Em um futuro não muito distante, um casal confrontava-se com um sofrimento profundo. Seu único filho era mantido vivo artificialmente, sem grandes perspectivas de voltar a ter uma vida normal. Não agüentando mais a angústia, o casal resolveu aceitar a proposta de uma indústria de robôs e adotar, como experiência, uma “criança andróide” para suprir a falta do filho.
David, o robô menino, possuía a aparência de um ser humano e agia exatamente como tal. Vivendo com um coração artificial, o robô era, porém, incapaz de relacionar-se com o mundo e com as pessoas no nível emocional. O menino andróide reagia como qualquer outro menino humano, mas era incapaz de sentir ódio, amor, tristeza, esperança ou desilusão.
Com o passar do tempo, as diferenças essenciais que o distinguem dos humanos começavam a ficar, para David, bem nítidas. Dentre estas, o que mais o incomodava era não poder sentir o amor de sua mãe e a sua incapacidade em amá-la. Deste vazio de sentimentos surgiu, então, em David uma forte vontade de tornar-se humano.
Esta busca constante do menino robô não só determinava a “capacidade de amar” como pré-requisito da condição humana, como também criava as condições necessárias para que David pudesse viver algo mágico: seu próprio processo de humanização. O fato de sentir a falta do amor de sua mãe já era um sinal de que David começava a desenvolver um amor a si próprio e um desejo de auto transcendência.
Esta estranha história sobre humanos que podem amar, mas não amam, e robôs que não amam, mas desejam amar, é fruto da imaginação de Stanley Kubrick transformada em imagens na produção cinematográfica “A.I. - Inteligência Artificial” de Steven Spielberg. Além de outros aspectos, o filme é uma reflexão sobre o “tornar-se humano”, sobre a dialética desenvolvida entre o “amar a si mesmo” e o “amar o outro”.
Em uma visão teológica, o menino robô David vivencia, durante sua trajetória, uma verdadeira experiência de “ressurreição”, ou seja, uma superação da realidade de máquina, estrutura mecânica e fria, para tornar-se verdadeiramente humano alcançando assim a Páscoa definitiva.
Para entendermos a relação entre “A.I. - Inteligência Artificial” e a Páscoa basta nos perguntarmos: o que há em comum entre a festa da primavera comemorada pelos pastores nômades na Antigüidade, a festa anual dos judeus onde se comemora a libertação do povo hebreu do Egito e a festa da ressurreição de Jesus Cristo comemorada pelos cristãos?
Além das três festas receberem o nome de Páscoa (hebraico: pesach, grego: páscha, latim: pascha), elas possuem em comum a celebração da vida. O fim do inverno, a libertação da escravidão e a perspectiva de vida eterna, fazem-nos perceber que o viver não é um ato mecânico, não é uma realidade estática, mas sim um movimento qualitativo de mudança, um verdadeiro processo de constante transformação em busca de verdadeira vida.
A festa da Páscoa é, para nós cristãos, um momento significativo no qual relembramos que Deus ama a todos igualmente, independentemente de cultura, religião, mentalidade ou prática de vida. Jesus Cristo é para todos aqueles que Nele acreditam um fantástico paradigma, ou seja, um modelo de vida que transforma radicalmente a nossa perspectiva de futuro.
Suas palavras e ações são impulsos de transformação que nos indicam que Deus não nos deu a vida para morrermos, mas sim para vivermos eternamente. A partir de nosso surgimento no mundo somos chamados a um processo de constante expansão, de viva interação com o universo e contínua “trans-realização” do nosso ser a caminho da plenitude da vida.
A Páscoa é, na verdade, um convite para uma verdadeira vida. Nós não nascemos para sermos “máquinas”, mas para vivermos intensamente. O segredo desta vida intensa está na descoberta de que Deus é amor. Foi amando que Jesus Cristo viveu e ressuscitou, e “nós sabemos que passamos da morte para a vida porque amamos os irmãos” (1 Jo 3, 14).
Quando perdemos o medo de amar, algo de mágico acontece em nossas vidas, ou seja, fazemos uma experiência concreta de mudança, de transformação da nossa realidade, enfim, vivemos a ressurreição. Neste sentido, a ressurreição possui uma natureza escatológica, ou seja, ela acontecerá em plenitude no futuro, mas pode desde já ser vivida no presente.
À medida que procuro libertar-me de minhas insensibilidades e de meus medos, jogar-me nas mãos do Deus da Vida e transformar minha existência em algo sensível e humano, antecipo, em parte, o meu futuro.
O filme “A.I.- Inteligência Artificial” apresenta estas duas dimensões da Páscoa: o processo de busca e transformação e a vida em plenitude como última cena: o filho eternamente acolhido nos braços da mãe. As Bênçãos do Deus da Vida e uma Santa Páscoa.
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