09 de julho de 2026
Política

Entidades temem 'pizza' na Câmara

Gilmar Dias
| Tempo de leitura: 3 min

Representantes de entidades organizadas de Bauru temem que acabem em “pizza” as Comissões Processantes (CPs) instaladas para apurar denúncias de irregularidades contra os vereadores Walter Costa (PPS), Roberto Bueno (PTB), Osvaldo Paquito (PPS) e José Humberto Santana (sem partido). Ontem, a movimentação nos gabinetes da Câmara Municipal foi intensa, o que levantou suspeitas de articulações direcionadas para melar as votações dos relatórios conclusivos das apurações.

A situação, que vazou dos corredores do prédio do Poder Legislativo e acabou sendo filtrada por segmentos organizados atentos, chamou a atenção de sindicalistas e entidades representativas da cidades.

A diretora do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Bauru (Sinserm), Sônia Carvalho, afirma que a entidade está alerta à visível movimentação política que ocorre na Casa.

“A população espera que a Câmara puna exemplarmente os vereadores envolvidos nas denúncias de irregularidades. O Legislativo não tem só como papel fiscalizar o Poder Executivo. Se não fiscalizar a si própria, fica sem moral para apurar e apontar irregularidades no Executivo”, opina.

A sindicalista defende que a opinião pública, através de entidades populares, se mobilize para pressionar os vereadores “a tocar o dedo na própria ferida”. “Esperamos, com convicção, que todo esse trabalho de investigação dos parlamentares não acabe em pizza”, diz.

O professor Odair Machado, integrante de movimentos populares ligados à Igreja Católica, também reforça o posicionamento da diretora do Sinserm. “É comum entre os corruptos a utilização da tática da ameaça, dizer que vai processar o denunciante, numa clara tentativa de desacreditá-lo perante a opinião pública”, analisa.

Para ele, a Câmara não pode perder a “oportunidade histórica” de passar a limpo a si própria. “Onde há fumaça, há fogo. Não se pode esquecer o diálogo da fita gravada entre dois vereadores, na qual ficou constatado que apenas dois do total de 21 parlamentares estariam imunes à prática de irregularidades”, comenta.

Para Machado, a população - principalmente a mais humilde - acompanha de perto a movimentação da Câmara Municipal. “Na periferia, as pessoas conversam com você sobre os problemas do Legislativo de igual para igual. Enganam-se os vereadores que acham que a população não está atenta ao que acontece naquela Casa de Leis”, afirma.

O professor avalia que não é demérito nenhum para Bauru o fato de o município ser notícia sobre os escândalos de possíveis atos de corrupção. “A diferença é que em Bauru denunciamos as irregularidades, apuramos e punimos os responsáveis.”

Além de sindicalistas e lideranças populares, também está de olho no resultado final das Comissões Processantes o advogado da Associação de Defesa da Cidadania de Bauru (Adeciba), Ivan Garcia Goffi. “A expectativa é de que as Comissões Processantes concluam pela cassação dos mandatos de cada um dos vereadores processados”, opina.

Ele destaca que o vereador é um agente público cuja atividade não pode ter margem para erros. “Dizer que cometeu um erro e que é inocente até pode explicar, mas não justifica o ato. Quem se dá ao direito, ao privilégio de assumir uma função pública tem que se sujeitar rigorosamente ao que manda a lei”, lembra.

Alguns segmentos organizados da sociedade analisam que após mais de seis meses de exposição dos fatos na mídia, seria inadmissível alterar os rumos conclusivos das apurações. É o que pensa o coordenador da subsede regional da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Paulo Vieira Lima.

“O que se espera da Câmara é que ela aplique as lições para aqueles que estão devendo. Se ficar constatado que os quatro vereadores são culpados, queremos a cassação dos quatro, sem um peso e uma medida para aliviar a situação.”

Embora na Câmara Municipal o julgamento seja político, o presidente da subseção Bauru da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Edson Reis, espera que o plenário faça justiça nas votações que vão ocorrer nos próximos dias. “Eu espero que o julgamento ocorra em cima das provas constantes nos processos e que não haja julgamento político. Que se faça justiça com as provas nas mãos.”

As entidades se preparam para mobilizações.