08 de julho de 2026
Articulistas

O ocaso do dólar


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Mesmo no caso dos planos humanos melhor preparados, os acontecimentos raramente se desenvolvem do modo previsto, inclusive pelos especialistas. É o que acontece com a estreita relação entre petróleo, dólares, ouro e euro. O preço do petróleo é fixado em dólares, moeda que é a principal divisa de reserva em nível mundial. No ano passado, a moeda norte-americana perdeu cerca de 20% de seu valor em relação ao euro. Os Estados Unidos se beneficiaram em parte, pois o dólar mais barato favorece o aumento das exportações norte-americanas, o que é importante por causa do enorme déficit comercial da superpotência, que está na casa dos 5,2% do PIB.

Os investidores e especuladores se mostram cautelosos diante do tamanho desse déficit, bem como frente à bolha prestes a estourar do mercado de valores, dos escândalos contábeis, das altas dívidas das empresas e dos consumidores, de uma taxa de poupança quase perto de zero, dos crescentes déficits orçamentários devido aos cortes impostos pelo presidente George W. Bush e aos cada vez maiores gastos militares, à guerra do Iraque e à nova doutrina Bush de ataques preventivos. Por isso, começaram a se desfazer de dólares e ativos norte-americanos. O cenário mais profundo contém surpresas para os Estados Unidos. Países que antes tinham suas reservas majoritariamente em dólares começam a diversificá-las incorporando euros, já que percebem a existência de menores riscos com esta moeda. O superávit comercial da Europa, taxas de poupança mais altas, menos compromissos externos de risco etc, tornam mais sólidos os fundamentos do euro.

Entretanto, houve outros motivos para mover-se rumo ao euro: a oposição de muitos países ao “unilateralismo” militar dos Estados Unidos e à guerra do Iraque, à prepotência empregada por Washington nas Nações Unidas e à sabotagem de tratados internacionais como os referentes ao aquecimento global, aos mísseis antibalísticos, às armas químicas e biológicas, ao Tribunal Penal Internacional etc.

Esta situação parece ser uma surpresa para o governo Bush, que continua expandindo os compromissos externos dos Estados Unidos, entre eles a reconstrução do Iraque e o oferecimento de pacotes de ajuda à Turquia, Paquistão e outros países cujo apoio busca, enquanto segue empenhado em decretar novos cortes de impostos. Enquanto Bush diz ao seu povo que continue comprando, viajando e gozando do “modo de vida norte-americano”, o déficit federal cresce, os programas domésticos sofrem cortes e a metade dos Estados suportam profundos déficits orçamentários.

Os Estados Unidos dependem pesadamente do petróleo importado, beneficia-se consideravelmente da fixação de preços da Opep em dólares. A frustrante diplomacia do dólar por parte de Bush e seu propósito de quebrar o poder da Opep dão razões adicionais a esta organização para mudar para pagamentos em euros. Se isto ocorrer, os Estados Unidos teriam de comprar euros com seus dólares para adquirir petróleo. Desse modo, o dólar cairia e o euro subiria ainda mais sua cotação. Então, a economia norte-americana deveria ajustar os preços da gasolina para cerca de US$ 5 o galão, que é o preço médio no mundo. Essas más notícias causariam mais uma profunda recessão nos Estados Unidos.

As boas notícias seriam que as exportações norte-americanas prosperariam. Detroit aceleraria sua própria produção de automóveis de consumo eficiente, tecnologias de energia solar e renovável seriam amplamente aproveitadas como um novo setor sustentável da economia norte-americana, o que proporcionaria milhões de novos postos de trabalho. E o governo Bush teria de renunciar aos seus supercompromissos com a guerra global contra o mal e deveria mudar suas prioridades para o financiamento da educação, segurança interna e subvenções federais para ajudar os Estados em suas finanças. (A autora, Hazel Henderson, é economista e autora de “Mais Além da Globalização” e “Construindo um Mundo em que Todos Ganhem”)