08 de julho de 2026
Saúde

Descongestionante pode agravar crises

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 4 min

Pesquisa apresentada no último Congresso Brasileiro de Alergia e Imunopatologia mostrou que um dos conservantes mais usados em descongestionantes nasais - o cloreto de benzalcônio - pode ter efeitos nocivos à mucosa nasal e causar a rinite medicamentosa.

De acordo com o pediatra e alergologista Felinto dos Santos Neto, alguns destes produtos têm ação vasoconstritora, ou seja, elas contraem os vasos sangüíneos e diminuem o volume das estruturas internas do nariz.

“Num primeiro momento, esse efeito causa um grande alívio. Mas depois de aproximadamente uma ou duas horas, o medicamento provoca uma reação contrária, dilatando as narinas. É o que nós chamamos de efeito rebote. Em novo mal-estar, a pessoa acaba usando o remédio outra vez”, explica o médico.

Segundo ele, os descongestionantes de ação vasoconstritora são muito eficientes, mas devem ser usados conforme a orientação do médico.

“O que acontece é que o profissional diz para o paciente usar o remédio três vezes ao dia. No primeiro dia, tudo bem. Passado algum tempo, quando ele começa a perceber o efeito rebote, ele começa a aplicar o produto muito mais vezes. Alguns chegam a usar o remédio a cada duas horas”, comenta.

O médico explica que esse abuso ocorre mais por necessidade que por negligência. Quando ocorre o efeito rebote, o mal-estar é maior que aquele sentido no início da crise. Isso leva a um círculo vicioso. Quanto mais remédio ele usa, pior a crise e mais remédio ele usa, gerando dependência à droga.

De acordo com a assessoria de imprensa do laboratório Libbs Farmacêutica (fabricante de descongestionantes), o cloreto de benzalcônio vem sendo usado desde 1935 indistintamente em adultos e crianças, muitas vezes de forma livre, pressupondo que seja inócua para a saúde humana.

Porém, durante o último simpósio, a chefe da Unidade de Alergia e Imunologia da Universidade do Departamento de Pediatria da Universidade de São Paulo, Cristina Miuki Abe Jacob, comentou que, desde a década de 80, vários estudos científicos têm mostrado um possível efeito nocivo do produto às mucosas respiratórias.

“Várias publicações têm apontado que pode haver efeito broncoconstritor quando o cloreto de benzalcônio é inalado, podendo ocorrer queimação, dor, sensação de sabor e odor desagradáveis, ressecamento e irritação logo após as primeiras aplicações”, informa. Segundo ela, a rinite medicamentosa que era atribuída genericamente aos descongestionantes mostra ser ocasionada pelo conservante.

Os pediatras salientam que a irrigação nasal com essas soluções é recomendada para os mais diferentes tipos de obstrução. Em crises de rinite, asma, gripes ou resfriados, o descongestionante promove uma limpeza das secreções e crostas, tornando as fossas nasais permeáveis à corrente aérea. Muitas vezes, nestes momentos, o medicamento é usado várias vezes ao dia.

Agora, os especialistas alertam que é preciso cautela e que estes descongestionantes não devem ser usados por período superior a uma semana, pois a maioria das soluções contém o cloreto benzalcônio. A substância, além de dificultar a solução do problema, pode causar uma nova alergia.

Proteção

A Libbs Farmacêutica explica que o uso de conservantes nos medicamentos tem como objetivo exclusivo a proteção dos mesmos, permitindo que eles sejam estocados por um período consideravelmente longo sem que haja alterações em sua composição química e em suas propriedades farmacológicas.

Mas diante das pesquisas sobre o efeito rebote destas substâncias, alguns especialistas têm recomendado o uso de soluções que não contêm o cloreto de benzalcônio e, portanto, são vendidas em frascos de dosagem única.

Paralelamente, a indústria farmacêutica desenvolve novas tecnologias para frascos que confiram segurança ao medicamento sem o uso dos conservantes. Os novos dispositivos têm um dosador mecânico, com um filtro e uma trava de segurança.

O uso destes dispositivos e de uma bomba a vácuo permitem que o paciente use a dose exata do remédio, previnem a entrada de microorganismos no sistema e, assim, impedem a contaminação do produto.

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Rinite afeta 10% a 25% da população

Dentre os diversos problemas respiratórios, a rinite alérgica é uma das que têm maior incidência. Ela afeta entre 10% e 25% da população, segundo especialistas. Trata-se de um distúrbio genético que causa processo inflamatório das vias aéreas superiores (nariz) sempre que a pessoa entra num ambiente hostil, onde haja fatores alergênicos.

Embora não seja considerada doença grave, a rinite causa sérios transtornos ao dia-a-dia da pessoa, afetando, por exemplo, o desempenho escolar das crianças e a produtividade no trabalho dos adultos. Além disso, ela é considerada um fator de risco para o desenvolvimento da asma - patologia muito mais complicada.

A asma é uma doença inflamatória crônica das vias aéreas que causa a contração dos brônquios e bronquíolos, dificultando a respiração. As crises podem ser desencadeadas por vários fatores alergênicos, inclusive mudança de temperatura, poeira, cigarro e poluição.

Estima-se que ela afete 10% da população Brasileira. De acordo com o Ministério da Saúde, a doença causa cerca de 350 mil internações por ano na rede pública de saúde, com custos em torno de R$ 76 milhões (dados de 1996).

Estes números motivaram a criação do projeto Aria (do inglês, Rinite Alérgica e seus Impactos na Asma). Recentemente, 54 sociedades médicas envolvidas no projeto prepararam um documento com as diretrizes para o tratamento da asma, sugerindo que ele deve começar pelo controle da rinite.

De acordo com a assessoria de imprensa da Libbs Farmacêutica, as novas diretrizes já estão sendo divulgadas no Brasil e prometem trazer mais alívio aos doentes.