08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Vigilância caolha


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Dias atrás recebi uma notícia daí da terrinha que me deixou perplexo, a de que a vigilância sanitária proibiu uma prima minha de produzir seus doces, bolos e roscas que vendia para a vizinhança, proibição vigente até que sua cozinha seja reformada obedecendo aos padrões exigidos. Antes de mais nada, foi ela alvo de uma denúncia movida não por pessoas preocupadas com a saúde pública ou outra coisa que o valha, mas apenas e tão somente pela inveja, que, segundo Roberto Campos, é o mau hálito da alma. Porém, não foi este vil sentimento que coloco em questão, mas sim o sistema de “dois pesos e duas medidas”, ou “two weights and two measures”, sistema talvez adotado por George Bush, com seguidores em Londres, Madri e na vigilância sanitária de Bauru.

Pelo que me lembro, por qualquer lugar da sem limites que eu andasse, por mais remoto que fosse, me deparava com um trailler de lanches, carrinho de pipoca, de churros, ou até mesmo automóveis adaptados para o preparo e comércio de lanches, batatas-fritas e afins. E pelo que me consta, assim continua, e até pior, devido ao grande número de desempregados. Estão lá para quem quiser vê-los. “Mac Zeca”, “O Cachorrão”, “O Rei do xisbúrgui”, “Churros do Chaves”, e por aí vai. Estou até com água na boca, ao imaginar aquele cachorro-quente temperado com poeira, defumado por monóxido de carbono, e para completar, aquela sarchicha Jesus-me-chama, coberta por uma maionese de salmonela bem morninha.

Minha prima fabricava seus quitutes em sua própria cozinha, mesmo local em que prepara as refeições de seu marido e filho, portanto com a mesma higiene, conservação e procedência dos ingredientes que tanto se destinavam ao consumo de seus clientes como para sua família. A questão é por que o sêo Zé pode vender na rua seus espetinhos de miau-catra com farinha de mosca e outros não podem vender seus produtos? Me recordo também das higiênicas barracas da Exposição de novembro, que serviam seus sanduíches de pernil junto a quilos de poeira e cocô de vaca. Então, dona vigilância, se as normas e regulamentos são para todos, mexa-se, antes que a prima venha a derrubar as paredes da cozinha, compre um isopor e guarde seus bolos dentro do porta-malas, a fim de se adequar ao que vemos por aí. (Haroldo César Volpe Guedes - RG 19.807.568-6 SSP/SP)