O que leva uma pessoa a abandonar o paletó e a gravata ou a roupa de trabalho do dia-a-dia para, vestido à la James Dean, sair do aconchego do lar e da família e ir a um encontro de motos distante centenas - às vezes milhares - de quilômetros de sua casa? Para os amantes das máquinas de duas rodas, a resposta é simples: paixão e vontade de fazer algo diferente da rotina.
Sofrer uma verdadeira transformação, seja na personalidade mas principalmente no vestuário, já faz parte da rotina de muitos motociclistas brasileiros, cuja participação em encontros do gênero é encarada como uma rara oportunidade para rever amigos e esquecer das tensões cotidianas.
O AutoMercado&Cia foi conferir estas mudanças de hábitos durante a 6.ª edição do Motofest, em Ourinhos (120 quilômetros de Bauru), evento considerado um dos cinco melhores do País e realizado entre os dias 10 e 13 deste mês. E engana-se quem pensa que tal missão é difícil. Basta circular um pouco para encontrar profissionais das mais variadas atividades com o visual típico de quem é fã de moto.
O médico Álvaro Lucas Ceravolo, 61 anos, é um deles. Membro do motoclube Coroa e Pinhão, de Presidente Prudente (cerca de 250 quilômetros de Bauru), há mais de 40 anos roda o País, 20 deles montado em uma única moto: uma CB 400.
Trajando boina, botas, a indispensável jaqueta de couro, onde à esquerda sobressai-se um botom com estrela de xerife, e uma algema que ele insinua ser apenas decorativa, Álvaro ressalta que compor tal estilo faz parte da ânsia de viver. “Fico louco em cima de uma moto, pois é uma das coisas que mais me dá tesão na vida”, frisa ele.
O médico conta que a paixão pelas motos começou na adolescência, principalmente após assistir a um filme em que o ator americano Marlon Brando aparecia montado em uma. Só que tal predileção não era vista com bons olhos pela sua família, que o impediu de tornar-se dono de uma máquina de duas rodas. “Só pude realizar o sonho quando comecei a ganhar dinheiro. Dai não parei mais até chegar na CB”, revela Álvaro.
Apesar do grupo contar com vários integrantes com igual espírito do médico, ele logo avisa: “Não uso a estrela à toa, pois sou o chefe. É uma turma seleta composta apenas com pessoas com mais de 35 anos, mas aceitamos jovens avançados”, brinca ele.
Irmandade
Outro que exalta o papel das motocicletas em sua vida é o delegado Renato Caldeira Mardegan, 34 anos, do motoclube Forties, de Santa Cruz do Rio Pardo (100 quilômetros de Bauru). Vestido com as tradicionais jaqueta e calça de couro, mais as botas, Mardegan ressalta que a opção pelo visual integra uma forma de extravasar o estresse da função.
“É um serviço difícil, que exige dedicação e é quase um sacerdócio. Como nessa atividade é comum vermos mais fatos ruins que bons, a moto e seu universo que a cerca é uma maneira de aliviar essas tensões”, enfatiza Mardegan, um feliz proprietário de uma Suzuki Marauder 800 cilindradas. “Viajar de carro é a oportunidade de ver uma paisagem. Com uma moto você faz parte dela”, compara.
Além disso, o delegado destaca que nos encontros, além da sensação de liberdade, o companheirismo é uma marca registrada. “Graças ao motociclismo conquistei vários amigos e a cada evento ganho novos. Ele é capaz de unir várias classes sociais e não é raro hoje encontrar motoclubes recheados de profissionais dos mais variados segmentos”, considera.
Por essa razão, salienta Mardegan, já foi o tempo em que o motociclista era associado ao “motoqueiro”, designação que provoca arrepios em muitos. “A amizade, e não a arruaça, impera atualmente a um tal ponto que a pessoa pode contar com a outra para as mais diversas situações, como um pneu furado na estrada. É uma irmandade”, resume ele.
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Charme feminino
Há muito tempo o motociclismo e, principalmente os encontros, deixou de ser um ambiente exclusivamente masculino. Hoje em dia as mulheres são “figurinhas carimbadas” nos eventos e ganham de goleada dos homens quando o assunto em questão é o visual.
Assim como “eles”, elas também fazem questão de transformar-se. Na hora de escolher o que tirar do guarda-roupa e do estojo de maquiagem, segundo Adriana Rosseto da Silva, diretora e professora de escola jauense, não podem faltar itens obrigatórios como o batom e a jaqueta de couro. “Mas não sou perua”, apressa-se ela em dizer, em tom de brincadeira.
Além disso, Adriana considera fundamental as botas, calça jeans e um capacete coquinho, este para ser utilizado exclusivamente durante o evento. “É proibido usá-lo nas ruas ou estradas”, explica, consciente da legislação a respeito.
Sempre que possível, a professora acompanha seu marido, o policial Joaquim, nos encontros de motos, locais em que, conforme Adriana, é possível fugir da rotina. “A vida que levamos é muito regrada. Quando viajamos para um ambiente desses, onde a liberdade é prioridade, nos tornamos iguais a todo mundo, apesar das diferenças de idade, profissão ou classe social”, conclui ela.
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Cigano da estrada
Ele é um micro-empresário avareense. Casado, 51 anos e pai de dois filhos, seu apelido é Abajur - o nome verdadeiro ele não quis revelar - e pertence ao motoclube “Os Crânios”.
No encontro ourinhense, que ele compareceu trajado como um típico motociclista, Abajur também foi um dos destaques, principalmente pelo seu triciclo incrementado com uma infinidade de quinquilharias e pelo seu espírito aventureiro.
Definindo-se como um amante das estradas e da liberdade pessoal, Abajur enfatiza estar sempre preparado para o motociclismo. “Viajo há mais de 30 anos, período que vivo para e da atividade. Já rodei por toda a América do Sul, mas meu grande sonho é ir para os Estados Unidos”, conta ele.
Em terras ianques, Abajur alimenta o desejo de percorrer a Route 66, considerada a “Estrada Mãe” dos Estados Unidos. Esta foi uma das primeiras a ligar o país de Leste a Oeste e, desde que foi inaugurada, em 1926, ganhou fama internacional. “Para isso, me falta dinheiro. Se algum empresário se interessar no projeto, minha moto é um outdoor ambulante”, convida ele.
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Paixão infantil
Quem disse que criança também não gosta de motos e de se vestir como um imponente motociclista? A dupla Kaio, 5 anos, e Kauê, 2 anos, chamou a atenção de todos os presentes ao 6.º Motofest de Ourinhos.
Trajando botas, jaquetas de couro e lenços na cabeça, os irmãos foram uma das sensações do evento ao montarem em duas “motinhas” construídas por seu pai, o jovem mecânico ourinhense Edvaldo Araújo, 26 anos. Para isso, ele levou cerca de três meses e utilizou motores pouco convencionais em invenção. Em uma adaptou um propulsor de patinete e na outra o de um aplicador de veneno agrícola.
“Curto e mexo com motos desde os 12 anos de idade”, diz Edvaldo. Talvez por essa razão tenha transmitido aos “pimpolhos” todo o gosto que sente pelas máquinas. “Eles sempre adoraram vestir-se dessa forma”, destaca o pai. Mas o que o pequeno Kaio mais gosta quando está ao guidão de sua “motinha” é ele mesmo quem diz. “Fazer poeira”, revela ele, com um ar maroto.