries, não se contentou com o magistério. Ela está no 3º ano do curso de pedagogia da Universidade do Sagrado Coração (USC), em Bauru.
A experiência na aldeia Kopenoty é a primeira dela no comando de uma classe. “Foi uma mudança muito grande, porque nunca tive essa responsabilidade antes, já que eu era apenas estagiária.”
Segundo ela, é fácil apontar a principal carência dos alunos. “Muitos deles têm problemas com o ditado.”
O professor Valdecir Ribeiro Alves dá aulas para 25 alunos de 1.ª a 4.ª séries na aldeia guarani Nimuendaju. “A única dificuldade foi a rapidez com que deixei de ser estagiário para assumir a turma. De resto, a mudança não foi tão grande, pois no magistério nós aprendemos noções sobre como trabalhar em classe.”
Para ele, as matérias indígenas estão chamando a atenção das crianças. “Elas gostam de tudo que é novidade.”
Alves acredita que a criação dessas escolas especiais foi uma decisão acertada. “Sentimos que ficou melhor. Além do que nós aprendemos no magistério, podemos passar para as crianças um pouco da nossa cultura, que é adquirimos no nosso dia a dia. O resultado tem sido bom.”
A aldeia também vai ganhar uma nova escola, que tem o mesmo projeto da que está sendo erguida em Kopenoty. “Por enquanto estamos trabalhando com todos os alunos juntos. Lá teremos duas salas e será possível separar as turmas”, diz o professor.
Amor a tribo
O novo sistema de educação também agradou às crianças. Tímidas, elas expressam com poucas palavras o que estão sentindo. “Eu achei bom”, afirma Evelin Cristina Rodrigues, 9 anos, que aponta a matemática como a matéria preferida.
Alison Luan Lípu diz não ter preferência entre as disciplinas indígenas e convencionais. “Gosto das duas.” Para Jéssica Silvério Cesário, 10 anos, as aulas estão sendo importantes. “Já falo o terena em casa e agora estou me aprimorando.”
Entre os índios, há outra certeza: a vontade de permanecer na tribo quando crescerem. “Pretendo ficar por aqui”, conta Luciano César, 12 anos. Quando terminarem a 4.ª série, no entanto, eles vão ter que se acostumar a visitar a cidade todos os dias. “A partir daí, os índios passam a freqüentar as escolas municipais de Avaí”, explica a professora Maria Tereza Momo Freddi.
Ela era a responsável pelas turmas até fevereiro, quando houve a mudança na legislação. Agora, trabalha como coordenadora nas escolas das duas aldeias.
Freddi defende a criação das ecolas indígenas. “Eles têm um jeito de ser especial, falam baixo e não estão acostumados a ficar bravos. Por mais que tentemos respeitá-los, sempre acabamos transgredindo algumas regras. Os professores da aldeia já conhecem as famílias, o que torna a tarefa mais fácil.”
Apesar dos elogios, ela acha que a transição foi rápida demais. “Eles fizeram o curso, mas não têm prática. Ainda vai levar um bom tempo até que consigam se manter sozinhos.”
A Prefeitura Municipal de Avaí, que administrava as escolas até o início do ano, ainda fornece a merenda e o material escolar. “Com o fim das obras, a intenção é de que a comida seja feita aqui mesmo, com um cardápio próprio. Atualmente, eles comem macarrão e salada, que não fazem parte do costume alimentar deles”, diz Freddi.
O administrador regional da Fundação Nacional do Índio (Funai) em Bauru, Amauri Vieira, acredita que as escolas têm um papel fundamental. “Elas contribuem para a preservação da cultura indígena. É por isso que batalhamos para que elas fossem implantadas.”