08 de julho de 2026
Cultura

O design das Letras

Da Redação
| Tempo de leitura: 4 min

A arte de criar poemas utilizando como linguagem a tipografia e os traços gráficos. Essa frase caracteriza, embora de maneira simples, a poesia visual. Iniciada com o movimento vanguardista no século 20, a produção literária é retratada na exposição “Raio-X”, uma coletânea de dez trabalhos visuais produzida pelo artista gráfico Marcelo Mota.

O evento é aberto à comunidade e pode ser conferido até dia 25, no hall de entrada do Auditório Helvécio de Barros, no Centro Cultural “Carlos Fernandes de Paiva”, em Bauru.

Formado em desenho industrial pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) há sete anos, Mota vem realizando extensa pesquisa sobre arte e tecnologia, inspirando-se em livros especializados no assunto. “Fiz designer gráfico, mas sempre gostei de poesia concreta. Estudo autores como Paulo Leminsky, Marcelino Freire e alguns trabalhos teóricos de Pierre Levi, autor que aborda muito a questão da cyber cultura”, diz o designer.

Utilizando como meio de produção um computador e o programa gráfico Photoshop, Mota apresenta um conjunto de obras que prioriza a técnica do contraste em preto e branco além de outros trabalhos que revelam cores de destaque, como o verde, amarelo e vermelho. Em seu trabalho visual, o designer aborda temas relacionados à crítica social e temas que enfocam o existencialismo.

Entre os principais títulos, destacam-se as poesias “Restar e Interrogação”, “Sol e Lua”, “Alma”, “Ofil”, “Raio X”, “Cão e Gato” e “Quem USA”. A última obra exemplifica o caráter classificado por Mota como “poesia protesto”, a qual revela o mundo através do olhar do autor. Para o designer, o objetivo é despertar diferentes interpretações, estimulando a percepção visual do público.

“Fiz a ‘Quem Usa’ inspirada na época da guerra. Ela representa uma crítica ao domínio cultural, porque quem usa o Brasil somos nós, mas a poesia remete à colonização americana, não só em relação ao Brasil, mas no mundo todo”, explica Mota.

“Na ‘Cão e Gato’, mostro que o cão branco pode ser tão perigoso quanto o gato preto, fato que simboliza a questão do preconceito. Outra que eu gosto é a ‘Ofio’, um nome próprio, na qual se pode enxergar um mouse, elemento que remete ao surgimento da energia elétrica, mas também fazer alusão do objeto a um espermatozóide, um símbolo que significa a criação do homem”, acrescenta o designer.

Arte visual

Fruto de um processo que rompeu com o poema apresentado tradicionalmente em versos, a poesia visual configura uma nova forma literária, priorizando a tipografia e elementos visuais na obra. O professor mestre do curso de desenho industrial da Unesp, José Luiz Valero Figueiredo, explica que a linguagem poética faz com que a palavra ocupe a dimensão de imagens.

“A poesia passa a deixar o universo verbal e começa a se inter-relacionar com o mundo visual”, aponta Figueiredo, autor da tese de doutorado “Tipografia na Sintaxe da Poesia Visual Impressa no Brasil”. No trabalho, o professor estuda a relação existente entre o designer e a poesia, apresentando uma análise de 19 obras, além de uma releitura não-verbal do poema “O Pulsar”, de Augusto de Campos.

A nova forma literária pode ter sido inspirada na poesia concreta, linguagem que teve início no século 20, com o surgimento do sistema de impressão off-set e que ganhou peso com a utilização da foto-composição, técnica a qual ampliou as possibilidades de operação dos desenhos e tipografia.

Entre os principais representantes do gênero, estão os poetas Décio Pignatari e os irmãos Augusto e Haroldo de Campos, os quais fundaram o grupo Noigandres, mesmo nome da revista especializada em artes gráficas.

Com o advento das novas tecnologias, como o computador, torna-se mais ampla a possibilidade de recursos gráficos, atividade que impulsiona a produção da poesia visual. “O computador permite uma popularização ao acesso à tipografia e linhas gráficas. Em Bauru, um dos principais representantes da poesia visual é o artista plástico Gastão Debreix, inclusive eu analiso um dos seus poemas na minha tese”, diz Figueiredo.

O professor aponta a utilização da tipografia como principal linguagem desenvolvida no trabalho do designer. “Ele apresenta um domínio da tipografia e mostra versatilidade na produção desses dez poemas, os quais não revelam um padrão gráfico muito nítido, aspecto que torna seu trabalho interessante”, comenta.

Apesar de ser uma linguagem pouco conhecida pelo grande público, algumas manifestações da poesia visual já podem ser conferidas em algumas propagandas publicitárias. Em Bauru, uma empresa do setor alimentício escolheu um dos trabalhos gráficos de Mota - que não integra a exposição “Raio-X” - para ilustrar uma campanha promocional.

• Serviço

Exposição “Raio X”, do artista gráfico Marcelo Mota, no Centro Cultural. Os trabalhos podem ser conferidos até dia 25. A entrada é gratuita. Realização: Secretaria Municipal de Cultura. Apoio: JC Cultura e Blocos Editora. Avenida Nações Unidas, 8-9. Informações: (14) 235-1072.