2002 foi o ano das ambigüidades. Marca o presente atual e deixou lições para o futuro. O ninho tucano esteve alvoroçado no final do governo FHC. A oposição petista curtiu momentos de profunda incerteza e de radical revisão de suas teses tradicionais. As aflições do ano de 2002 vão ficar na história. Apenas para recordar. Avassaladora crise internacional atingiu em cheio a economia dos países emergentes. Os efeitos do 11 de setembro na economia americana e as bandalheiras das grandes corporações derrubaram as bolsas e os investimentos internacionais. Fatores suficientes para abalar o real. Sucederam-se ainda as incertezas das eleições gerais no país.
Documento recente do FMI, vê sinais de vulnerabilidade na economia brasileira. O clima atual de euforia do mercado financeiro e do governo Lula da Silva, com a queda do dólar e do risco Brasil, provocou o alerta do FMI. A elevada dívida pública e o baixo crescimento econômico são motivos de séria preocupação. Elogia a ação do governo na área social e na manutenção das “disciplinadas políticas fiscal e monetária”. Lembra, no entanto, do ano passado, quando “o Brasil enfrentou uma queda repentina do fluxo de capital externo, devido a preocupações relativas ao curso da política econômica no futuro e a capacidade de pagar a dívida”. O ano 2002 deixou lições importantes para a gestão de nossa economia.
As incertezas eleitorais pesaram como chumbo. Lula da Silva surgiu bem nas pesquisas desde final de 2001. Flutuou pouco. Não abandonou o patamar dos 40% de preferência do eleitorado. A incerteza de suas propostas derrubou mais o real e afugentou capitais. Investidores deixaram de aplicar seus dólares no país. Tal fato provocou forte desvalorização do real e a disparada da inflação. A inflação levou ao aumento dos juros. O Brasil cresceu quase nada.
Esta retrospectiva gerou a advertência do FMI contra o excesso de otimismo. Sugere ao governo Lula da Silva que cuide dos problemas estruturais da economia: o endividamento do governo, a dependência do capital externo e a estagnação econômica.
Economistas experientes têm reiterado prudência com a conjuntura atual. Mendonça de Barros adverte: “mais uma vez repete-se o conflito entre uma visão que o PT chamou em seu passado de neoliberal e aqueles que defendem uma política econômica que reduza nossa dependência financeira externa e permita o aumento estrutural de nossas importações”. Conflito que marcou pesadamente o primeiro governo Fernando Henrique e que se reproduz na atual ortodoxia reinante na política econômica do governo Lula da Silva.
No plano político, o ano de 2002 deixou uma forte herança. Os tucanos saíram depenados do pleito. A candidatura José Serra provocou, desde o início, conflitos entre lideranças que não mais se superaram. Penas federais perdidas, mas ninhos mantidos incólumes no final do pleito. Lula ganhou no plano nacional, mas perdeu nos estados. Os governadores oposicionistas, dos principais estados da federação, acabaram como âncoras pesadas, atadas ao pé do governo federal.
O Governo federal e os governadores dos Estados vão definir os caminhos da sucessão. De acertos e erros do governo federal e dos governos estaduais sairão alternativas da sucessão. Herança da crise econômica e das lutas políticas de 2002. (Ulysses Telles Guariba. Professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP)