08 de julho de 2026
Ser

Mulher, mãe e pedreira

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 10 min

Tijolo por tijolo, Fátima Carvalho Ribeiro, 44 anos, construiu literalmente sua casa e sua família. Ela é mãe e pai de quatro filhos Ágata Vênus, 21 anos, Úrsula Flora, 19 anos, João Ícaro, 17 anos e Hércules, 5 anos, filho de um relacionamento como seu melhor amigo. Ela é tão apaixonada por mitologia que até os cachorros têm nomes de deuses: Átila e Ulisses.

Fátima se separou há 15 anos e está em Bauru há 12 anos, ela veio transferida da capital paulista para a cidade que escolheu no mapa para dar uma qualidade de vida melhor para seus filhos. Ela era secretária de diretoria de uma estatal e quando os filhos não estavam na escola, onde estudavam em período integral, mantinha suas crianças trancadas.

O Interior lhe trouxe em princípio a melhoria que esperava, mas com as mudanças de governo veio a demissão e a necessidade de sobreviver. Ela tinha feito cursos na área de construção civil e um dia achava que iria usá-los de brincadeira. Mas hoje ela ganha a vida como pedreira, especializada em balcões e churrasqueiras, e está sempre aumentando a casa de núcleo habitacional que comprou há nove anos com 41m2 e hoje conta com um imóvel de quatro quartos e 122 m2 feitos com suas próprias mãos e suor.

Essa sagitariana que sonha conhecer a Itália, a Grécia e o Egito, mas conhece o mundo inteiro por cartão postal, já foi capaz de fazer o motor do carro com o manual na mão.

Fátima adora escrever, pintar e ama acima de tudo os filhos para quem dedica cada ato de sua vida. Por causa da separação dos pais, ela teve que interromper o último ano da faculdade de educação física e nesse dia jurou que se tivesse filhos jamais seus problemas iriam prejudicá-los.

Em um depoimento comovente, Fátima mostra que vida de mãe é realmente “pedreira”. Confira os principais trechos da entrevista que ela deu ao JC, num tempinho entre levar o pequeno para a escola e fazer alguns orçamentos:

Jornal da Cidade - Seus filhos dizem que você é uma mãe fora do convencional. Como é isso? Fátima Carvalho Ribeiro – Eu sou mãe e pai. Tive que ser mãe e pai dos meus três filhos mais velhos. E como tal, se ouvia algum barulho à noite eu tinha que enfrentar mesmo que morrendo de medo. Dava um curto na chave-geral, eu tinha que arrumar. Não tinha dinheiro e tinha que consertar. Aí comecei a descobrir que um monte de coisas que eu achava que não podia fazer porque era coisa de homem, não era tão difícil assim. Eu comecei a me acostumar com aquilo. Parecia desafio.

JC – Foi por isso que você procurou cursos? Fátima – Quando eu ainda trabalhava na estatal, fui bater o cartão e vi um cartaz anunciando um curso de pedreiro, organizado pelo Senai, o Sinduscom e a Prefeitura. Nesse período, eu tinha comprado uma casa de cohab no Núcleo Gasparini e precisava fazer um “puxadinho” para cobrir o tanque. O pedreiro me pediu R$ 800,00. Me lembrei do curso, mas as inscrições estavam encerradas. Quando falei que era para mim, abriram uma exceção porque era diferente. Achando que era um cursinho teórico, eu comecei a fazer. Só queria saber para fazer um muro quantos sacos de cimento iria usar, mas o curso era prático. Aí acabei fazendo o curso de pedreiro-assentador de tijolo, o de revestimento, o de piso e azulejos, o de eletricista. Nisso se passou um ano.

JC – E as crianças? Fátima – Eu os deixava trancados em casa à noite para poder fazer os cursos. Muitas vezes, eu pensava: “meu Deus, eu estou privando os meus filhos da minha companhia”. Mas algo lá no fundo me dizia para não parar. Eu fiz o tal do muro e de tijolinho à vista. E quando sai da empresa, em 95, com a indenização de oito anos trabalhados, ao contrário da maioria que trocou de carro, eu comprei todo o dinheiro em material de construção. Comprei portas e janelas de madeira, tudo de primeira, 120 metros de piso. E comecei a encarar a minha casa minúscula de 41m2 e pensei em aumentar a cozinha. Foi o que fiz, comecei a brincar de construção e hoje a minha profissão é pedreira... Hoje eu sou pedreira mesmo.

JC – Mas como foi o processo do escritório à argamassa? Fátima – Eu ganhava oito salários mínimos e fui trabalhar de balconista numa loja de materiais elétricos. Eu já era eletricista, fiquei quatro anos vendendo e novamente acabei desempregada. Nesse tempo fui aumentando a minha casa. As crianças eram meus serventes e as pessoas me diziam para encarar aquilo como profissão. Até eu estranhei, quem iria contratar uma pedreira? Mas me lembrei de que quando me separei, entrei no quarto das crianças que estavam brincando de cabaninha com os cobertores e disse: “Talvez vocês não me entendam, mas juro que nunca vai faltar nada para vocês”. A minha vida inteira foi para eles e não me arrependo. Mas voltando à história de pedreira, um dia vi um anúncio precisando de pedreiro na loja em que costumava comprar meus materiais e minha filha Úrsula, que na época me ajudava a vender coxinhas na rua, me disse para me candidatar à vaga. Fiquei com vergonha e não fui. Passei três vezes em frente, mas não entrei. Ela me cobrou e no dia seguinte fui até lá. Me disseram que a vaga era para fazer churrasqueira e até aceitariam uma mulher, mas uma nova vaga só surgiria em dois meses. O tempo foi passando e outro anúncio saiu, fui até lá. Quando cheguei o rapaz veio me receber com um papel na mão: era o número do meu telefone. Eu entrei, eles dispensaram os outros candidatos e passei alguns dias em treinamento e lá fiquei dois anos fazendo churrasqueiras.

JC – Aí você virou autônoma? Fátima – É, eu já conhecia muita gente do setor, engenheiros, pedreiros e arquitetos e eles sempre me davam um toque. Uma noite conversei com o meu amigo lá de cima (Deus) e ele me deu uma luz. No dia seguinte, coloquei um anúncio no jornal e há um ano e meio faço churrasqueiras de alvenaria e balcões, tudo de tijolo à vista, a minha especialidade e minha paixão.

JC – E o que acontece quando as pessoas ligam e você se identifica como a construtora? Fátima – Tem gente que liga achando que eu faço churrasco (risos) e até perguntam se além de churrasqueira eu tenho cozinheira na minha equipe. As pessoas não conseguem assimilar, mas o pessoal da construção já me conhece. Quando passo em frente a uma obra eu entro, porque hoje toda casa tem churrasqueira. Tem sempre um pedreiro, um servente que me trata pelo nome e pergunta se lembro dele de tal obra.

JC – Você nunca sofreu preconceito? Fátima – Nooosssa!!! As pessoas juram que não, mas eu sofri preconceito a minha vida inteira. Joguei bola no primeiro time feminino do Corinthians, eu era centroavante. E dentro da minha casa a minha mãe dizia que eu ia virar sapatão, como se alguém virasse sapatão pelo fato de jogar bola... Mas só parei de jogar quando fiquei grávida. Quando trabalhava em São Paulo, teve uma época apertada em que ou trabalhava de ônibus ou garantia o pão e o leite. Vendia meus vales-transporte, levava um chinelo na bolsa e ao cruzar a Paulista, onde trabalhava, em direção à Lapa, onde morava, trocava o salto e descia uns seis quilômetros, passava no supermercado, comprava o que precisava e ia catando cada filho na escola. De vestido fino e de chinelo. Mas preconceito eu tiro de letra, quando cheguei em Bauru, há 12 anos, usava saia curta e meia colorida porque era moda em São Paulo e todo mundo me olhava torto, me chamava de perua. Eu tinha uma moto. Imagine só, uma mulher motoqueira e sem marido? Mas por incrível que pareça em obra eu nunca sofri preconceito, nunca ouvi uma gracinha, eles me tratam de igual para igual. Eu como na obra de marmita, tomo água de galão e cafezinho em copo que cai na areia e a gente passa uma aguinha. Onde mais sofro preconceito é em banco, pois em horário bancário eu sempre estou suja de massa, de cimento. Já cheguei no caixa e a moça me fez assinar o cheque novamente por não confiar que tinha adiantado o trabalho e assinado antes. Ela foi conferir no cartão, coisa que ninguém faz mais. Ela olhava para o segurança. Até que um dia ela me perguntou onde trabalhava, porque toda segunda-feira eu descontava um cheque alto, de R$ 300,00, R$ 400,00. Eu disse a ela que era pedreira e aquele era meu pagamento da semana. Aí ela me ofereceu uma conta, a história já mudou, toda vez que voltava só faltava me trazer café e pedir para sentar. Quer dizer, você vale não o que você é, mas o que você tem. No supermercado, eu já nem ligo mais para as pessoas olhando e dizendo olha o sapato dessa mulher, olha a mão dela (aponta a mão pequena e delicada, mas calejada e de unhas muito curtas). Afinal, tenho minhas obrigações de dona-de-casa e um tempo curto.

JC – E os seus filhos têm orgulho da mãe que tem? Fátima – Ah! Isso eles têm. Hoje, o meu filho mais velho o João Ícaro trabalha comigo, é o meu servente. E as pessoas acham legal e me recebem muito bem quando digo que vou eu e meu filho. Acho que nessa idade não posso deixar de saber o que se passa na vida dele. As meninas, cada uma tem um modo de encarar. Ágata diz que eu sou construtora, porque ela acha bonito. Já a Úrsula afirma que sou pedreira mesmo. Cada filho meu é de um jeito, mas conheço muito bem cada um deles. Até o pequenininho que é mimado pelos irmãos e que hoje poderia ser meu neto. Quando já tinha meus três filhos crescidos, a minha minha mãe que tem mania de guardar tudo me mostrou uma redação que fiz aos sete anos falando que teria quatro filhos: dois meninos e duas meninas e me disse: Olha, ficou faltando um, hein?! Eu acho que o Hércules é aquele menino. Já estava escrito, não é?

JC – Hoje qual é o seu sonho concreto? Fátima – Além de terminar a casa da árvore para ver o pôr-do-sol, que fica no fundo meu quintal, é ver meus filhos bem encaminhados. Eu queria vê-los muito bem. Gostaria de sentar numa cadeirinha de balanço e poder dizer: agora a minha missão está cumprida. Tudo o que fiz na minha vida foi pensando nos meus filhos e não me arrependo de nada. Tudo o que faço é para eles, mas confesso que nunca me privei de nada por causa deles. Eu curti cada passeio ao zoológico e não achava programa de índio, da mesma forma que as férias com dinheiro no Guarujá eram ótimas, os acampamentos de ônibus e cada um com sua mochila também foram maravilhosos. Até hoje rolo no chão e brinco com os meus filhos, mesmo chegando em casa cansada depois de horas em cima de um andaime. Muitas vezes, não estive presente nas reuniões da escola, mas acompanhava os cadernos todos os dias. Mas eu tinha que escolher e acho que até hoje deu certo. Se eu souber, no último dia de vida, que meus filhos aprenderam e colocaram em prática tudo o que ensinei e cobrei, pois eu sou brava, eu morrerei feliz.