10 de julho de 2026
Cultura

Sobre mundos: Disposição para a caminhada

Por Padre Beto | Especial para o JC
| Tempo de leitura: 4 min

Um menino da cidade foi visitar sua avó que morava na roça. Durante um passeio no quintal o garoto achou uma tartaruga. O animal, porém, encontrava-se totalmente recolhido em seu casco, pois fazia muito frio. Por querer, de qualquer forma, ver a tartaruga caminhar, o menino começou a cutucá-la com um pequeno pau. Mas, em vez de caminhar o animal se encolhia cada vez mais em seu casco.

A avó observava o empenho do menino e o medo da tartaruga. Em um certo momento, a avó disse ao neto: “Deixe de atormentar a coitada da tartaruga. Eu vou lhe mostrar como a gente consegue fazê-la andar”. Então, a avó pegou o animal e o levou para dentro de casa colocando-o perto do fogão à lenha. A tartaruga sentindo o calor e a calma do lugar colocou sua cabeça e pés para fora e começou a caminhar em direção ao menino.

“As pessoas são como tartarugas”, explicou a avó ao garoto, “através da força e da pressão você não consegue muita coisa. Mas, se você as transmite calor e carinho, elas sentem-se seguras e começam a se desenvolver!” Nós aumentamos nossa capacidade de amar à medida que somos amados. Todo ser humano precisa de carinho, aconchego, amor, principalmente nos primeiros anos de vida.

O ser humano, já desde sua concepção, necessita perceber que é desejado, aceito e amado. Esta acolhida, este sentimento de querer bem costumamos chamar de “amor materno”. Este é a base segura para o nosso desenvolvimento como ser humano e de nossa capacidade de amar.

Caso a criança não receba este amor da mulher que a gerou, ela o buscará em alguma outra pessoa ou em algum outro ser. Muitas vezes esta busca permanece por toda a vida.

A necessidade do amor materno está tão presente em nossa alma que já na pré-história, no período Neolítico, o homem cultuava, como uma deusa, a figura da mãe com o filho nos braços (Vênus de Laussel). Na Antigüidade, o amor materno e a terra eram vistos como elementos fundamentais para a vida.

Esta constatação fez com que os dois elementos fossem fundidos em uma única figura: a “mãe-terra”, que é fertilizada pela chuva e pela semeadura, garantindo, assim, a sobrevivência de seus filhos.

Na tradição bíblica, a terra também é mãe da qual surge o homem. Este é modelado por Deus com a argila do solo. O próprio nome Adão vem da palavra hebraica Adam, Adamah que significa: aquele que vem do solo. Em sua morte, o ser humano deve retornar, pelo menos na maioria das culturas, para o ceio da mãe-terra, já que ele é “adam”.

No império Romano a terra era também venerada como mãe (telus-mater). Todo recém-nascido era imediatamente colocado em contato com o solo, como agradecimento à mãe-terra. Os hebreus, antes de tornarem-se monoteístas, adoravam não somente Javé, mas também a deusa “Aschera”, a mulher de Javé e mãe dos homens. Os egípcios cultuavam a deusa Ísis, mãe de Hórus e dos seres humanos. Já no início da Era cristã, a figura de Maria, mãe de Jesus, é venerada também como mãe dos homens.

Maria é apresentada tanto com o menino Jesus nos braços como com o filho morto em seu colo (“Pietá”). Nestas duas imagens de Maria está simbolizado o desejo do homem de ser acompanhado pelo amor materno do nascimento até sua morte. Na modernidade o próprio Deus deixa de ser visto somente como pai, e seu amor maternal é redescoberto. “Deus é mãe”, afirmou, com muita sabedoria, o papa João Paulo I.

O amor materno não marca somente a nossa alma primitiva, mas é o elemento que define a figura da mãe. Mãe não é somente aquela que gera, concebe, carrega em seu seio e dá à luz a uma criança, mas principalmente a pessoa que cuida deste novo ser, com amor e atenção, preparando-o durante sua infância e adolescência para a vida adulta.

Mãe define-se basicamente pelo amor materno, ou seja, é a pessoa capaz de amar alguém maternalmente. Este tipo de amor é caracterizado pelo profundo desejo que o outro viva. Para Agostinho, amar significa: eu quero que você seja (Amo: volo ut sis).

Toda mãe, ou toda pessoa que ama maternalmente, deseja que o outro tenha vida e o aceita exatamente como ele é ou deseja ser. Quem possui a alegria de receber este amor torna-se seguro para buscar sua felicidade e sensível para compreender que “cada qual sabe amar a seu modo; o modo pouco importa; o essencial é que saiba amar” (Machado de Assis). Neste dia das mães, desejo a todos, homens e mulheres que possuem a capacidade de amar maternalmente as Bênçãos do Deus da Vida.

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