08 de julho de 2026
Saúde

Professor é campeão em abuso vocal

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Eles passam horas seguidas falando e têm de falar alto, porque estão em salas amplas e dirigem-se a um público nada silencioso. Este abuso faz dos professores os campeões em problemas vocais. Por isso, eles foram escolhidos como os alvos da Campanha Nacional da Voz deste ano. Aliás, uma iniciativa brasileira antiga que convenceu o mundo e fez determinar o dia 16 de abril de 2003 como o 1.º Dia Mundial da Voz.

Quando se pensa em abuso vocal, a maioria das pessoas lembra logo dos cantores, atores e radialistas. Soltar a voz sobre o palco, encenar para uma platéia de centenas de pessoas, narrar uma partida de futebol inteira podem parecer situações de extremo esforço vocal. E são, realmente. No entanto, todas elas têm duração proporcionalmente bem menor que a carga horária dos mestres.

Atores, jornalistas, radialistas geralmente trabalham em situações ambientais mais adequadas. Nos estúdios de rádio, por exemplo, o locutor encontra silêncio absoluto, dispõe de microfones que dispensam a força vocal exagerada e tem intervalos regulares para descanso vocal.

“Os professores, não. Muitos chegam a lecionar dez, doze horas por dia num ambiente amplo onde há diversos ruídos competitivos dentro e fora da sala. Isso proporciona uma necessidade de uso vocal de forma inadequada - eles têm que falar cada vez mais alto”, salienta a fonoaudióloga Alcione Ghedini Brasolotto, professora nas universidades do Sagrado Coração (USC) e de São Paulo (USP) em Bauru.

Ela explica que a fala envolve várias estruturas do organismo humano: a voz é produzida pelo ar que sai dos pulmões, passa pela laringe vibrando as pregas vocais, é projetada para o céu da boca, de onde saem os diferentes fonemas produzidos pela articulação de dentes, língua, mandíbula e lábios. Segundo Brasolotto, várias coisas podem fazer com que este mecanismo não ocorra de forma adequada.

“A pessoa pode ter desde problemas congênitos, como uma alteração anatômica na laringe ou nas pregas vocais, até problemas causados pelo uso inadequado destas estruturas, o que é mais freqüente”, comenta.

Entre os hábitos mais prejudiciais, a fonoaudióloga cita o falar por tempo muito prolongado e o falar em intensidade exagerada (falar muito alto). Nos dois casos, as pregas vocais sofrem um atrito excessivo que pode causar lesões (edemas). O primeiro indício disso é a falta de clareza na voz.

Poupança

A melhor maneira de prevenir problemas vocais é usar a voz com moderação, poupando-a sempre que possível. Gritos repentinos ou falar muito alto são agressões indiscutíveis.

Por isso, para quem precisa falar por períodos prolongados, Brasolotto orienta que se fale com o mínimo de força possível. Numa palestra, por exemplo, o uso de microfones seria uma excelente alternativa.

Beber água regularmente é outra dica importante, porque a hidratação protege a mucosa durante o atrito da produção vocal. “E tem também os fatores indiretos. Algumas pessoas são mais sensíveis às mudanças de temperatura, outras não podem ingerir alimentos gelados, por exemplo. O mais importante, então, é manter hábitos saudáveis”, observa.

Segundo ela, pensando nisso o slogan escolhido para a campanha deste ano foi “Voz educada: saúde cuidada”. Brasolotto destaca que existem várias técnicas de aprimoramento vocal que podem ser desenvolvidas com profissionais que abusam da fala. Elas podem ser aplicadas com diversos objetivos - não só para tratamento, mas também para a reeducação preventiva.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Laringologia e Voz (SBLV), o uso da voz como instrumento de trabalho não é exclusividade de radialistas, professores e atores. Estima-se que cerca de 70% da população ativa depende da voz para atingir seus objetivos profissionais, mesmo que a fala não seja o foco principal de suas atividades.