09 de julho de 2026
Pesca & Lazer

História de Pescador: Um susto que vem do céu


| Tempo de leitura: 4 min

“Queridos pescadores, soube recentemente que o Ibama puniu, na época, (anos 60 mais ou menos) - se é que já existia o Ibama naquela data - o confrade Sérgio Andrade Moreira (autor de “A moita que anda” - História de Pescador de 27.02.2003), pelo sofrimento causado a centenas de peixes, menores que a sua imensa traíra de 140 quilos, tirada da lagoa com árvore e tudo!

É que no ato da captura da “bitela”, o nível da pobre lagoa baixou tanto, que ficou com menos de um palmo de água! Dizem que dava dó de ver os bagres, mandis, traíras (menores), piavas e cascudos, nadando “plantando bananeira” com a cabeça no fundo para poder respirar, com os rabinhos todos fora d’água! Que coisa! Mas a culpa não foi do Sérgio e sim do “trairão”.

Depois que soube dos fatos, nunca mais pesquei em lagoa, principalmente em dia de vento, quando os arbustos balançam assustadoramente. Deus me livre!

Mas deixando no passado toda essa história, volto ao presente. Na comodidade dos pesqueiros que hoje conhecemos, encontramos uma semelhança com os rios, muito embora falte o mistério e a aventura maior de uma pescaria, como por exemplo, no Pantanal. Mas na falta de dinheiro, aqui vamos nós. Mês de janeiro, no aprazível Pesqueiro “Pexe-Loko”. Edvaldo, Tio Bu, Renato, Jefferson, Valter, o pequeno Vitor de apenas sete anos 9 (o maior pescador de todos) e este escriba, ávido por aventuras.

Tudo corria dentro da normalidade. Alguns bons peixes capturados e soltos, muito papo, alegria e descontração! De repente, um grito alucinante do Jefferson: “Ele vai cair na água!!” Incrível! Todos boquiabertos olhamos para o céu, de onde despencava um pára-quedista, ziguezagueando, ameaçando cair no meio do pesqueiro! Estava ocorrendo um show aéreo em Agudos e o incauto saltador se desviara de sua rota, ameaçando cair sobre nós.

A ordem mental foi unânime: Recolher todas as varas o mais rápido possível, pois se o homem voador caísse na água, correríamos o risco de “fisgá-lo”! Agora, imaginem a confusão que se formou em alguns segundos... O alvoroço foi geral! O homem vinha descendo como uma bala! O pobre do Renato, no esforço supremo de recolher a linha, agiu tão afoitamente, que a chumbada saiu como um bólido da água, e o anzol, que foi obrigado a acompanhar o chumbo, fixou-se no guarda-sol!

Nesse mesmo instante, o pequeno Vitor fisgava um enorme pacu que, pesado posteriormente à toda aquela confusão, alcançou a marca de 6,8 quilos (vejam a foto)! E lá vem o pára-quedas!

O Edvaldo, assustado, desistiu de recolher a linha do molinete, largando tudo! Eu confesso que também fiquei sem ação, olhando para o pára-quedista que se aproximava de nós cada vez mais! Tio Bu, o mais tranqüilo de todos, fumava seu cigarrinho, esboçando um sorriso matreiro e nem dava bola para o que poderia acontecer.

Voltando ao Renato, o mais afoito, num ato de desespero, tentando soltar o anzol do guarda-sol, puxou para dentro d’água aquele simpático objeto colorido que nos dá proteção contra os raios solares! Só não protege contra queda de pára-quedas! Nesse gesto extremo, usou tanta força, que rasgou o calção de nylon, mostrando a “zorba” para todos! Que caos provoca um pára-quedista!

O Valter, o Jefferson e o Edvaldo sumiram! Pularam a cerca do pesqueiro, como se o mundo fosse acabar e se esconderam no mato! E o pequeno Vitor estava tão entretido na “luta” com seu enorme pacu, que nem percebera tudo aquilo que acontecia à sua volta!

É o poder mágico de concentração que a pesca nos proporciona! Aposto que todos os leitores estão curiosos em saber qual foi o desfecho desta história, não é mesmo? Acreditem se quiserem, mas, uma forte rajada de vento arrebatou o pára-quedista para longe da água e ele pousou suavemente num descampado próximo, sem maiores problemas.

O Tio Bu terminou seu cigarrinho, o Valter, o Jefferson e Edvaldo voltaram ao pesqueiro um tanto desenxabidos, enquanto o Vitor tirava da água aquele “pacu colossal”! O coitado do Renato improvisou um “short” com sua camiseta, ganhando um lindo bronzeado nas costas.

O proprietário do pesqueiro nem ficou sabendo de nada (pelo menos até agora). Foi tudo tão rápido e terminou bem, graças a Deus. E o rombo no guarda-sol foi colado com fita isolante da mesma cor. A única prova da veracidade desta pesca inusitada é a foto do campeão Vitor! Tudo aconteceu num domingo de sol...” (Fernando Lucilha Júnior é pescador e contador de histórias)