08 de julho de 2026
Geral

Cão pode se tornar arma engatilhada

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 4 min

Um cão pode ser uma flor ou uma arma engatilhada. Desta maneira, o professor de etologia (estudo dos hábitos dos animais) e vice-diretor da Faculdade de Medicina Veterinária da Unesp de Botucatu, Édson Ramos Siqueira, define o comportamento do melhor amigo do homem. A agressividade do animal, segundo ele, depende de uma série de fatores, entre os quais, a maneira como o cão é tratado pelos donos, como vive e sua seleção genética.

Siqueira ressalta que qualquer cachorro pode ser feroz ou dócil. “Um poodle pode se tornar agressivo por ficar preso, sozinho em um local onde não tenha nada que lhe agrade. Já um animal de grande porte pode ser dócil se receber carinho, atenção e tratamento adequado.”

Segundo o professor, quando uma pessoa decide ter um animal deve procurar orientação de quem entende do assunto. “Nós orientamos a pessoa a consultar um veterinário para receber orientação adequada. Um dos fatores mais importantes é a escolha certa do animal, aquele que seja adequado ao seu estilo de vida. Se você mora em apartamento, não pode ter um cão de grande porte, porque ele ficará preso, sozinho e pode se tornar violento.”

Há raças indicadas para cada tipo de dono, orienta o professor. “Cada cão tem sua aptidão. Se o dono quer um animal para guarda, deve escolher um que tenha esta aptidão. Existem cachorros de companhia e de caça”, observa.

Definida a raça, o dono deve procurar saber a linhagem do animal. “Há criadores que selecionam para que a raça fique mais pura possível. A seleção genética aprimora a aptidão.”

Mesmo quando o animal é de uma boa linhagem, se for criado inadequadamente poderá se tornar anti-social. “O manejo deve ser orientado por quem entende. Fazendo uma analogia com os humanos, podemos dizer que quando uma criança é criada com agressividade e maltratada, torna-se um adolescente revoltado e um adulto mal resolvido. O mesmo pode ocorrer com o animal”, orienta.

A solidão, que tanto afeta o comportamento humano, também influencia o animal. “O cachorro que fica muito sozinho, preso, sem a companhia de pessoas e de outros animais, pode se tornar deprimido e irritado. Isso serve para qualquer raça. Quando ele consegue fugir, pode atacar o primeiro que encontrar pela frente. O animal se torna neurótico.”

Na opinião do professor, não se pode rotular uma raça de feroz e outra de dócil. “Não se pode dizer que a raça Y é assassina enquanto que a raça X é dócil. Tudo depende da linhagem e da criação.”

Ambiente

A soma da herança genética com os efeitos oriundos do ambiente (inclusive o comportamento dos donos em relação ao animal) e o treinamento do animal é que definem a maneira como o cão se comporta. “A origem do cão é o lobo. Na vida selvagem ele caçava para se alimentar. Foi domesticado e passou a conviver com os humanos. Ele ataca sempre que um estranho invade seu território.”

O território dos caninos é demarcado pela urina. “Eles demarcam seus espaços com a urina. Quando um estranho, seja animal ou humano, invade seu espaço, ele ataca. Neste caso, o erro é de quem invadiu.”

A desinformação leva muitas pessoas a criar o animal de maneira errada, conclui o professor. “Cada raça tem suas características e seu modo de vida, que deve ser respeitado. Para o leigo, todos os cães são iguais. Se o dono não souber educar o cachorro com mais carinho e menos agressividade, ele terá em casa uma arma engatilhada”, afirma.

Segundo Siqueira, existem determinadas raças e treinamentos que levam o animal a ter uma mordedura impressionante. “O impacto pode ser comparado com uma arma de fogo. Isso é muito perigoso.”

O professor acredita que o crescimento desordenado da população canina contribui para o aumento de casos de violência envolvendo animais e pessoas. “Os animais são criados sem que o dono saiba de seus hábitos, costumes e necessidades. Isso faz com que o animal se sinta frustrado em muitas coisas e essa frustração pode se reverter em agressividade. Um pastor alemão criado em um cubículo, sem companhia e sem um brinquedo ou algo que lhe agrade, pode se tornar uma fera.”

Ele nega que os cães da raça dobermann sofram de fortes dores de cabeça. “Os animais dessa raça que foram criados para ataque, atacam. Eu conheço vários dobermanns que são dóceis, foram criados com carinho.”

É crescente a preocupação das prefeituras em relação ao aumento da população canina, especialmente entre as camadas mais carentes da comunidade, frisa o professor. “Os administradores estão investindo na castração dos animais para controle da população. Em Botucatu, uma parceria permite que a faculdade faça esse serviço voltado à saúde da comunidade.”

O aumento descontrolado da população animal causa problemas de saúde pública. “São as zoonoses, doenças comuns do homem e do cão. Nossa preocupação é que na camada mais carente da população, o homem divide a comida e até a cama com o cachorro”, analisa.