A equipe econômica do governo Luiz Inácio Lula da Silva tem muito a comemorar nesses quatro meses de 2003: os investimentos estrangeiros retornaram, o saldo da balança comercial beira os US$ 5,5 bilhões, o risco-país é o menor em um ano e, o que seria impensável antes das eleições, o real está valorizando a cada dia. O otimismo com a performance econômica, porém, ainda não chegou à vida real - ou à “vida do real” -, isto é, ao bolso do cidadão.
Os setores produtivos, como a indústria e a agricultura, ainda se debatem com créditos caros - e raros - e com a volatilidade do dólar, ao passo que o comércio sofre com a depreciação do poder de compra do consumidor. Afinal, como ilustra o economista Reinaldo César Cafeo, delegado do Conselho Regional de Economia (Corecon), há melhoras no quadro geral, mas o paciente continua o mesmo.
Na opinião de Cafeo, o cenário de euforia econômica deve ser utilizado para facilitar a aprovação das reformas propostas pelo governo federal, a tributária e a Previdenciária. No jargão, é preciso mudar o “modelo econômico”, ou seja, eliminar não só os sintomas, mas as causas do mal do paciente.
“Se for mantida essa mesma tendência, isso será refletido em inflação menor. E a inflação menor, garantindo esse fluxo de dinheiro que está vindo para o País, é pré-requisito para que o governo, a partir deste mês, comece a baixar a taxa de juros”, acrescenta o economista. Com a taxa básica de juros (hoje em 26,5% ao ano) mais baixa, é esperada uma retomada dos investimentos produtivos.
O presidente da Associação Comercial e Industrial de Bauru (Acib), Cássio Carvalho, concorda que os juros altos são um entrave ao desenvolvimento “sadio” da economia, na medida em que encarecem o crédito para as micro e pequenas empresas. “Temos um clima mais ameno, mas o que falta agora para o mercado deslanchar são juros mais baixos”, diz.
Para Carvalho, a tentativa do governo de conter a inflação às custas de juro alto e consumo baixo deveria ser invertida e efetuada de dentro para fora. Afinal, diz o presidente da Acib, os aumentos nas chamadas tarifas públicas, como energia elétrica, telefone e combustíveis, foram “violentos”.
Além disso, Carvalho aponta que o salário mínimo de R$ 240,00 é bastante baixo. “O consumo está muito reprimido. Se o pessoal tiver um pouco mais de ganho, vai consumir mais, porque tem necessidade disso”, afirma o presidente da Acib.
Para o segundo semestre, historicamente as expectativas para o comércio e indústria dão sinais de melhora, a começar pelo Dia das Mães no próximo domingo. As lojas começam a receber mais mercadorias da chamada “linha branca”, como geladeira e fogão, e a queda nos termômetros anima o consumidor a ir às compras. “Quanto mais gente na rua, mais o comércio vai faturar”, diz Carvalho.
Flutuar ou não?
Além da questão política das reformas, o governo tem à frente um “doce dilema”: segurar ou não a queda do dólar. Apesar das vozes dissonantes dentro do governo, Lula e o ministro da Fazenda, Antônio Palocci, fazem questão de reiterar que o câmbio no Brasil é flutuante.
Um dos setores que mais sentirão com a queda na cotação da moeda norte-americana é a agricultura. Neste ano, o País espera uma safra recorde de grãos: 116 milhões de toneladas, 68% deles de soja e milho. A receita, no entanto, deve ser menor que a esperada devido às mudanças do quadro nos últimos 15 dias.
“Você bate o recorde de produção, mas a receita cai demais. Isso porque os insumos e as máquinas, que sofreram elevação muito grande com o dólar alto, continuam no mesmo preço. Nada baixou”, afirma o vice-presidente da Federação da Agricultura do Estado de São Paulo (Faesp), Maurício Lima Verde Guimarães.
Ele aponta culturas baseadas em dólar, como o café e a laranja, que, além de quebras na produção, poderão ter problemas com a comercialização a partir deste mês. Lima Verde cita o exemplo de um produtor de laranja que contratou venda de 100 mil caixas com o dólar a R$ 3,50, e corre o risco de ter de vender a preço mais baixo ou ver a compra se desfazer.
Ele também observa que a falta de políticas continuadas - e concretas - de crédito ao pequeno e médio produtor acaba prejudicando a competitividade e a produção. “O alvo principal (do Ministério da Agricultura) é o pequeno e médio produtor, mas o grande problema é o sistema financeiro”, lamenta.
As exportações da região, por outro lado, estão vivendo uma grande fase, a julgar pelos números da Estação Aduaneira do Interior (Eadi/Bauru). Já no primeiro bimestre deste ano, as exportações somavam US$ 2,8 bilhões, resultado 289% maior que o registrado no mesmo período do ano passado. Vale lembrar que os dois primeiros meses de 2002 estavam sob o impacto dos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001.
Ainda assim, a diretoria da Eadi vê perspectivas de crescimentos reais recordes nas exportações no decorrer do ano, mesmo que o dólar oscile ainda mais para baixo. “Apesar de o real ter se valorizado, acredito que nós ainda temos uma faixa muito boa de trabalho”, diz o diretor comercial da Eadi, Antônio Grillo Neto.
Para ele, não há motivos para que as vendas externas caiam - afinal, a guerra contra Saddam Hussein e as eleições no Brasil passaram sem maiores traumas. “Nós ainda vamos ter momentos melhores, pois até agora vivemos crises externas subseqüentes”, diz Grillo Neto, acrescentando que o otimismo da Eadi “tem base de sustentação”.
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‘Efeito psicológico’
Apesar do otimismo com o novo governo ainda não ter contagiado muita gente, há quem já esteja colhendo frutos da “euforia econômica”. Em Bauru, uma confecção está conseguindo ampliar os negócios com muito trabalho e uma boa dose de flexibilidade. Segundo Graciema Aronne, sócia da empresa, até a demanda está aumentando. “Parte devido à mudança de estação, ao Dia das Mães e, grande parte, ao efeito psicológico de otimismo com o governo”, diz.
Graciema, que há 12 anos mantém a confecção com o marido José Roberto Cervantes, abriu há alguns meses uma loja no Centro, vê sua produção variar entre 2,5 mil e 3 mil peças por mês e segura sua equipe de 18 pessoas sem demissões mesmo em crise cerrada - como no final de 2002.
No início a confecção produzia apenas malharia, mas há seis anos o casal percebeu que o jeans era um bom negócio - hoje, o produto responde por 90% da produção. “Se amanhã a gente perceber que a tendência é outra, a produção muda. É isso o que temos feito, e tem dado certo”, diz Graciema.
Contudo, Cervantes reclama da alta oneração da carga tributária e do volume de cheques sem fundo. Mesmo assim, pensam no futuro em abrir portas para a exportação e confiam nas boas intenções do novo governo para com os micro e pequenos empresários. “É preciso um pouco mais de tempo para que a coisa flua”, pondera Graciema.