10 de julho de 2026
Cultura

Tudo pela irreverência

Gustavo Cândido
| Tempo de leitura: 4 min

Não era fácil ser irreverente no início dos anos 80. “Ainda estávamos da ditadura e todas as nossas composições tinham que ser submetidas à Polícia Federal”, lembra Valmir Marques. Por conta disso, muitas canções compostas em 1981, 82 e 83 só foram liberadas dois ou três anos depois. Um exemplo - hoje engraçado - é o da música “Cidade Grande”, que foi censurada por trazer a expressão “desbundar”. “Hoje isso nem é ofensivo”, diz Marques.

Sempre abusando do bom-humor e da cara-de-pau em suas letras e até nos nomes dos seus shows (“Visite Antes que Acabe” é um deles, numa referência aos prostíbulos), a Super Liga tocou em todos os lugares possíveis e imagináveis em Bauru e região, participou de eventos como o “Igapó Rock Show”, em 1985, no Vale do Igapó, no qual tocaram para mais de dez mil pessoas, além de participarem de diversos festivais e programas, um deles da Radio e Televisão Cultura (RTC - hoje TV Cultura), experiência que incentivou os músicos a se mudarem para a Capital.

“Moramos em São Paulo entre 85 e 86. Tocamos em vários lugares e como qualquer banda daquela época tínhamos o sonho de gravar um disco. Na época era muito mais difícil do que hoje”, afirma André Villela.

O grupo chegou a ser sondado por gravadoras como a Som Livre, a Chantecler e a Baratos Afins - a pioneira dos discos independentes - mas não conseguiu fechar um contrato por não aceitar as imposições do mercado, que na época - a explosão do rock nacional - era uma verdadeira fábrica de bandas. “Nós tínhamos uma linguagem própria. As gravadoras queriam nos direcionar para outro lado, então não aceitamos as propostas”, declara Marques.

“Pagamos o preço ficando fora do mercado. Talvez até tenha sido imaturidade, mas nunca vamos saber. Trilhamos outros caminhos”, avalia Eraldo Bernardo.

O quinto elemento

Ainda antes do grupo tentar a sorte em São Paulo, um quinto elemento chegou a fazer parte da Super Liga Katólika. Um elemento de luz própria nascido Francisco Carlos São Romão Sanches mas que entrou para a história da música bauruense com o nome de Carlinhos Bauruzão. “Carlinhos tocava na Tempo Perdido e éramos amigos. Ele começou a fazer uma participação durante os nossos shows e acabou ficando”, lembra Bernardo.

Com Bauruzão no “time”, a Super Liga também emplacou os sucessos que o cantor já tinha na noite bauruense como a histórica balada “Bauruzão” e “Vampiro de Bauru”, também chamada de “Não é Mole Neném Ser Vampiro em Bauru”, o refrão da música.

Como um quinteto, o grupo voltou de São Paulo em 1986 e seguiu tocando até 1992, quando decidiram parar. Marques explica: “Quando começamos éramos pesados para a época. Em 1992, com o movimento grunge, éramos leves demais”. O cenário musical no País também não era o mesmo e as rádios estavam invadidas por duplas sertanejas. “Cada um foi para um lado, mas nunca deixamos de curtir música”, diz Bernardo.

Nova formação

Um quase retorno aconteceu entre 2000 e 2001, quando Bauruzão decidiu registrar em estúdio algumas músicas de sua carreira e do grupo. “Formamos a banda Aeroplano só para esse projeto e gravamos o material”, explica Marques. Em outubro de 2002, Bauruzão morreu. Por ironia do destino foi sua morte que fez renascer a Super Liga. “Nos juntamos para fazer uma homenagem ao Carlinhos no final do ano passado e conforme fomos trabalhando para a apresentação e mexendo no nosso material, sentimos que poderíamos voltar”, diz Bernardo.

Da formação original, apenas Carlos Turtelli não voltou por motivos particulares. Em seu lugar está o músico Reinaldo Lima, que tocou com Marques e Bauruzão na Aeroplano. Com 21 anos de idade, Lima conta que tinha ouvido falar do grupo quando era mais novo, mas nunca tinha pensado que um dia tocaria com eles.

Para os demais integrantes do grupo - todos na faixa dos 40 anos - a diferença de idade do novo integrante é um estímulo a mais para misturar no palco a experiência de mais de duas décadas com a modernidade dos sons atuais - que a banda também pretende fazer.

“Ainda estamos lapidando um show bem completo, trabalhando nosso material”, comenta Marques. A possibilidade de um CD no futuro não está descartada.

Um registro oficial da Super Liga em estúdio não seria um luxo, seria uma homenagem imprescindível da banda para os seus fãs e, principalmente, para a sua própria história.