“Em fevereiro, houve o 4.º torneio de pesca no Município de Fartura. Nunca me interessei em participar, pois reconheço não ter habilidades e a paciência que todos os pescadores têm. Considerando que o prêmio desta vez era tentador, resolvi participar e convidei dois companheiros para comporem a equipe que poderia vencer.
Convite aceito, a equipe foi inscrita com o nome de “Furo n’água”, tendo como componentes: eu no comando, o Shela como pescador, do lado direito do barco, e o Luiz, do lado esquerdo. Uma das regras impostas era não tomar bebida alcoólica.
Como driblar a equipe julgadora? Isso não foi problema para o Shela, que pôs em prática uma velha tática usada por ele desde 1970, ou seja, fez dois litros de refrigerante Fanta virarem cinco litros. Isto porque adicionou três litros de pinga adquirida em Timburi/SP. Os fiscais não foram rigorosos, viram o líquido laranja e não deram importância.
Devido a isso, por volta das 14h não conseguíamos mais colocar isca corretamente nos anzóis, sendo impossível saber quem estava mais alcoolizado. A competição estava concorrida. Havia competidores bem equipados, mas ninguém conseguia pescar nada, os peixes não davam sinais de que estavam com fome.
Sendo assim, relaxei, lancei o anzol na água, soltei toda a linha e prendi a vara no barco. Para surpresa e espanto de todos, um peixe mordeu a isca com tanta força que desprendeu a vara! Tentamos recuperá-la sem êxito, pois sumiu nas águas turvas da represa.
Obviamente, fora este episódio não conseguimos pescar nenhum peixe. A desculpa foi atribuída ao céu encoberto e à chuva, que permaneceu pelo resto do dia.
O campeonato foi encerrado às 17h30. Considerando-se que não tínhamos nem o menor peixe para apresentar aos jurados, o melhor a fazer naquele instante era ir embora. O Luiz, mesmo estando pra lá de Bagdá , achou que estava mais sóbrio; daí, para voltarmos para casa, resolveu assumir a direção do barco. Para complicar ainda mais, deixou os óculos caírem na água! Prontamente recebeu o apelido de Mister Magoo. Pois bem, acreditando que logo chegaríamos em casa, porque a distância levaria no máximo 20 minutos de tempo, devido ao cansaço, eu e o Shela fizemos das bóias travesseiros, deitamos no fundo do barco e dormimos. O Shela roncava tão alto que até abafava o barulho do motor. Acordei assustado ao perceber que havia escurecido e ainda estávamos navegando, só podíamos estar perdidos, dedução confirmada ao olhar no relógio, que apontava 18h58min32seg.
Situação complicada. Como sair dessa enrascada sem uma bússola?
Continuamos seguindo em frente, para onde o barco estava apontado e, passados uns dez minutos, avistamos bem ao longe algumas luzes. A solução foi seguir para aquela direção.
Mais 30 minutos e chegamos lá. Descobrimos tratar-se de um vilarejo localizado no Estado do Paraná, denominado Alemoa, ou seja, o piloto fez o trajeto ao contrário, deveria seguir para o lado esquerdo da represa para chegar ao local onde estávamos instalados, mas acabou indo para o lado direito.
Aportamos na praia, por sorte havia uma lanchonete bem sortida, fizemos amizade com o proprietário, que por sinal já residiu em Bauru, tomamos um prato reforçado de caldo de mocotó com pão caseiro. Bem alimentados, compramos pilhas para a lanterna, que de tão forte ficou parecendo farol de milha e despedimo-nos do novo amigo, prometendo-lhe voltarmos em breve para saborearmos a especialidade da casa, que é o delicioso caldo de mocotó.
Assumi o comando do barco exigindo a potência máxima do motor, pois, ficamos sabendo que estávamos quase 50 km longe de casa. O Shela se encarregou de segurar a lanterna e ficar atento para não entramos em algum banco de areia ou bater em tronco de madeira. Havíamos percorrido uns 18 km a tensão nos fazia ficar calados, mas o silêncio foi quebrado pelo sinal de alerta. Parecia haver algo estranho, ora flutuando ora afundando, diminuindo a velocidade do barco e, fixando bem o fleche da lanterna, vimos que era minha vara que havia sido levada pelo peixe durante o dia.
Decidimos recuperar a vara, pois já estávamos sóbrios; porém, havia um fator complicador: era noite sem luar, e o fleche da lanterna era limitado. Depois de várias tentativas, num golpe de sorte o Luiz, mesmo sem óculos, conseguiu segurar firme e perceber que o peixe ainda estava fisgado. Aí começou a luta para colocá-lo dentro barco.
O Luiz brigou com o peixe por mais ou menos 30 minutos, passou a incumbência para mim, que também demorei mais ou menos isso, até que, finalmente, conseguimos embarcá-lo e ver que era um jaú, quase do tamanho do Shela pesando uns 25 quilos! Não temos a foto porque era noite, e na máquina fotográfica não tinha flash. Lamentamos muito, pois com este exemplar seríamos imbatíveis e o prêmio máximo com certeza seria nosso... ponderamos que não adiantava mais, considerando-se que a competição encerrou às 17h30.
Resolvemos soltar o peixe, na esperança de que ele cresça e engorde um pouco mais, para que no ano que vem esteja pesando uns 40 quilos e caia novamente no meu anzol, claro, dentro do horário e que não fuja.” (Carlos Fonseca da Costa Jr. é contador de histórias)