08 de julho de 2026
Geral

AHB suspende internação agendada

Ieda Rodrigues
| Tempo de leitura: 5 min

A Associação Hospitalar de Bauru (AHB), que mantém os hospitais de Base, Manoel de Abreu e Maternidade Santa Isabel, suspendeu ontem as internações feitas mediante agendamento para os pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS). Os três hospitais vão internar apenas pacientes cujos quadros clínicos sejam considerados de emergência e urgência, informa a assessoria de imprensa da AHB.

A diretoria da entidade afirma que tomou a medida porque há meses tem internado mais pacientes que a cota definida pelo Ministério da Saúde. As internações além da cota autorizada já somam R$ 2 milhões, valor que a AHB não está conseguindo receber do Ministério da Saúde, segundo Zarcillo Barbosa, assessor de imprensa da entidade.

A cota mensal do SUS para internação nos hospitais da AHB é de R$ 1,4 milhão. “Há seis meses a cota está sendo ultrapassada e o SUS não paga além do valor estipulado. E a associação não tem mais como financiar os atendimentos não-pagos. O valor extrapolado, R$ 2 milhões, é o faturamento do mês da associação”, explica Zarcillo.

O SUS representa mais de 90% dos atendimentos feitos pelos hospitais da AHB.

Ele frisa que estão suspensas as internações que podem ser adiadas, que os pacientes não correrão risco de morte. “Vamos continuar internando os pacientes encaminhados pelo pronto-socorro e pela Central Reguladora de Vagas da DIR-10 (Direção Regional de Saúde) com diagnóstico de emergência e urgência”, diz.

Por mês, os três hospitais da AHB fazem cerca de 1.900 internações. Destas, entre 190 e 285 são previamente agendadas por não serem consideradas de emergência nem urgência. Por conta da cota para internação de pacientes do SUS estar sendo extrapolada há meses, a AHB já não vinha fazendo novos agendamentos, de acordo com Zarcillo.

O servidor municipal Roberto Antonio da Silva, que sofreu uma lesão no ligamento do joelho e precisa passar por cirurgia, é um dos pacientes que já tentou e não conseguiu agendar internação na AHB.

“Ele caiu em um barranco no trabalho e depois caiu de novo ao chegar em casa, em janeiro. Desde então, a perna já foi engessada e enfaixada. Ele fez fisioterapia, mas continua arrastando a perna e afastado do trabalho porque não consegue abaixar-se e levantar-se”, conta Romilda Aparecida de Marins, sua mulher.

Ela relata que tentou marcar a cirurgia para o marido, que não tem plano de saúde, na AHB e no Hospital Estadual de Bauru, mas não conseguiu. “No Hospital de Base me mandaram para o Hospital Estadual. Lá, também disseram que não podiam fazer a cirurgia. A gente fica sem saber a quem recorrer. Tenho medo que a perna dele acabe atrofiando”, afirma.

O ortopedista Leornado Barbi, que atendeu Silva no Hospital de Base, confirma que ele precisa ser operado e está impossibilitado de práticas esportivas e trabalhos braçais. Porém, o médico garante que não há urgência na cirurgia. “Ele precisa sim ser operado, mas pode esperar. A lesão no ligamento é um caso que recomendamos a cirurgia porque a longo prazo pode causar desgate do joelho”, frisa.

Na rede particular, a cirurgia custaria cerca de R$ 3 mil, segundo Romilda. “Já vimos até o preço, mas não temos condições de pagar. Meu marido ganha R$ 380,00 por mês. Já não está no plano de saúde da prefeitura porque não tem condições de pagar”, frisa.

Desde ontem, a orientação da AHB aos pacientes que precisem de internação e cirurgia eletivas é que procurem a CRV, para que sejam encaminhados a hospitais da região. A assessoria de imprensa da AHB não prevê quando as internações por agendamento serão retomadas.

“Estarão suspensas até o SUS autorizar o pagamento porque a AHB não tem condições de arcar com essa despesa extra. Esperamos que um dia esse valor seja pago”, afirma Zarcillo. Para ele, a única saída é o Ministério da Saúde aumentar a cota para atendimentos através do SUS.

Se não receber os R$ 2 milhões, a expectativa da AHB, que já suspendeu as internações mediante agendamento outras vezes pelo mesmo problema, é equalizar receita e despesa em alguns meses. “Com a suspensão das internações eletivas, vamos ficar no limite da cota”, diz.

Zarcillo garante que a AHB está pagando em dia seus funcionários e que, por enquanto, não há problemas com fornecedores. “É claro que temos dívidas com fornecedores, mas pagamos parte do valor e rolamos o restante. O maior problema é que estamos sem capital de giro”, afirma.

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Atendimentos*

• 1.900 internações

• 35 mil exames

• Entre 20 e 25 mil raios-x

• 15 mil consultas

• 1.100 hemodiálises

• Entre 250 e 300 tomografias

• 100 ressonâncias magnéticas

* mensais (Fonte: AHB)

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Falta informação

Ainda não está esclarecido como serão encaminhados os pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) que precisam agendar internações já agendadas. Ontem, o diretor técnico da Direção Regional de Saúde (DIR-10), Affonso Viviani Júnior, não atendeu a equipe do JC para prestar informações porque estava viajando.

As incertezas só serão dirimidas no início da próxima semana, quando ele explicará qual será a conduta adotada. A entrevista foi confirmada por funcionários da DIR-10, para quem ele é o único competente para elucidar as dúvidas.

Enquanto Viviani não se manifesta, os médicos do SUS não se arriscam a prestar as orientações. Adiantam apenas que a Central Reguladora de Vagas (CRV) não deve ser acionada porque os casos não são de emergência. A CRV tem a incumbência de encontrar leitos nos hospitais da região para casos urgentes que não conseguem atendimento no município.

“No feriado, quase 100% do serviço acaba sendo atendido em esquema de plantão. De hoje (ontem) até terça-feira as cirurgias dificilmente seriam realizadas. Só a partir de terça é que saberemos quanto tempo o atendimento na Associação Hospitalar de Bauru (AHB) permanecerá suspenso. A situação pode ser revertida rapidamente”, comenta um médico que pediu para ter o nome preservado.

Na opinião dele, se o entendimento entre DIR-10 e AHB for lento, provavelmente Viviani fará contato com os hospitais da região para estudar um procedimento a fim de agilizar os encaminhamentos.

“Ainda não sabemos se o paciente deve procurar seu médico para pedir esclarecimentos ou se será comunicado de outra forma”, conclui. (Luciana La Fortezza)

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