Bagdá - As tropas dos Estados Unidos capturaram ontem um importante espião iraquiano, horas depois de ter prendido o ex-vice-premiê Tareq Aziz, que era o porta-voz mais conhecido de Saddam Hussein. Mas em meio às capturas um importante religioso muçulmano comparou a presença militar dos EUA no país à tirania do regime deposto.
Uma autoridade norte-americana disse que Farouk Hijazi foi preso perto da fronteira do Iraque com a Síria. Ele foi diretor de operações externas da agência de espionagem iraquiana em meados da década de 1990, quando supostamente teria tramado o assassinato do então presidente George Bush, pai do atual mandatário norte-americano, que estava em visita ao Kuwait.
O secretário da Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld, disse que a prisão de Hijazi é significativa. “Achamos que ele pode ser interessante, mas eu não gostaria de dar detalhes”, afirmou. Na mesquita Abi Hanifah Nouman, em Bagdá, o xeque sunita Moayyad Ibrahim Al Aadhami, após a oração da sexta-feira, convocou seus fiéis a protestarem contra os EUA.
“Vamos dizer não aos Estados Unidos, não à ocupação. Não vamos substituir uma tirania por outra”. A maioria dos iraquianos comemorou a derrubada de Saddam, mas muitos estão irritados com a ocupação estrangeira do país, que vem acompanhada de blecautes, falta de água potável, escassez de comida e uma onda de saques.
Segundo o Unicef (órgão da ONU para a infância), desconhecidos seqüestraram crianças e roubaram móveis de um orfanato. Outra agência da ONU, o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), anunciou que tem planos para ajudar no regresso de até meio milhão de pessoas ao país, mas somente depois que a situação se estabilizar.
Peixe Grande
Aziz, que era o único cristão na cúpula do regime de Saddam, se entregou na noite de quinta-feira em Bagdá. Ele era o 43.º em uma lista de 55 líderes iraquianos procurados pelos EUA. Um porta-voz militar dos EUA no Catar disse que Aziz está sendo interrogado.
A última aparição pública de Aziz, 67 anos, aconteceu em 19 de março, véspera do começo da guerra, quando ele desmentiu rumores de que teria desertado. Uma irmã dele disse à CNN que recentemente Aziz sofreu dois enfartes.
De acordo com ela, a rendição foi negociada durante vários dias, com a condição de que o ex-vice-premiê fosse “tratado de maneira digna” e recebesse atendimento médico, o que, segundo os EUA, aconteceu. Fluente em inglês, Aziz teve um papel diplomático importante na qualidade de chanceler do Iraque no período que levou à primeira Guerra do Golfo, em 1991.
Anos mais tarde, ele seria a voz que desafiaria os EUA no cenário internacional, antes da invasão que derrubou Saddam. Os iraquianos vibraram com a prisão, pois consideram Aziz um peixe grande, mesmo que haja outros acima dele na lista de procurados.
O ex-vice-premiê, que na véspera da guerra prometeu morrer em uma longa e sangrenta batalha contra os EUA, é agora o 12.º preso na lista de 55 procurados, segundo autoridades norte-americanas. Outros três são considerados mortos.
A prioridade militar dos EUA agora é encontrar Saddam e seus dois filhos, Uday e Qusay. Além disso, as tropas vasculham o Iraque em busca de armas de destruição em massa, cuja suposta existência, sempre negada por Saddam, foi o estopim da guerra. Até o momento, não foi encontrado nenhum vestígio destas armas.
No campo político, os norte-americanos se preparam para instalar na próxima semana um governo provisório no país. Na segunda-feira, vários grupos políticos iraquianos se reúnem com autoridades norte-americanas em Bagdá para discutir o assunto.
Em uma entrevista na TV norte-americana, o presidente George W. Bush foi questionado se a democracia poderia levar até dois anos para ser implantada no Iraque. “Pode ser, ou menos. Quem sabe?”, respondeu. Em visita a Ohio na quinta-feira, Bush aventou pela primeira vez a hipótese de que o Iraque tenha destruído ou removido suas armas químicas.
“Vai levar tempo para encontrá-las, mas sabemos que eles as tinham. Se eles as destruíram, as deslocaram ou as esconderam, vamos descobrir a verdade”. Os EUA esperam que a prisão de Aziz ajude na localização das supostas armas.
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Saddam atingido
Londres - O secretário das Relações Exteriores britânico, Jack Straw, reiterou ontem a visão do governo norte-americano de que Saddam Hussein foi, pelo menos, ferido durante a primeira noite de bombardeios a Bagdá.
Ele acrescentou, no entanto, não estar certo sobre o que aconteceu depois com o presidente iraquiano. O presidente norte-americano, George W. Bush, afirmou na quinta-feira existirem alguns indícios sugerindo que Saddam poderia estar morto.
Bush iniciou a guerra contra o Iraque com um ataque aéreo a uma das instalações onde Saddam e seus filhos, Uday e Qusay, poderiam estar. “A pessoa que ajudou a conduzir os ataques acredita que no mínimo Saddam foi gravemente ferido”, disse Bush.
Straw afirmou ter ouvido informações similares. “Tivemos notícias durante a noite... sugerindo que ele estava nesse lugar que foi bombardeado e parece ter sido ferido”, disse ele à rádio BBC. “Eu já ouvi isso antes, mas acredito que até que tenhamos uma prova final, o assunto será alvo de especulações”.