Seu pai foi atleta, locutor, vereador e professor. Ela herdou o fôlego, a música, a capacidade de lidar com as pessoas com amor e o dom de ensinar e se transformou numa das professoras de educação física mais queridas e conhecidas de Bauru.
Aos 50 anos, Neusa Maria de Carvalho Barbosa, que é casada com Paulo e tem uma filha de 21 anos chamada Ana Paula, tem fôlego de adolescente e uma paixão pela terceira idade.
Professora de ginástica e dança de salão do Sesc de Bauru há 23 anos e há 15 anos como docente na faculdade de Educação Física, essa mulher movida a música, sorriso e maquiagem (até para dormir) é um exemplo de alegria e perseverança até na hora da morte, onde, se pudesse, faria coreografia.
Alguns momentos hilários e edificantes de sua trajetória, ela contou ao JC, na última semana, minutos antes de entrar para mais uma aula.
Jornal da Cidade – Como surgiu em você o gosto por ensinar? Neusa Maria de Carvalho Barbosa, a Neusinha – Eu comecei a dar aulas de religião. Nasci em Agudos e era muito de igreja, tinha uma turma muito boa. A gente fazia pelo menos em um domingo do mês uma manhã de recreio nos quatro cantos do jardim e cada um dava uma atividade. Eu dava aulas de dança. Sempre fui muito ligada à música. De repente, pensei: ‘o que vou fazer da minha vida?’. Escolhi educação física, afinal no currículo não tinha matemática. Eu odiava matemática!
JC – Você escolheu educação física só para não ter aulas de matemática?! Neusinha – Lógico! Só sei contar até 8! Um, dois, três, quatro, cinco, seis e vamos lá meninas! (risos) Volta! Oito, sete, seis, cinco. Aiiii!!! Aí tive anatomia que era pior ainda. Um horror. Mas me dei bem, principalmente na ginástica, dança e terceira idade. Outro dia estava mexendo em uns livros e pensando como a gente deve ser na vida. E acho que isso eu sempre tive de bom. Tudo o que se passa em casa. Não trago para o Sesc. Não levo as coisas daqui para a Unesp, nem para a FIB, onde também dou aulas, nem para a minha turma de personal no Samambaia. Eu lido com crianças de 6 a 90 anos de idade. É uma turma boa a minha.
JC – Ao que tudo indica, a dança e a música sempre estiveram presentes na sua vida. Quando chegaram os velhinhos? Neusinha – Foi aqui no Sesc e não tenho noção de quantas pessoas já passaram pela minha vida. A única coisa que me magoa mais em trabalhar com terceira idade é quando um deles morre. A minha dança é toda coreografada e sou muito enérgica com eles. Não tenho dó em chamar atenção, minha função é puxar o povo para frente.
JC – A vida inteira você teve uma vida agitada? Como é que você se organiza para dar tudo certo? Neusinha – A minha vida sempre foi uma correria, mas quando chego em casa às onze da noite eu ordeno o dia seguinte. Eu gosto de tudo certinho. No caminho de um lugar para outro já vou pensando a minha aula do dia seguinte. Eu faço coreografia o tempo todo, coreografo até os imãs da geladeira.
JC – Assim você sempre arruma tempo para todo mundo, para a família, os velhinhos, os universitários. E para você? Como fica a sua vaidade? A sua atividade já ajuda a estar sempre em forma, mas você sempre está bonitona assim, maquiada ... Neusinha – Eu sempre gostei de mim. Acho que tenho um olhar gostoso e um sorriso franco. Bonito eu tenho o coração. Eu me olho no espelho e não me acho bonita, me acho boa para as pessoas. Se não estiver bem acho que nem saio de casa.
JC – Você já se sentiu assim? Neusinha – Já, mas eu tenho que sair e tenho que lutar. Vou ficar em casa fazendo o quê?
JC – E qual a sua receita de bom-humor? Neusinha – Acho que é a música que me ajuda, eu relaxo. No domingo, se meu marido chama para sair, eu saio. Adoro shopping! Adooooro supermercado. Só não gosto quando ele vai ver ferramenta. Mas saio para dançar com a patota da terceira idade e ele não fala nada. Mas meia-noite eu volto, senão perco o sapatinho.
JC – Qual a lição que essa turma mais velha lhe deu? Neusinha – Cada dia eu aprendo uma coisa com eles. A única coisa que me entristece, como já disse, é quando um deles fica doente ou morre. Mas aí eu visto, maquio no caixão...
JC – Você tem coragem de fazer isso? Neusinha – Maquio, maquio todos. Minha mãe morreu faz dois meses, eu também maquiei. Meu marido comprou esmalte vermelho e a minha filha pintou as unhas dela. Parecia que ela ía para uma festa. Eu pedi desculpas e deixei mais leve um pouquinho. Afinal, o que é um velório para a gente? As pessoas vão para contar piada, deveria fechar à noite. Uma vez ouvi uma velhinha falar da outra que mentia a idade e no caixão estava bem velhinha. Me irritei, fui lá conversei com a família, tirei meu estojinho da bolsa e maquiei. Ela ficou linda e foi embora fazer um pas-de-deux com Deus. Foi aí que comecei. Você pode achar estranho. É geladinho, mas eu tinha que deixá-la bonita. Eu sempre maquiei e vesti todos os meus alunos para dançar, até os homens, por que não faria isso nessa hora. A minha mãe foi a mais triste, mas ela foi muito bonita. Ela morreria se não maquiasse.
JC – A sua recarga de energia é a cada hora? Neusinha – Pode ser, depende da aula, da música, das pessoas. Eu não tenho negatividade. Eu não tenho tristeza, só quando o banco chama.
JC – Você acha que alguns dos seus alunos de hoje serão como você? Neusinha – É muito difícil. Você tem que se doar, se dar mesmo. Não se foi a educação, o berço que tive, a harmonia. Acho que é tudo isso. Mas acima de tudo é ter fé. Quem tem fé vive em pé, não é? Mas eu não sei explicar. Vem de mim isso. Se as alunas chegam cansadas sou eu quem tem a obrigação de animá-las. Até para os meninos das turmas mistas eu cobro: cadê o batom? O segredo da vida está aí.