O dramaturgo bauruense Mauro Rasi dá uma entrevista histórica e inédita sobre o que pensa das coisas, das pessoas e do mundo. Rasi fala com refinado humor e inteligência crítica de sua paixão pela família, pelo teatro e pela cidade de Bauru. A entrevista foi concedida ao jornalista Luís Victorelli em março de 1999, pelo Projeto ScienceNet/HRAC-USP e TV USC.
A matéria foi realizada por ocasião do lançamento do Canal Universitário de Bauru. Mas “como o canal só foi lançado no ano seguinte, a entrevista nunca foi ao ar”, conta Victorelli.
“Talvez, pelo destino, agora podemos prestar essa homenagem a ele, por ele mesmo”, avalia.
Lúcido nas interpretações das coisas à sua volta, não deixa escapar nada do seu afiado radar. “Antigamente, a pessoa bitolada era aquela que não sabia nada, hoje é aquela que sabe tudo, de forma dirigida”, diz ao traduzir o bombardeio de informações que recebemos da mídia. Talvez por isso o sucesso prolongado de “Pérola”, peça que retrata de forma nostálgica a família “ideal” que não temos mais. Lembra do pai, Oswaldo, com saudade quando fala do “Crime do Dr. Alvarenga”, lançada em Bauru, com Paulo Autran no papel principal. Co-autor e cúmplice, o pai cobrou em vida a montagem da peça, mas o tempo não permitiu que compartilhasse do sabor da estréia.
Rasi foi o mais puro possível. “Acompanhei toda a cobertura do lançamento da peça e naquela entrevista, bem à vontade, era diferente do diretor ansioso e muitas vezes estressado pelo lançamento nacional de uma obra. Rasi foi suave, impar e ao mesmo tempo profundo nas suas análises”, relata Victorelli. Sobre a estréia em Bauru, Rasi confessa que só ocorreu aqui por “questões afetivas”. A partir daí Bauru passa a ser o tema da entrevista.
“Arte e esporte é o que eleva uma cidade”, diz. Da crítica aos nossos dirigentes aos “mistérios” que atravancam nosso teatro, Rasi dá uma aula de que podemos chamar de bauruismo. E arrisca dizer que “hoje Bauru é mais conhecida pelas peças que faço, do que pelo próprio sanduíche”, conta ele. Na entrevista, fala da nova geração teatral que “tem que ralar muito”. A preocupação com a cultura do seu povo também não escapa: “Hoje vemos nas novelas pessoas comprando, mas não lendo”. “Leitura é fundamental para todos e, principalmente, para o ator”.
O País, a censura e seus planos não ficaram de fora. Até de sua infância. Quando um dos maiores dramaturgos que este País já produziu afirma que sua “grande escola foi Bauru”, surgem as lembranças de seus primeiros passos encenados nos Cursos Brasil, dirigido por Gilda Improta. “Era tímido e tinha vergonha de representar... e ainda, até hoje, sou”, revela.
Bauru perde Mauro Rasi, mas sua história e compromisso de vida ficam como exemplos para todo um País, principalmente para uma cidade como Bauru, que é mais especial do que imagina e que Rasi, nesta entrevista, soube mostrar como ninguém.
A entrevista com Mauro Rasi irá ao ar a partir de hoje pela TV USC no Canal Universitário de Bauru-CNUB (Canal 14-NET). Horários: 11h30, 13h30, 18h, 20h e 21h50 (seg. a sexta). 18h, 20h e 21h30 (sábado). 12h30, 14h30 e 16h30 (domingo).