31 de maio de 2026
Saúde

Abuso de analgésicos pode causar dor de cabeça

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 4 min

Quem sofre com dores de cabeça tem sempre à mão um comprimidinho para remediar a situação. Não importa o nome ou o princípio ativo que ele tenha - usado de vez em quando, o analgésico cumpre bem seu papel. Porém, ingerido com freqüência maior do que quatro vezes ao mês, aquele medicamento que deveria curar pode se transformar em causador das crises.

O alerta é do neurologista Edgard Raffaelli Júnior, presidente de honra da Sociedade Brasileira de Cefaléia - pioneiro no estudo da dor de cabeça na América Latina. Ele afirma que quase um terço dos brasileiros (27%, segundo pesquisa da Universidade de São Paulo) sofrem de dor de cabeça crônica - mais de uma crise por mês. Ao invés de procurar um médico, essas pessoas preferem a automedicação.

“Todo mundo diz que dor de cabeça não tem cura. Se não tem cura, então não tem tratamento. E se não tem tratamento, por que procurar o médico? Eu vou à farmácia, compro qualquer remédio, peço a última novidade e vou tomando isso adoidado. O que acontece? O cérebro pára de produzir endorfinas”, afirma.

Segundo ele, o sistema nervoso central tem em seu interior células que produzem uma substância chamada endorfina. Batizada de “hormônio do prazer”, tem a função, entre outras coisas, de abolir as dores e produzir a sensação de bem-estar.

“Quando há um estímulo produzido pela dor, são liberadas endorfinas que vão atuar na região afetada para anular a dor. Se o paciente toma um analgésico, ele desobriga o sistema nervoso central de produzir as endorfinas contra aquela dor. Se o paciente tomar muitos analgésicos, a produção de endorfinas cai e ele passa a depender só dos analgésicos para aliviar sua dor”, descreve.

Com o tempo, o cérebro “desaprende” a lidar com aquela dor e a pessoa fica à mercê dos medicamentos. Ela passa a necessitar de remédios cada vez mais fortes e em dosagens cada vez maiores, até que eles também param de funcionar.

“Quando isso acontece, o paciente passa praticamente a viver com dor de cabeça, pois passa mais tempo com a dor do que sem ela. Pode-se dizer que aí o paciente desenvolveu a chamada cefaléia crônica diária - ela tem dor de cabeça mais de 15 dias por mês. É uma fase da doença em que o retorno à vida normal é extremamente difícil”, afirma.

Raffaelli Jr. comenta que uma lenda antiga diz que dor de cabeça - principalmente a de enxaqueca - não tem cura. Isso faz com que as pessoas busquem soluções paliativas.

“No entanto, a orientação adequada é: se você tem dor de cabeça incomodativa que ocorre pelo menos uma vez por mês e é forte e duradoura, não tome remédios. Procure um médico, de preferência um neurologista especializado em dor de cabeça ou peça a seu médico que lhe indique um”, recomenda.

O especialista afirma que a dor de cabeça é uma dos ramos mais difíceis da medicina atualmente. “Não existem dados precisos, mas eu estimo que 90% dos casos possam ser resolvidos muito facilmente. Outros 5% dos casos dão um pouco mais de trabalho e apenas 5% dos pacientes apresentam uma forma da doença que não se consegue resolver. Não se pode dizer, por isso, que a doença não tem cura”, ressalta.

Ele defende que mesmo os casos que não se consegue resolver hoje devem ser acompanhados por um médico porque os estudos progridem rapidamente e amanhã já pode haver uma solução. “O importante é dar esperança ao paciente e ensiná-lo a procurar os médicos e tratamentos certos”, completa.

Quando o estômago pára

O neurologista Luiz Bevilácqua Júnior defende que a maioria das vítimas da dor de cabeça não sabe tomar remédios. Ele explica que quando a dor começa, uma das primeiras reações do organismo é a hipotonia estomacal - o estômago simplesmente pára de funcionar.

“Você pode tomar quanto remédio quiser, que não vai fazer efeito. O estômago parado não absorve o medicamento. Então, a pessoa toma uma dipirona em casa. A dor não passa e ela vai parar no pronto-socorro. Lá, ela recebe uma injeção que corta a dor em pouco tempo. O que ela tomou? Dipirona, só que direto na veia”, exemplifica.

Segundo o médico, a hora certa para se tomar o analgésico contra dor de cabeça é aquele momento em que a pessoa sente que vai doer. A maioria das vítimas desta doença apresenta uma série de sinais antes da dor se instalar - sensibilidade à luz, visão turva, peso na cabeça. Usado neste momento, o medicamento é rapidamente absorvido e impede que a dor se instale.

“Mas tem um professor que sempre diz que o enxaquecoso é teimoso - ele só toma remédio quando já não agüenta mais a dor. Só que aí o estômago já parou, o remédio não faz efeito e ele põe a culpa no remédio ou no médico que o indicou”, destaca.

Bevilácqua Jr. defende que o primeiro passo é procurar um médico que vai determinar qual é o melhor remédio para aquele tipo de dor de cabeça - existem centenas delas.

“Se você toma o remédio certo, na hora certa, você começa a diluir as crises. Aí é só você se auto-estudar, observar quais são os fatores que desencadeiam a dor em você e usar truques para fugir deles. Assim, as crises vão ficando cada vez mais fracas e esporádicas”, conclui.