“Ele estava sofrendo muito, com balão de oxigênio e muito fraquinho. Mauro era uma pessoa maravilhosa, que tinha muita sede de viver, mas precisava descansar... É triste, mas ele descansou”, conta a secretária Cristina Neves, que há seis anos trabalhava com Mauro Rasi. Ela, a irmã do diretor Dinéia e a sobrinha mais velha Natália estavam com ele, em sua cobertura no Leblon, na hora de sua morte, às 14h30 de ontem.
Muito emocionada, Cristina comentou que ele partiu feliz sabendo que tinha conseguido um patrocínio da Caixa Econômica Federal para a produção do musical “Ladies na Madrugada”. O espetáculo era um sonho que Rasi tinha há anos, queria que levar ao palco o glamour da Broadway e tocar em cena toda a trilha que compôs ao piano.
“Tudo o que ele mais queria era fazer ‘Ladies na Madrugada’”, confirma o amigo, “pai” e um dos atores que mais trabalhou com o diretor, Sérgio Mamberti, que é titular da pasta de teatro no Ministério da Cultura. Ele estava em Brasília, quando recebeu a notícia da morte de Rasi.
“Mauro queria fazer uma peça para a Marisa Orth e eu lhe disse que o ideal seria ‘Ladies’. E ele já estava preocupado comigo quando se lembrou de que o texto tinha um capitão cujo personagem é maravilhoso. Depois ele escreveu a música do capitão e me chamou para ouvir. Ele fazia a peça para você”, revela, comovido, o ator que de 95 para cá só viveu Mauro Rasi no teatro.
Mamberti ficou quase cinco anos em cartaz com “Pérola”, onde representava “Vado”, o pai de Rasi. Depois, fez novamente o “Vado” na temporada carioca de “O Crime do Dr. Alvarenga” e excursionou pelo Brasil com Fernanda Montenegro, na peça “Alta Sociedade”. (Procurada pelo JC, a atriz, que encontra-se gravando o filme “O Outro Lado da Rua”, de Marcos Bernestein, até o fechamento da edição não havia retornado a ligação).
“Ele morreu no dia do meu aniversário, nós temos uma ligação que não é só desse plano”, comenta o ator. Mamberti o conheceu quando Rasi tinha 13 anos e sempre tentaram trabalhar juntos.
O primeiro trabalho veio com “Pérola”, que consagrou o diretor e o elenco nacionalmente e levou Rasi a figurar entre os grandes nomes do teatro brasileiro como dramaturgo e como militante das artes cênicas, trabalhando com a identidade brasileira.
“Essa capacidade criativa era o grande diferencial do Mauro. Ele reconstruiu como ninguém o universo da família brasileira, escrevendo com maestria diálogos com o falar cotidiano, promovendo o prazer de platéias inteiras se virem retratadas no palco.”
Mamberti disse ainda que, no Natal, Rasi havia comentado que seu estado de saúde não era bom, mas ele não acreditava que a vida o levaria tão jovem.
Inconformados também estavam os atores Edgard Amorim e Emílio de Mello, respectivamente o cunhado e o próprio Rasi na peça “Pérola”. Logo que souberam da notícia, ambos foram juntar-se à família na casa do diretor. “Nós achávamos que ele fosse superar”, lamenta Amorim.
As tias
Mauro Rasi transformou suas professoras bauruenses em personagens e fez até peça para homenageá-las, a famosa “As Tias de Mauro Rasi”. Marisa Bianconcini Teixeira Mendes foi avisada de sua morte pelo filho, que estava em São Paulo. Apesar da dor, ela comentou que guardaria consigo a recordação das longas conversas telefônicas que tiveram durante a vida e cuja freqüência diminuiu com a chegada da doença.
“Aquela sensação do tão longe e tão perto. Ao mesmo tempo em que ele se distanciou, ficou mais próximo, como se nunca tivesse nos deixado”, revela.
