Após a publicação de minha carta “Onde está a honestidade?”, nesta Tribuna, em 8/4, nunca ninguém me ligou tantas vezes. E não era para cobrar nada. Foram mais de uma dezena de ligações, de pessoas que descobriram meu telefone e me congratularam. Uns dizendo-me ousado, outros corajoso. Teve um que veio com a conversa de que a “tática” utilizada é a do malandro, aquele que chuta o balde e fica na espera do criticado vir-lhe oferecer algo para calar-se para sempre. Sorri e não reagi, era um conhecido. Muitos citaram-me outros casos de corrupção pública, alguns que ainda não tinha conhecimento. Cheguei a pensar, que se existisse um Disque-Delação, muito mais coisas seriam descobertas. Fica a idéia, apesar de ser contra o dedo-durismo. Fui parado na rua. O jornaleiro veio me cumprimentar. Fui abordado por um descrente, dizendo que o mundo é assim mesmo, que sempre foi assim, que nada mudará e que daqui a alguns dias tudo cairá no esquecimento. Sei disso, mas mesmo assim, quis demonstrar meu descontentamento (que é o de muitos, talvez da maioria) e revolta, que me engasgava a garganta. Na porta da escola do filho, um outro pai vem me dizer que pensa igual a mim, mas que só agimos assim, porque não estamos no lugar deles. Segundo ele, muitos dos que estão lá, pensavam exatamente igual a nós, mas acabaram cooptados pelo sistema, que acaba por engolir a todos. O mais inusitado do dia foi um telefonema e a visita do vereador Paquito, querendo demonstrar pessoalmente sua honestidade. Trouxe um calhamaço de provas. Li e concordo, pois faço exatamente igualzinho a ele em minha firma. Quando recebo um cheque cruzado e estou duro, recorro a meu pai, que me dá em espécie. Só que aqui a firma é minha, presto contas a mim e ao fisco, só. Lá, a coisa é pública e a cobrança é de toda uma população. E de alguns “colegas de trabalho”, que ficam esperando acontecer um deslize desses. Ele sabe muito bem como se defender, está bem fundamentado e tem um ótimo advogado. Disse-lhe que não nominei ninguém no meu desabafo e que só escrevi fatos que já são do conhecimento público. Ele mesmo não nega a existência de muita coisa mal resolvida lá dentro, algumas delas nunca tomaremos conhecimento. E para completar meu dia, como já previa, recebo também duas outras ligações. Essas de cobranças, que não têm nada a ver com o assunto de minha carta. (Henrique Perazzi de Aquino - RG 9.710.205-2)