A necessidade, a conveniência e a busca por novas experiências têm mudado padrões de comportamento. Hoje é possível que homens e mulheres habitem o mesmo espaço sem nenhum grau de parentesco ou relacionamento sexual. O que impera nesses lares não é a luta pelo espaço, mas um aprendizado contínuo com as diferenças.
Os estudantes Claudia Cardoso, 21 anos, Douglas Galan, 20 anos, Luana Morena, 23 anos, Kelci Ane Pereira, 19 anos e Eduardo Ciaccia Caldas, 26 anos, defendem a tese. Desde o início do ano, eles moram juntos numa casa com um quarto para cada um, na Vila Universitária, em Bauru.
Há dois anos, Kelci e Eduardo passaram pela experiência de uma república mista, que se formou através de amigos e um anúncio na faculdade. No ano passado, a turma se desfez, mas a dupla resolveu continuar morando junto e ficou um bom período sozinho antes dos novos componentes povoarem a casa. Eles nunca tiveram nenhum relacionamento amoroso entre si, mas conseguem conviver em harmonia.
Douglas, que veio de uma república masculina, ainda não se incomodou com os períodos estressados de tensão pré-menstrual das colegas, mas a grande diferença que nota ao morar com mulheres são a variedade das conversas e as abordagens dos assuntos.
“As mulheres não falam da mesma maneira das mulheres, como os homens falavam, onde eu morava. O tratamento é diferente. As meninas são mais carinhosas, sensíveis e geralmente a gente levanta e se cumprimenta, muito diferente de casa de só homem, onde é cada um por si. Os meus laços afetivos aumentaram com a mudança”, comenta Douglas.
Apesar das diferenças, o que impera na casa é a democracia. Não existe serviços só para mulher ou só para homem. Tudo é discutido e feito em conjunto. Mas Douglas e Eduardo acabam assumindo a missão de abrir latas e garrafas, trocar o gás, pregar quadros nas paredes e, principalmente, carregar as sacolas mais pesadas na volta do supermercado.
As meninas comemoram o fato dos rapazes que moram com elas serem organizados e admitem que, geralmente, os homens têm um comportamento mais “largado”.
“Nós conversamos e cada um expôs o que considera essencial para viver bem”, revela Kelci.
O fato da casa ter cinco quarto também colabora para a individualidade e o bom andamento da casa.
“Fora de casa, eu aprendi a me virar. Hoje até divido com as meninas um dia para cozinhar”, revela Douglas. “Ele se tornou especialista em picadinhos”, denuncia Claudia.
A liberdade
Todos os moradores não acham que tiveram a liberdade tolhida por dividir a casa com colegas do sexo oposto. Se alguém precisar sair do banheiro de toalhas, vai sair sem problemas ou constrangimento. “Existe respeito.”
Entretanto, as garotas apontam que andar de calcinhas pela casa não é um hábito. “Acho que ninguém tem a necessidade de ficar sem roupa pela casa. Mas se, de repente, tiver vontade pode até acontecer”, diz Kielce.
“Nesse ponto, eu acho que o cotidiano normaliza as atitudes, a gente não vai ficar sensibilizado se alguém fizer alguma coisa que faria na sua casa. Afinal, essa é a nossa casa”, defende Douglas.
Claudia complementa que é esse o espírito da casa, onde as pessoas se sentem à vontade, traz os amigos e faz novos amigos, pois cada um cursa uma faculdade e veio de regiões diferentes.
Aliás, a diferença é um elemento que acabou unindo esse grupo, mas Kelci recorda-se que em sua casa anterior, a energia não era tão positiva. “Nós fomos morar junto de supetão e não por afinidade. As pessoas não sabiam conviver, se doar um pouco.”
Os pais
E o que acontece quando os pais ficam sabendo que os filhos moram numa casa mista?
“A primeira coisa que a minha mãe perguntou foi: mas você conhece esses rapazes? Você não tem medo? Os meus amigos falavam: você vai morar com homem, será que não vai rolar alguma coisa? Mas a minha mãe, por não conhecer uma experiência que não desse certo, ela achava que não fosse conseguir. Mas acho que até eu tinha preconceito”, confessa Claudia.
Ela revela que teve medo da convivência com o grupo, não só com os meninos. Entretanto, o grupo aponta que na convivência o que impera não é o sexo, mas o temperamento.
Preconceito
Kelci traz uma tradição de repúblicas mistas. Na sua família, as irmãs também passaram por experiências semelhantes e os pais aprovaram o resultado das vivências e até acham mais seguro ter um ou dois homens morando com suas filhas.
O mesmo não aconteceu com Luana Morena, que também veio de experiências mistas antes de juntar-se ao grupo. Primeiro ela conviveu em um trio e depois fez dupla com um colega. A estudante revela que, quando as relações se estreitam, se não há muito respeito e sintonia, a convivência não é das melhores.
“Me sentia vigiada, principalmente quando levava qualquer amiga para casa, namorado então nem se fala. Com esse garoto que morei, perdi um pouco a privacidade.”
Outro ponto que Luana cita como negativo era a organização, a limpeza que o companheiro deixava a desejar e de fazer. Mas nesse processo, ela desenvolveu a tolerância, afinal, o rapaz estava se formando e iria embora. “Era uma questão de tempo.”
Mas o que mais lhe incomodava era o preconceito dos vizinhos e até dos amigos que, muitas vezes, não compreendiam que o fato de morarem juntos não indicava um relacionamento entre os dois.
O melhor
Entre as vantagens de homens e mulheres morarem juntos, o grupo ressalta que a experiência dá equilíbrio e compreensão a cada um e uma maturidade que só esse tipo de vivência proporciona. Eles podem conversar, aprender a gostar de outros ritmos musicais, conhecer novos dialetos e novos temperos.
Segundo Eduardo Caldas, o quinto morador da casa, que marcou a entrevista para o grupo, mas não participou da conversa o fato de morar junto numa república mista vai além de dividir o espaço. “Sou eu e outras pessoas tendo os mesmos direitos. O sexo não faz diferença.”
Mas eles apontam que quando têm problemas com o sexo oposto acabam sempre se aconselhando com perguntas do tipo: “o que as mulheres pensam quando acontece isso?” ou “o que os caras realmente querem dizer com aquilo?”.