09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Carta a Mauro Rasi


| Tempo de leitura: 2 min

Ilustre,

Em primeiro lugar, mil desculpas por ter escrito seu nome de família com SS no último texto que publiquei no JORNALEGO. Logo eu, seu “macaco de auditório”, não podia ter incorrido nesse crasso erro! Meu filho me telefonou do Rio corrigindo o grande pecado. Que papelão que você me fez! Exatamente no dia em que distribui o meu JORNALEGO-35 -fi-lo (!) pela manhã - você morre à tarde. Não gostei da coincidência!

De suas peças, mais de vinte - soube pelo O Globo - assisti cinco. Nenhuma delas foi por mim considerada “besteirol” que, segundo a crítica, fez você mais popular no teatro brasileiro. As que vi foram peças densas que ainda não me saíram da cabeça: A sua brilhante trilogia (Cerimônia do Adeus, A Estrela do Lar e Viagem a Forli). Assisti também ao Baile de Máscaras e Pérola. Esta, duas vezes, no Rio e em Vitória.

Pérola marcou tanto os espectadores que a Vera Holtz, que desempenhou o papel de sua mãe, quando no velório de seu pai, recebia dos bauruenses os pêsames sentidos. Quando Oswaldo, seu pai, morreu, mandei, não sei se recebeu, uma mensagem pela Internet, apresentando meus pêsames. Eu imaginava o Sérgio Mamberti, ator que fez o seu papel na peça, morto, dentro do caixão, sendo velado. O que é a realidade da ficção!

Meu “Dostoiesvski de Bauru”, como diz Jorge Mautner, que pena! Era leitor assíduo de suas crônicas. Achava-as divertidíssimas e seriíssimas. Inicialmente no Jornal do Brasil depois no O Globo. Às segundas-feiras pela manhã abria a página deste jornal na Internet para ler sua crônica, saber de suas tias, de seus gatos, de nossa sociedade e do mundo em geral. Assisti também algumas de suas antológicas entrevistas na TV. A última foi com a Maria Gabriela e que me fez desopilar o fígado com seus escárnios e seu humor finíssimo.

Numa dessas entrevistas você usou a expressão “num átimo de segundo”. Eu de molecagem passei-lhe uma mensagem perguntando se um átimo de minuto é maior do que um átimo de segundo. E terminava: Mauro, um átimo é um átimo, é um átimo, é um átimo. Ponto. Você não me respondeu. Bem, vou ficando por aqui que é o melhor que eu faço. Ainda dá para ir ficando por aqui. Gostei muito de ter sido seu contemporâneo e assistir suas peças, ler suas crônicas e ver suas entrevistas. Obrigado. Você participou significativamente e prazerosamente de minha formação. Mas para terminar, lembro-me de que você, numa oportunidade confessou: “Quando morava em Bauru eu pensava que a cidade era o centro do Universo. Depois fui para São Paulo, Rio, Nova York, Paris, Roma, Tóquio. Agora que estou mais maduro, não tenho mais dúvidas, Bauru é efetivamente o centro do Universo”. Um abraço afetuoso de um “aprendiz de feiticeiro”. Até logo. (Genserico Encarnação Júnior - Itapoã, Vila Velha - ES)