10 de julho de 2026
Cultura

"‘Carandiru’ é parcial", diz Cel. Ubiratan

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 4 min

O filme “Carandiru”, que já levou multidões aos cinemas brasileiros, é parcial, ouviu só a versão dos presos e esqueceu de ouvir as outras partes envolvidas. O mais preocupante é que as cenas de violência mostradas na fita poderão influenciar no julgamento dos 84 envolvidos que ainda não sentaram na cadeira dos réus. Esta é a opinião do deputado estadual do PTB, Ubiratan Guimarães, o coronel Ubiratan, que em 1992 comandou a invasão da Casa de Detenção de São Paulo no episódio que ficou conhecido como “massacre do Carandiru”.

O parlamentar esteve na última semana na cidade para agradecer os votos obtidos na última eleição.

Na opinião dele, o filme mostra apenas o dia-a-dia normal na cadeia. “É a rotina de qualquer presídio, onde acontecem as mesmas coisas. Situações menos ou mais violentas, dependendo de cada unidade prisional”, diz.

O coronel acha que o filme passa a ser mentiroso a partir da invasão da Polícia Militar, no final da fita. Para o coronel, nesse momento o filme se torna mentiroso, parcial. “O senhor Hector Babenco só ouviu os presos. Só tem a versão deles. Eu acho que quando a gente faz um trabalho tipo um livro ou um filme, alguma coisa sobre um fato real, tem que procurar expressar a verdade”, afirma.

Ubiratan acha que Babenco deveria ter procurado conhecer a outra face da moeda. “No dia da invasão dois juízes corregedores, um desembargador, o diretor do presídio, o secretário adjunto da segurança pública estavam presentes. Ninguém foi ouvido”, reclama.

Para o parlamentar, o preso sempre vai dizer que a polícia é violenta e eles são inocentes. “Essas cenas que foram mostradas, de uma violência extrema da polícia, são mentirosas. Isso traz um prejuízo muito grande para quem ainda vai ser julgado. Tem 84 pessoas a serem julgadas”.

Maior condenação do Brasil

O coronel já foi julgado e condenado a 632 anos. “Eu já fui condenado e estou aguardando resultado do recurso para anulação do julgamento. Minha preocupação são com as imagens mostradas no filme. Isso vai ficar na mente dos julgadores, que com certeza já irão para o júri com um pré-julgamento feito”, diz.

Ubiratan considera um desserviço à sociedade, o trabalho feito no final do filme. “Quem não se lembra de cenas de um filme. As cenas marcam pela violência ou sensualidade etc. O julgador vai ficar com a imagem na cabeça”, acredita.

“Mostraram a situação como se os presos estivessem desarmados. O que ninguém esclarece é porque que dos 2.200 presos do pavilhão nove, a maioria sobreviveu. Morreram 102 no confronto com a polícia. Nove já estavam mortos antes da nossa entrada na casa. Mais de 2000 mil ficaram vivos porque se renderam. Morreram aqueles que entraram em confronto”, declara.

Para o coronel, nunca houve a intenção de matar por parte da polícia. “No meu julgamento, isto é público, está nos autos, um preso declara que eles prepararam emboscada para a tropa de choque. Quem prepara a emboscada quer o quê?”, questiona.

O outro lado da moeda

Na versão do coronel, o massacre do Carandiru era inevitável e, de uma certa maneira, evitou mais mortes. “Quando nós chegamos os bombeiros não conseguiam entrar para debelar o fogo. Os peritos disseram que se o incêndio não fosse debelado teriam morrido mais presos. A fumaça e o fogo eram imensos”, lembra.

O diálogo, segundo o parlamentar estava descartado. “A primeira tentativa de diálogo foi feita pelo diretor do presídio. Ele foi recebido pelos presos com uma chuva de armas improvisadas, lanças, estiletes etc. Foi quando os juízes, o desembargador e o secretário adjunto optaram pela invasão”.

Segundo o coronel, os presos colocaram fogo na primeira barricada. “Tinha um preso pendurado jorrando sangue. Os detentos que se entregaram foram saindo. No confronto foram mortos 102”.

Ele lembra que foram apreendidas 14 armas de fogo e 280 armas improvisadas. “Tivemos que nos defender. Entramos com 85 homens e um reforço externo de mais 200. No pavilhão nove haviam 2.200 presos, mais 8.500 presos na casa toda. 11 mil no complexo. Uma massa carcerária de 11 mil”, diz.

16 anos sem ver o filho

Sobre as indenizações feitas aos familiares dos presos mortos no confronto, o parlamentar é totalmente contrário. “Eu acho que está completamente errado. Só se dá valor e atenção aos bandidos. Todos os dias morrem pais de família que são assaltados, como os taxistas. Ninguém procura essa família para saber como vão ser criados os filhos da vítima”, declara.

De acordo com o coronel, algumas famílias foram indenizadas, outras, não. “Houve um caso interessante. A mãe de um preso pedia indenização. O procurador do estado que foi avaliar fez um levantamento sério e descobriu que ela não visitava o filho havia 16 anos. Estava preocupadíssima com o filho. Mas queria receber a indenização”, diz.