08 de julho de 2026
Bairros

Periferia improvisa arquitetura

Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 3 min

Pedaços irregulares de madeira, pregos, lonas, materiais tirados de bolsões de entulho ou ferros-velhos. Acrescente muita criatividade e está pronta a receita para uma característica casa de favela ou de bairros carentes.

O resultado do esforço dos moradores pobres na tentativa de construir suas próprias casas são formas inusitadas, técnicas novas e mistura de materiais.

A arquitetura do improviso expõe as mazelas da grande cidade e em Bauru não é diferente. São ocupações irregulares em escala crescente e ausência de padrões mínimos de qualidade de vida - a única saída de moradia para parcelas significativas da população excluída.

As carências habitacionais superadas através da arte popular contrapõem-se às riquezas e ambas convivem lado a lado no Município. Apesar da precariedade das construções, é possível identificar o desejo de qualificar e identificar os espaços através do emprego de materiais, formas e estruturas.

Silvia Helena de Souza mora em uma casa de madeira no Jardim Nicéia. As falhas na estrutura da casa deixam que a água da chuva invada a casa. Os moradores tentam contornar a situação com a colocação de lonas sobre o telhado da casa.

Para abrigar o forno a lenha que Silvia construiu para economizar gás de cozinha, ela levantou uma cobertura que é uma mistura de materiais: lona, tapete e madeirite. “Segura bem o vento”, garante a moradora.

E, por falar em mistura de materiais, a casa da família de Paulo Cavalcanti é um bom exemplo. Há alguns anos, a casa foi feita de alvenaria com poucos cômodos. O morador decidiu ampliar a residência e, devido à falta de recursos, a opção foi misturar madeira e alvenaria.

A ampliação durou três meses e foi feita pela própria família. As paredes de madeira são revestidas por dentro com madeirite. Tudo feito com sobras de material. “Achamos uma tábua, um compensado, um pedaço de pau. E assim foi”, conta Cavalcanti.

Pedaços quebrados de cerâmica também foram recolhidos em bolsões de entulho e deram origem a um piso frio no estilo “mosaico”. “A casa é bem confortável e organizada. Não faz frio, não entra vento, não chove”, explica o morador.

O caso de Elza Pereira é diferente. Há 15 anos, o marido fez a casa de alvenaria, que até hoje não tem acabamento. No lugar das janelas, apenas um buraco emoldurado pela estrutura de ferro. Para combater o frio, ela vedou com pedaços de plástico, madeira e tijolos.

Confirmando as características comuns em favelas, a casa de Elza está sendo ampliada para construção de mais um cômodo, também de tijolos. Como o dinheiro é pouco, as paredes estão já há alguns meses pela metade. “Está parado porque a gente não consegue material”, explica.

A cerca da casa lembra uma colcha de retalhos, misturando pedaços de madeira e madeirite. “Essas madeiras a gente acha num entulho. A gente vai trazendo e vai construindo aos pedacinhos”, conta Elza.

O “puxadinho” de madeira feito na frente da casa para proteger o forno a lenha foi feito no mesmo esquema.

Os “puxados” de madeira são comuns. Maria Olinda Moreira seguiu o exemplo de Elza e fez um cômodo adicional para o forno a lenha. Ela conta que na época da construção da casa ela mesma foi a “arquiteta”, planejando toda a disposição dos cômodos no terreno.

Na estrutura da casa também é possível ver a mistura de materiais. Há vigas de madeira sobre paredes de alvenaria.

Ana Cláudia Pereira chegou há um mês de São Carlos e mora em um barraco de madeira com o pai, dois irmãos e a filha. A moradia foi construída em uma semana com materiais encontrados na rua.

Como a estrutura é precária, os moradores ainda passam frio à noite. De dia, faz calor. São detalhes que a família ainda pretende resolver com adaptações.

Logo na entrada, a casa de Claudinei Tomé surpreende os mais atentos aos detalhes. E são os detalhes que fazem a diferença. A cerca da casa é feita madeira, mas o portão é de ferro, comprado em um ferro-velho.

Para fixar a madeira no ferro, no lugar de dobradiças, Claudinei utilizou tiras de pneus. “A gente inventa as coisas. Tem que ter criatividade”, diz o morador.