Entidades de Bauru cadastradas no Fome Zero, do governo federal, fazem diversas sugestões para a implantação do programa na cidade, mas não negam que a alimentação é importantíssima para atender às necessidades básicas da população carente.
Muitas das 47 entidades cadastradas ainda desconhecem que fazem parte da nova lista do governo federal.
A assistente social Leonice Clemente Amorin de Jesus, do Consórcio Intermunicipal da Promoção Social (Cips), diz que as pessoas assistidas pela entidade passam por privações alimentares em casa. “Eles vêm para cá até sem tomar café. Eles não têm alimentação na casa deles”, conta.
Rosângela Aparecida Cerigato Issa, que também é assistente social do Cips, afirma que 50% da receita da entidade são empregados em alimentação. Os cerca de 300 adolescentes tomam café da manhã e almoçam no local.
Ainda assim, duas merendas diárias foram suspensas por falta de alimentos. “Para nós, a maior dificuldade é a alimentação”, reforça.
Ela diz que se o Cips fosse contemplado com alimentos, metade de seus problemas estariam solucionados. Atualmente, a entidade conta com a colaboração do programa Mesa Bauru, através do qual recebe principalmente legumes e frutas.
“Mas o arroz, o feijão e a mistura é tudo contado. A maioria dos meninos não tem o que comer em casa e a maioria dos pais estão desempregados”, enfatiza Rosângela.
O Centro Regional de Atenção aos Maus Tratos na Infância (Crami) também informou que o perfil das pessoas que atende é de pobres e miseráveis. A informação é da assistente social Ecléa Correa de Lacerda Silva.
“Temos necessidade de implantar esse programa aqui também. É de fundamental importância. A maioria da população que a gente atende não tem condições mínimas de suprir suas necessidades básicas”, enfatiza.
Ela defende a doação de alimentos em caráter emergencial. “A gente sabe que está faltando recursos para as famílias. É necessário fazer isso, mas não de forma assistencialista e paternalista”, expõe Ecléa.
Recursos financeiros
Para a presidente da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) de Bauru, Olga Bicudo, a melhor forma de beneficiar as entidades sociais de Bauru seria através de recursos financeiros.
Ela afirma que 80% das famílias assistidas pela Apae passam fome e pensa que é preciso investir em escolaridade e empregos. “Enquanto não forem resolvidos os problemas de emprego e escolaridade, a fome vai continuar”, avalia Olga.
A presidente da entidade diz que o Fome Zero é bem-vindo e destaca que as crianças excepcionais não progridem nos estudos sem alimentação adequada. “Não adianta a criança ficar na escola-Apae e ser bem alimentada se ela chega em casa e não tem nada para comer”, explica.
O presidente do Centro Espírita Amor e Caridade, Richard Simonetti, destaca como positiva a mobilização da sociedade em torno do programa do governo federal.
“O governo tem uma ação positiva e de grande alcance porque está mobilizando a mídia e é positivo porque vai sensibilizando a população”, avalia.
Ele não acredita que haja repasse de recursos para a região Sudeste do País, através do Fome Zero. “Eu acho isso muito utópico. Não acredito que venha muita coisa não”, diz.
“O governo federal tem uma escassez muito grande de recursos e o pouco que há está sendo canalizado para o Norte e Nordeste - aquelas áreas mais pobres que são até bem mais carentes do que aqui”, acrescenta.
A crença de Simonetti é em ações isoladas vindas da comunidade. “A gente não está esperando muito desse programa para Bauru e o Estado de São Paulo”, salienta o presidente do Centro Espírita.
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SBC já recebeu doações
Antes de saber que estava cadastrada no Fome Zero, a Sociedade Beneficente Cristã (SBC), antigo Paiva, recebeu através do programa mais de 270 quilos de alimentos neste mês.
A entidade foi contemplada com a primeira doação dos alimentos arrecadados pela Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT), parceira do governo federal no Fome Zero.
A assistente social Ana Paula Cardia ressalta que a SBC passa por uma fase de sérias dificuldades financeiras. Eventualmente, recebem doações de alimentos que não são suficientes para manter a população assistida.
“Alimentação não é só o que a entidade deve fornecer. Nós precisamos qualificar o serviço como um todo”, diz Ana Paula.
Ela acredita que exatamente por essas dificuldades a entidade foi escolhida pelos Correios, entre as 47 cadastradas no programa do governo federal.
Além de doação de alimentos, Ana Paula sugere repasse de verbas para as entidades. “A proposta é muito interessante, mas ainda não está muito claro de que forma será implementado com relação às entidades”, avalia.
Outra sugestão da assistente social é que haja adequações de acordo com as peculiaridades de cada região do País. “Acredito que esse programa Fome Zero deva ser implementado de acordo com as necessidades de cada população”, diz.
Já a tesoureira da entidade, Ana Maria da Silva Rodrigues, sugere parcerias com as empresas não apenas para arrecadação de alimentos, mas para geração de empregos - outra necessidade das pessoas assistidas. “As pessoas precisam do alimento, mas precisam mais ainda do emprego”, afirma Ana Maria.