Considera-se que está despencando o consumo da quase totalidade dos produtos alimentícios populares, os quais, conseqüentemente, permanecem estáticos nas prateleiras e balcões dos supermercados, torcendo pela aproximação dos incautos adquirentes em geral, os quais olham para eles e franzem as sobrancelhas diante de seus invulgares preços. Entre os tais, figuram os ovos galináceos. Segundo as estatísticas, em 2000 seu consumo per capita era de 150 exemplares por ano e, não obstante o crescimento da população, agora mal atinge número aproximado de 120. Não sabem, nem conseguem adivinhar, as fontes do intuitivo setor, o motivo do declínio, que talvez não seja somente consequência da contínua elevação do preço do produto, considerado um dos alimentos menos caros da cozinha, além de dono de preparo versátil e rápido, quase instantâneo. Poderia, então, ser resultante das campanhas de saúde, que periodicamente surgem entre as populações, advertindo o consumidor para o riscos de colesterol. Seja o que for, inegavelmente as “donas” galinhas devem começar a pôr as “barbas” - aquelas que possam tê-las - em um benéfico molho, considerando logo que a rejeição de seus límpidos e deliciosos produtos nos cardápios domésticos ou industriais pode vir a representar também uma significativa redução de seus espaços nos terreiros e granjas, pois que, parando de realizar sua produção específica, passarão a ser vendidas para corte, sendo impiedosamente degoladas por facas e facões. Conseqüentemente, passarão a ser sacrificadas antes do tempo e mais que no normal, como acontece ao interessante amigo peru, que, como se veicula, morre sempre na véspera, com um epitáfio pra ninguém botar defeito ou ao menos entender. É uma grande tristeza constatar-se que nem as galinhas, tão cordatas e simpáticas, que não investem contra a integridade nem de crianças, contentando-se em apenas cantar o seu cocoricó, conseguem escapar dos caprichos de mercado, sujeito, como tudo, às violências que caracterizam o modernismo, umas atentando contra a existência das pessoas e outras contra os bolsos e o prazer das tais. É a nossa opinião. (O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado)