09 de julho de 2026
Articulistas

Linguagem das águas


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Nosso automóvel despeja-nos na calçada, diante da Redação. E um menino, que vai passando, pára e nos pergunta: “O senhor trabalha no Jornal?” Respondemos: “Sim, trabalho. Você gostaria de entrar para observar como se faz um jornal?” Ao que ele responde: “Não, não posso, porque está quase na hora de entrar em minha escola, ali adiante. Sou estudante, dá pra perceber, não é mesmo, pela sacola de livros e cadernos que estou carregando” - continuou nosso interlocutor, 8 ou 10 anos de idade, se tanto, prosseguindo: “Mas antes de me mandar gostaria de consultá-lo sobre a palavra “marulhar”, que ontem ouvi de um colega e desconheço, não sabendo o que possa ser”... Aí, indagamos-lhe: “Você não preferiria ficar sabendo através do dicionário?” E a resposta veio rápida, abafando tudo: “Gostaria, mas não tenho um dicionário. Sou pobre e papai ainda não conseguiu dinheiro para me comprar um!” Diante disso, arriscamos: “Então, vamos em frente para satisfazê-lo?” E o fomos, imediatamente, opinando que “marulhar” é a linguagem atribuída ao ruído das águas do mar. “Você conhece algum mar?” - consultamos, ao que respondeu o garoto: “Não, não conheço nada disso. Não conheço também o que seja praia, porque jamais saí da cidade”.

A partir daí, procuramos acudir à curiosidade do Joãozinho, informando-o de que há no mundo oceanos que cantam na sua linguagem, ou seja, marulham continuamente. Nas terras da Palestina, por exemplo, em que Cristo andou ensinando, há dois muito importantes e históricos. Um deles é o Lago de Genesaré, em cujas correntes os apóstolos pegaram os peixes da pesca milagrosa e testemunharam o poder de Jesus de acalmar tempestades e sossegar homens medrosos e de pouca fé. O outro é o Mar Morto, por cujo nome adivinhamos facilmente a sua imensa tristeza. Não precisa nem marulhar. Tem ele excesso de sal. Suas águas são paradas. Tem ausência de vida, pois em suas margens a vegetação é escassa, com ausência de poesia e de beleza, razão pela qual dele fogem as aves, já que nele nada encontram, o que também acontece com as borboletas, uma vez que em suas encostas não se abrem flores. Inclusive, dele fogem também os pescadores porque em suas torrentes não deslizam peixes. Então, em Genesaré prevalecem a vida, a alegria, a cor, enquanto no Mar Morto predominam a tristeza e a sombra, como afirmam ambientalistas. Contudo, a maioria dos mares do mundo tem águas marulhentas, encantando pelo amoroso ruído dos seus volumosos caudais. Alguns rios, os maiores, também as têm. “Está esclarecido? Está satisfeito?” - perguntamos ao menino. “Sim, respondeu, agora já tenho ciência do que seja a palavra. Já sei que não apenas as pessoas, mas que as águas também falam como podem. Muito obrigado. E até a próxima!” Eis a nossa opinião de hoje. (O autor, N. Serra, é o jornalista responsável do JC e delegado regional da Associação Paulista de Imprensa e da Ordem dos Velhos Jornalistas do Estado)