Uma empregada doméstica varrendo a frente da casa com a porta de entrada aberta. Esta foi a chance que um fugitivo do Instituto Penal Agrícola (IPA) de Bauru aproveitou para praticar um roubo no Jardim América, ontem pela manhã.
David Rocha, conhecido como Febem, armado com um canivete, rendeu seis pessoas na casa e conseguiu fugir com o carro da família levando duas armas de fogo, jóias, talões de cheques e cheques preenchidos.
Ele foi localizado na favela do Jardim Europa, minutos após o crime, e ao resistir à prisão foi morto pela Polícia Militar (PM) com dois tiros, segundo boletim de ocorrência registrado no 3.º Distrito Policial.
O assalto aconteceu por volta das 10h, quando a doméstica, que teve seu nome preservado por questões de segurança, varria a entrada da casa. O assaltante rendeu a empregada com um canivete e entrou na casa, localizada na quadra 4 da rua aviador Antônio Gomes Meirelles. Em seguida, o rapaz rendeu os donos da casa - o casal e sua filha - cujos nomes foram preservados por questões de segurança. Os reféns foram levados para um dos quartos e amarrados com lençóis.
Dois pintores, que chegavam na casa para recolher o material de trabalho, foram rendidos e amarrados juntamente com a família. O ladrão procurava por dinheiro e jóias. Encontrou o cofre e pediu o segredo para o proprietário da casa. Mesmo com o código, ele não conseguiu abrir o guarda-valores e libertou, temporariamente, o dono da casa para que ele abrisse o cofre.
No cofre, o ladrão encontrou grande quantidade de jóias, que ainda não tinham sido avaliadas até o fechamento desta edição, além de talões e cheques preenchidos de terceiros, relógios e duas armas, um revólver 32 e um calibre 22. Para fugir, o assaltante usou o Verona da família. Pouco depois, o carro foi encontrado, abandonado, próximo à favela do Jardim Europa.
O local foi cercado pela Polícia Militar e com a informação de um dos moradores os policiais chegaram ao barraco, onde o fugitivo do IPA estava escondido. A porta estava com cadeado, porém foi aberta e dois policiais entraram no primeiro cômodo. Pela fresta de madeira viram o assaltante armado e por duas vezes solicitaram que ele entregasse a arma e se rendesse.
Como a ordem não foi acatada, os policiais entraram no quarto. Um dos disparos feitos por um soldado da PM atingiu o abdome e outro, o ouvido esquerdo do rapaz. Com vida, Rocha foi socorrido ao Pronto-Socorro Municipal, onde chegou morto. Os dois revólveres roubados da residência foram encontrados no barraco. Ambos já estavam com numeração raspada. Da arma calibre 32 faltavam duas cápsulas, denotando que foi usada pelo fugitivo - o dono da arma garantiu que o revólver estava carregado com seis cápsulas.
Investigações
O assalto está sendo investigado pelo 3.º Distrito Policial. O delegado-adjunto do DP, Ismael Cavalieri, está encarregado de esclarecer este e outros assaltos ocorridos em Bauru que podem ter o envolvimento de Rocha. “Estamos convocando as vítimas da zona sul que sofreram roubos recentemente para tentar reconhecer o assaltante pela foto”, conta.
Ele acredita que Rocha seja o autor de outros crimes. “Ele abandonou o presídio após o dia 8, data limite para que ele retornasse da saída temporária de Páscoa, que este ano foi antecipada. Neste período, ocorreram outros assaltos”, ressalta.
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Policial será afastado
O policial autor dos disparos que atingiram e mataram o assaltante passará por uma avaliação psicológica, segundo informou o major Pedro Batista Lamoso, coordenador operacional do 4.º Batalhão da Polícia Militar do Interior. “Ele será afastado da rua e avaliado por uma psicóloga. A avaliação determina se ele terá que passar por um curso”, diz.
O curso é ministrado quando há um grupo de policiais para passar por reciclagem, explica o major. “O curso é oferecido quando tem um determinado número de policiais abalados psicologicamente”, diz Lamoso.
No aguardo do curso, se for o caso, o policial envolvido na morte fica afastado de seu cargo. “Passa a fazer trabalho administrativo para que não fique exposto. Queremos preservá-lo”, afirma. Lamoso lembra que em casos de morte o policial envolvido responde a um inquérito policial militar.
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Hora e lugar errados
Uma frase popular dita com freqüência espelha bem o que aconteceu com dois pintores de parede que foram feitos reféns ontem, durante o assalto. Eles foram à casa assaltada buscar o material de trabalho de um serviço anterior e acabaram passando pela primeira triste experiência de serem feitos reféns.
Eles chegaram na residência, pouco depois que o ladrão tinha entrado, e foram atendidos pelo assaltante. Um dos pintores explicou que acabou o serviço de pintura na última sexta-feira. “Deixamos nossas coisas na casa. Hoje (ontem) fomos buscá-las. Quando chegamos não percebemos nada de estranho. Acionamos o interfone e ninguém atendia. Sabíamos que tinha gente na casa porque o carro estava na garagem”, conta um deles, que teve o nome preservado por questões de segurança.
Após o interfone ter sido acionado várias vezes, o ladrão abriu o portão e pediu para o pintor entrar. “Eu entrei e na sala encontrei o casal e a filha deles amarrados. Eu também fui ameaçado com o canivete e levado para o quarto. Quando entrei na sala, percebi que o dono da casa tentou fazer um sinal do que estava acontecendo, mas era tarde demais. Eu já estava sob a mira do canivete”, relata.
Os seis foram colocados no quarto e a porta foi fechada. “O ladrão falou que ia fazer uma limpeza. Pouco depois voltou e pediu o código do cofre. Perguntou se haviam armas na casa. O proprietário da casa negou. Como ele não conseguiu abrir o cofre, retornou e obrigou o dono da casa a abrir. Encontrou as armas”, conta.
Armado com os revólveres, o assaltante se sentiu mais forte e provocou pânico. “Ele voltou para o quarto e ficou brincando com as armas. Pensei que ele ia nos matar. Tive a sensação ruim de que a morte estava próxima”, lembra um dos pintores. Mas o ladrão não agrediu ninguém.
Ameaçou trancar a porta do quarto, mas usou de uma tática que misturada ao medo fez com que as vítimas permanecessem mais tempo amarradas. “Ele jogou a chave no chão e disse que não ia trancar porque ainda estava arrumando as coisas que ia levar. Saiu com o carro sem colocá-lo em funcionamento. Nós não ouvimos o carro sair e ficamos sem reação, com medo que ele ainda estivesse no local”, conta.
A filha dos donos da casa foi amarrada de posse de seu celular - o ladrão não teria percebido que ela sentou sobre ele, segundo a testemunha. “Ela conseguiu discar para a casa da tia dela e eu falei para a mulher avisar a polícia que estávamos presos no quarto. A tia é que chamou a polícia, que chegou quando já tinha passado, pelo menos 15 minutos”, relata o pintor.