10 de julho de 2026
Guerra no Iraque 2003

Americano diz que só coalizão detém a autoridade no Iraque

Agência Folha
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Bagdá - Iniciada a corrida para estabelecer uma nova administração no Iraque pós-Saddam Hussein, os militares americanos já advertiram os líderes locais de que quem manda no país é a coalizão anglo-americana - e somente ela.

A preocupação dos EUA é que o vácuo aberto pela derrubada do regime de Saddam no último dia 9 leve líderes locais a aproveitarem a confusão política no país para tomar o poder. Alguns líderes civis já se proclamaram “administradores’’ ou “prefeitos’’ de cidades como Kut e Bagdá. “A coalizão sozinha detém a autoridade absoluta dentro do Iraque’’, afirmou ontem o general americano David McKiernan, comandante das forças terrestres no Iraque.

Segundo ele, quem desafiar essa autoridade estará sujeito à prisão. Da mesma forma, os EUA rejeitam um governo islâmico no país, como defendem líderes dos xiitas, cerca de 60% dos 23 milhões de habitantes.

O general da reserva Jay Garner, chefe da administração provisória americana, chegou a Bagdá na segunda-feira, mas ainda não assumiu o poder na cidade, onde a presença militar americana é esparsa. Com isso, abriu-se espaço para grupos banidos pelo regime de Saddam - como comunistas ou extremistas xiitas - tomarem o poder em alguns bairros.

Em Kut, Sayed Abbas Fadhil, um clérigo xiita, se proclamou prefeito após ter sido “eleito’’ por uma comissão de religiosos, professores e lideranças civis não ligadas a Saddam - fatos não confirmados pelos EUA.

O “prefeito’’ conta com um pequeno exército particular. “Não podemos deixar que os americanos nos tirem do poder’’, disse. A ascensão de Fadhil é semelhante à de Mohammed Mohsen Zubaidi, general oposicionista que viveu anos exilado e se proclamou prefeito de Bagdá após o início da guerra, em 20 de março.

Chalabi vigiado Além de Zubaidi e Fadhil, os americanos estão atentos aos movimentos de Ahmed Chalabi - o líder do grupo oposicionista Congresso Nacional Iraquiano que viveu anos exilado nos EUA, tido inicialmente como o preferido pelo Pentágono para governar o país após a saída da coalizão.

Cercado por um exército particular de 700 homens, Chalabi se instalou em um clube de Bagdá e conta com o apoio do Departamento da Defesa americano para obter um papel de maior destaque no governo interino. Nos últimos dias, as autoridades americanas alegam que ele e Zubaidi têm reivindicado a autoria de melhorias na região de Bagdá para conquistar a opinião pública às custas da coalizão.

“Vamos mandá-los parar de interferir. E, se precisarmos, vamos prendê-los’’, afirmou o general britânico Albert Whitley. O general da reserva americano Jay Garner, 65 anos, encarregado da administração do Iraque ocupado pelas forças da coalizão anglo-americana, declarou ontem que pretende formar seu gabinete e começar a trabalhar já na próxima semana.

Já o governo interino iraquiano - que deve fazer a ponte entre o governo transitório liderado pela coalizão e um governo iraquiano eleito, à semelhança do modelo usado no Afeganistão- seria empossado no início de junho, quando expira o prazo do programa da ONU Petróleo por Comida, afirmou o jornal americano “The Washington Post’’.

Segundo essa versão, discutida na Casa Branca anteontem, a produção de petróleo do país seria então retomada e usada para custear a reconstrução. No entanto, a coalizão ainda esbarra em dificuldades - sendo a principal delas a recusa de clérigos xiitas em participar de um governo laico, como exigem os EUA. Garner chegou a Bagdá segunda-feira e seguiu para dois dias de viagem pelo Norte do Iraque, região dominada pelos curdos.

A recepção na volta à Capital ontem foi fria, apesar do aparente esforço do general para cativar os iraquianos. “Haverá rostos iraquianos no governo. O governo será dos iraquianos’’, afirmou o general, na tentativa de dar uma “cor local’’ a um governo que será gerido essencialmente pela coalizão, à semelhança do antigo modelo colonialista.