07 de julho de 2026
Ser

Deusas do universo

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 6 min

Ajudar a resgatar a essência feminina é a missão da terapeuta holística argentina Mônica Giraldez, 53 anos, que desde 1976 trabalha com a formação de mulheres, ministrando cursos, palestras e vivências em vários países do mundo. Na última semana, ela esteve em Bauru para a uma iniciação nos “mistérios femininos”.

Ela conta que o advento do movimento feminista no início do século XX, que deu direito ao voto e ao trabalho, fez com que as mulheres migrassem para o mundo dos homens, trabalhando fora de casa, estudando mais e até ganhando mais que eles. Entretanto, ao voltarem para casa se encontravam vazias e sem amor.

“Muitas mulheres se deram conta aos 50 anos que estavam sem filhos, sem amor, que tinham perdido a estabilidade feminina, perdido a feminilidade”, comenta.

Com isso, teve início nos anos 90 um movimento mundial denominado Nova Espiritualidade Feminina. “Isto não é uma instituição, nem uma igreja. É um movimento espontâneo, que tem base no feminismo, mas começa a resgatar as antigas tradições e a espiritualidade.”

O movimento teve início através de estudos da arqueóloga Marija Gimbutas, que começou a desenterrar em 1915 a “cultura da deusa”, estudando os povos que se desenvolveram nos períodos paleolítico e neolítico na região Europa Central e na região do Mar Mediterrâneo.

“Segundo o que se encontrou nas cavernas, eles não tinham armas, nem hierarquia e se desenvolviam em torno de uma grande mãe, uma mulher gorda de tetas grandes. Esses povos acreditavam que se a humanidade saía da mulher, o universo saía de uma grande mulher, a deusa maior”, revela a terapeuta, que cita que onde hoje é a Turquia, um país extremamente machista, foram desenterradas cidades inteiras destes povos.

Ela explica que ao contrário do que acontece nos dias de hoje, a mulher era supervalorizada e o seu corpo era sagrado. A gestação e a alquimia dos alimentos também tinham valor divino e a participação na sociedade era coletiva, pois o que imperava era a deusa-mãe e seu filho.

“Essas imagens são muito anteriores à Virgem Maria e Jesus e explicam o grande mistério: o homem nasce da mulher. Depois, com o aparecimento de deus-pai, os povos do deserto escravizam os povos que acreditavam na deusa-mãe e criam o mito de um deus que é pai sem mãe e sem esposa e que tem um filho com uma escrava. Primeiro vem Abraão, que mora em Hur, a cidade da deusa e onde a união de um homem e uma mulher era maravilhosa. Depois se cria a imagem da Eva, a pecadora. Mas qual o seu pecado? Ela queria comer o fruto do conhecimento. Então, você é punido por buscar o conhecimento?”, questiona Mônica.

Castigo original

Dessa forma, a terapeuta justifica que o episódio do pecado original pode ser interpretado como castigo, pois impede a mulher de buscar o conhecimento e a sexualidade. “Toda a humanidade passou a sofrer. As mulheres passaram a parir com dor e os homens a pagar com o suor da testa”.

Nesse momento, segundo o terapeuta, nasce o patriarcado e as relações de escravidão. Somente quando se resgatam as lendas e as provas da existência dos povos da “grande-mãe” é que se inicia o processo de resgate da espiritualidade feminina.

“Esta antiga mãe aparecia com várias faces: a avó, a mãe e a filha sagradas e os mistérios são do corpo e do sangue da mulher que é capaz de menstruar e gerar vida. Depois é que vem a Trindade da Eucaristia. Mas imagine ter que matar o filho para pegar um pouco de sangue?”, indigna-se a terapeuta, comentando que no caso da mulher, o sangue é produzido pelo próprio corpo.

Mistério

Então, segundo Mônica Giraldez, o trabalho da Nova Espiritualidade Feminina começa desvendando que a grande deusa era a própria natureza.

“O tempo que nós temos não tem nada a ver com a natureza. A olho nu vemos que a lua fica nova, crescente, cheia e minguante a cada 28 dias, 13 vezes por ano. São 13 meses. A gestação de uma vida é de nove luas. Geralmente o ciclo menstrual de uma mulher tem 28 dias. Mas o 13 se tornou um número maldito. Quando os sacerdotes gregorianos tomaram o poder perdeu-se a dimensão do tempo”, revela.

Hoje muitas pessoas no mundo seguem o calendário maia, que segue as luas e os meses de 28 dias. Existem pessoas que abrem mão de altos cargos para viver divulgando esta velha ordem temporal.

A terapeuta aponta que a mulher tem uma facilidade muito maior em se conectar com a natureza e as coisas espirituais, por isso foi destituída do poder. Ela comenta que os homens tinham medo desse poder, por isso criaram essa relação de dominação e exclusão. E cita a queima na inquisição de nove milhões de mulheres que eram consideradas bruxas por dominar a ligação com a natureza e seu poder curativo.

“A nossa busca é resgatar o poder criador da mulher, que não é só criador de matéria física.”

Os arquétipos

Para a terapeuta, o primeiro passo é trabalhar com os arquétipos da mulher, os modelos naturais interiores, que são o contrário dos estereótipos impostos pela sociedade.

A terapeuta atua no sentido de limpar e curar os aspectos negativos trazidos em cada uma das fases mais importantes da vida de uma mulher:

• A menina (que representa a magia do nascimento à primeira menstruação)

• A donzela (símbolo da sexualidade sagrada que vai até os 28 anos)

• A mãe (que possui o dom da concepção imaculada até os 42 anos)

• A anciã (detentora da sabedoria e do poder que se inicia no climatério, que se encerra aos 49 anos e só termina com a morte aos 98 anos).

Nas vivências, Mônica trabalha com elementos simples mostrando que cada fase precisa ser respeitada. “O climatério, por exemplo, é uma fonte de poder imensa para a mulher, se ela vivenciá-lo com naturalidade. Em lugar de sentir o calor, os altos e baixos que são as vibrações energéticas, nós tomamos remédio para não sentirmos nada. Não conseguimos entender que a vida começa aos 49, ou 50 como se diz por aí.”

O grande problema da modernidade, segundo a terapeuta, está na ânsia de produzir, correr contra o tempo e viver como homens sem respeitar o fato de serem mulheres. Ela conta que em idade reprodutiva, a mulher precisa manter-se mais calma e serena durante o período menstrual: as tensões e as cólicas são os sinais de que é preciso desacelerar. “As mulheres precisam respeitar este momento como sagrado, um período de maior interiorização”, comenta.

Revertendo processos

Apesar das mulheres terem conquistado o mundo, elas precisam quebrar seus próprios paradigmas, orienta Mônica. Precisam ser felizes, recuperar o poder de mãe, não só a autoridade, mas o direito de ter parto normal e a facilidade de se relacionar com os homens, de cultivar o lar, de ser companheira e aceitar o prazer, deixando de lado os medos, as mutilações e as compulsões. É um processo doloroso, mas necessário.”

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Em harmonia com a natureza

Para ficar na mesma sintonia com o universo é preciso:

• Cantar,

• Dançar,

• Desenhar,

• Se alimentar com menos comida processada possível

• Usar remédios naturais

• Fazer uso de terapia floral

• Tomar chás de ervas frescas

• Pisar na terra ou na areia

• Tomar banho de rio o cachoeira

• Perceber o corpo e suas sensações

• Amar ao próximo

• Gostar muito de si

• Olhar a lua e seguir suas fases

• Ter flores em casa

• Contemplar as estrelas

• Tomar chuva

• Deixar o sol iluminar a casa

• Ter prazer e sentir poder