09 de julho de 2026
Bairros

Falta planejamento, mas há arquitetura

Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 4 min

Há arquitetura nas favelas sim. Embora falte planejamento nas casas de periferia, na maior parte das vezes construídas pelos próprios moradores, elas não deixam de ser consideradas fruto de um trabalho arquitetônico.

O arquiteto Antônio Carlos de Oliveira, professor do Departamento de Arquitetura, Urbanismo e Paisagismo (Daup) da Universidade Estadual Paulista (Unesp), compara as casas das favelas à arquitetura vernacular.

“É aquela arquitetura sem arquitetos, feita pelo próprio povo segundo suas origens e seu desenvolvimento cultural”, explica Oliveira.

Na opinião do professor, não há aspectos nestas edificações que remetam ao planejamento e não há técnicas apuradas. As pessoas organizam o imóvel de acordo com as necessidades e com o que têm à mão para construir. “Faz-se aquilo que é necessário e imprescindível à sobrevivência”, afirma.

A falta de técnica nem sempre implica em perigo. Oliveira explica que muitas casas são feitas de materiais duráveis como tijolos, blocos, telhas e cimento.

Além disso, há muitos pedreiros, serventes e carpinteiros que moram em tais bairros ou favelas e que, portanto, têm experiência no ramo da construção.

O perigo existe quando as casas ou barracos são erguidos em encostas ou às margens de córregos. Há possibilidade de deslizamento. “Habita-se mal e a qualidade de vida fica extremamente prejudicada”, afirma o arquiteto.

Quanto aos riscos, o professor destaca que eles existem até mesmo em construções assinadas por engenheiros ou arquitetos. Nas favelas, um dos maiores riscos são os incêndios, pela proximidade das casas e pela grande quantidade de madeira. “O risco não está excluído”, afirma.

O sistema viário das favelas é outro aspecto problemático já que não atende às normas dos municípios. Faz-se vielas ou ruas segundo as necessidades e sem padrão.

“Os projetos são pensados pontualmente e não no todo. Existe falta de planejamento municipal. Ou, se esse planejamento existe, ele não é seguido como seria necessário”, afirma Oliveira.

“Se a cidade fosse planejada, teríamos que ter áreas destinadas à ocupação por favelas?”, questiona o professor. “O surgimento das aglomerações não é espontâneo. É forçado, derivado do modelo de economia que o País adotou”, acrescenta.

Empobrecimento

Na visão de Oliveira, as favelas brasileiras têm passado por um processo de empobrecimento. “Se até os anos 50 e 60 a favela poderia ser vista com um certo ar ‘romântico’, hoje em dia eu acho que ela já não tem mais essa aura”, observa.

Antigamente, de acordo com o professor da Unesp, encontrava-se materiais considerados nobres em áreas de periferia, tais como zinco e madeira de boa qualidade. Atualmente, utiliza-se qualquer sucata.

Na avaliação do arquiteto, tais alterações refletem a criatividade das pessoas, que se adaptam às condições adversas.

Para o arquiteto, as favelas de Bauru reproduzem em menor escala o que acontece nas grandes capitais brasileiras. “Se você andar numa favela de Bauru e andar numa de São Paulo, você não vai ver diferença. Talvez só na questão da escala. Aqui é um pouco menor, é evidente”, expõe.

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‘Urbanismo perdeu a batalha’

“Eu acho que o urbanismo e a arquitetura perderam a batalha.” Essa é a opinião do professor de arquitetura Antônio Carlos de Oliveira sobre a possibilidade de reverter o processo de crescimento das favelas. Sem otimismo, ele já não acha possível fazer isso em curto, médio ou longo prazo.

Para ele, tentativas de minimizar as condições precárias da população das favelas não teriam resultados satisfatórios. Ele vê o processo como uma guerra infrutífera.

“São medidas necessárias e importantes, mas não vejo como uma atividade que vai render bons frutos. Serve para campanhas políticas ou para colocar em evidência o nome de um ou outro arquiteto junto à mídia. Não vejo como uma prática que efetivamente contribua para melhorar as condições de vida dessa população”, avalia.

Na opinião do professor, há poucos e pulverizados recursos destinados a esse fim. “Nem sei se é necessário urbanizar e transformar as nossas favelas”, polemiza.

“O modelo econômico a cada dia exclui mais pessoas da participação da produção do País. Não vejo como isso possa ser subvertido. Só tende a piorar. Não tenho a menor dúvida disso”, acrescenta.

Oliveira acredita que intervenções pontuais apenas mascaram a realidade. “Eu vejo como uma maquiagem. É como o projeto Cingapura, de São Paulo. Tem os predinhos nas grandes avenidas, mas por trás a favela ainda persiste do mesmo modo que era anteriormente”, expõe.

Ele critica também a falta de comprometimento do poder público com a qualidade de vida da população carente. “Não há nenhuma tentativa de organizar minimamente o espaço urbano”, diz.