Jussemy Monteiro, que foi sua professora no ginásio, ficou ainda mais chocada com a morte do aluno tão querido. Ela conversava com sua filha, que mora na Inglaterra, por e-mail e ao retornar à página inicial, deu de cara com a notícia. “Ele era um aluno que olhava para você com aquela cara de quem descobriu que você tinha algo para ele. Quero me lembrar daquele olhar desafiador e da alegria do último chá com as tias, em seu retorno a Bauru”, diz.
A professora de música Daisy Barone lamentava ter perdido o aluno que se formou apenas na sua matéria, o piano, e afirma jamais esquecer os dias em que passou no Rio de Janeiro, vivendo como uma das tias do Mauro, as musas de sua coluna semanal no jornal O Globo.
Os amigos
Para o primo Paulo Casério, companheiro de Mauro nas traquinagens de meninos, e para a amiga Carmen Casalechi, que foi dirigida por Rasi nas peças de adolescente, a notícia da morte do diretor chegou através da reportagem do JC. Eles não esperavam que o diretor partisse tão cedo, pois o desejo de viver, fazer tudo com perfeição e ser famoso era um sonho que Rasi profetizava desde menino.
A amizade entre Mauro Rasi e o arquiteto Jurandyr Bueno Filho, que promoveu as pazes do diretor com a cidade, também vem dos tempos de infância, quando as famílias eram muito próximas.
Apesar de Rasi ser alguns anos mais novo que Bueno, sua inteligência fazia com que ele sempre estivesse no meio de outras turmas. “Ele pegava carona na nossa turma, na nossa conversa, era inquieto, sempre foi questionador. Tocava piano muito bem e a gente morria de inveja dele”, recorda.
Era na casa de “Jura” que Mauro ficava hospedado quando vinha a Bauru e o amigo, nos últimos dias revela que sentiu que algo aconteceria.
“Eu liguei para o Rio ontem (segunda-feira), falei com a Dinéia e ele quis falar comigo. Me disse: ‘Eu arribo, viu! Eu arribo! Já conversou com as meninas de Bauru sobre ‘Ladies’? Eu vou arribar, você vai ver...’”, conta Bueno. Segundo ele, apesar da voz cansada, o diretor mantinha o tom desafiador, sua marca registrada.
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Neves lamenta a perda do amigo
O jornalista e diretor teatral Paulo Neves é outra personalidade bauruense que lamenta profundamente a morte de Mauro Rasi. Amigo pessoal do dramaturgo, Neves faz questão de destacar a grande perda que o País acaba de sofrer. “Isso é terrível. O Brasil perde um dos maiores autores dos últimos dez anos. Eu comparava Mauro a Nelson Rodrigues, a Jorge de Andrade e a Dias Gomes”, diz.
Os bauruenses Neves e Rasi são artistas contemporâneos. Ambos começaram carreira artística na década de 60. Enquanto Rasi estreava o espetáculo de caráter político “Razões para Liberdade”, no Bauru Tênis Clube (BTC), Neves lançava “Yes, Nós Somos Brasileiros”, no Automóvel Clube. “Era época da ditadura e o AI-5 estava estourando. Mauro sempre realizou um trabalho de crítica social”, afirma Neves.
O jornalista, que já teve algumas desavenças com Rasi no passado, ressalta o orgulho que sente do ex-colega de profissão. “Os males-entendidos caíram por terra depois que a gente ficou adulto. Nós nos perdemos de vista por cerca de 15 anos, mas eu sempre o acompanhei”, conta Neves, que foi o único a montar uma peça de Rasi no Interior - “Mentecapta”.
“Ele foi embora para São Paulo e assim caminhou o grande Mauro Rasi. Ele teve uma coragem extraordinária de sair de Bauru e de buscar o espaço dele. Na época eu não tive essa coragem”, comenta Neves.
O jornalista ressalta ainda a importância do trabalho de Rasi na cidade e no Brasil. “É essencial lembrar a trilogia que Mauro fez de Bauru em ‘Pérola’, ‘Cerimônia do Adeus’ e ‘Rainha do Lar’. Nós estamos extremamente carentes de grandes autores e com a morte de Mauro, o País fica mais pobre”, lamenta.(Da Redação)