08 de julho de 2026
Ser

François põe a boca no trombone

Luly Zonta
| Tempo de leitura: 7 min

Desde pequeno, o paulistano François de Lima se alimenta de música. O seu pai era músico de forró e o menino ficava até de madrugada ouvindo o ritmo contagiante do xote e xaxado. Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro eram os reis da música para o garoto que aos 10 anos foi apresentado a um trombone de válvula.

Hoje, aos 45 anos, o trombonista que bate cartão desde 86 no Festival de Montreux, concorreu ao Grammy com a Banda Mantiqueira, da qual é um dos fundadores, se orgulha em fazer parte de um capítulo ímpar na música brasileira. Mas lamenta ter que vender sua arte, gravando coisas que não gosta para sustentar os cinco filhos.

Aliás, ele conta que comprou uma bateria para o mais velho, mas não o incentivou muito. Afinal, afirma que a vida de músico no Brasil é muito ingrata, o cenário é bastante difícil e precisa ser muito bom para ter um lugar.

Ainda bem que apesar do nome afrancesado, seu sobrenome é Lima, e tem talento, carisma e fôlego de brasileiro.

Entre uma agenda cheia de viagens, shows, inclusive um recente em Bauru, e muitas gravações, François reservou meia hora para conversar com o JC. Confira os principais trechos de um bate-papo tão bom e exclusivo como sua música.

Jornal da Cidade – Quando foi que você resolveu colocar a boca no trombone? François de Lima – Faz tempo. Foi aos 10 anos, no grupo escolar mesmo. Um oficial da Polícia Militar aqui de São Bernardo do Campo conversou com o prefeito da época para montar uma banda aproveitando os alunos da escola. Eu estava na quarta série do primário e fui estudar música. Foi o professor que indicou o trombone para mim e foi amor à primeira vista. Hoje já faz 33 anos que toco trombone de válvula.

JC – Além do trombone, você toca outros instrumentos? François – Eu preferi tocar um instrumento só para tocar direito.

JC – Aliás, tocar muito direito... François – Mais ou menos, né. É elogio seu.

JC – Que moço modesto, o Brasil inteiro diz que você é o cara. Como é essa história de ser considerado o melhor? François – Não sei. Eu nunca pensei muito nessa coisa de ser o melhor. O negócio é que na música essa história de comparação entre melhor e pior é muito relativo. A música tem tantos estilos... Uma vez ouvi um músico argentino chamado Willie Colon tocando salsa e imaginei que nunca iria tocar salsa como aquele cara. Eu acho que eu sou um bom músico de música brasileira, de samba. E nunca pensei nisso. Eu procuro fazer o melhor, porque eu gosto do que faço e gosto de tocar, gosto do meu instrumento, e tenho prazer em tocar todo dia.

JC – Praticamente, quantas horas por dia você toca? François – Ah! Todo músico de instrumento de sopro, instrumento bocal, que a gente fala, precisa de uma manutenção. Pelo menos duas horas por dia você tem que estudar. Mas geralmente não consigo estudar porque tem viagem, em determinados hotéis não se pode fazer barulho, mas quando sobra tempo, estudo as duas horas por dia.

JC – Há quanto tempo você está na Banda Mantiqueira? Você é um dos pais da criança, não é? François – Estamos juntos há 12 anos. Na verdade, antes da Mantiqueira eu tinha montado uma banda que chamava Sambop Brass e eu acho que a filosofia musical da banda Mantiqueira vem dessa banda, que tinha a proposta de tocar música brasileira e também o jazz em ritmo de samba. A Mantiqueira veio com uma formação maior que tocava choro, samba, bossa-nova e ficou basicamente com a MPB, mas a origem é chamada Sambop Brass.

JC – E qual a sensação de concorrer a um Grammy? François – Foi uma surpresa para a gente. Era o primeiro trabalho da banda. A gente sabia que era um trabalho de qualidade, um trabalho original. A Banda Mantiqueira trouxe uma originalidade até então inédita na música instrumental. A gente ficou surpreso, muito contente e até na expectativa de ganhar o prêmio. Quatro músicos viajaram para a noite de entrega. Eu tive que trabalhar naquele dia. Acabou ganhando um trabalho de música cubana cuja gravadora fez o maior lobby. Mas a indicação foi muito importante para abrir espaço para a Mantiqueira e para ressaltar a própria música brasileira.

JC – Vocês se consideram privilegiados em estar sempre tocando, viver de música instrumental e ter um trabalho jazzístico reconhecido no Brasil, onde a gente vê a música se perder? François – Quer dizer, a gente não vive essencialmente da música instrumental, vivemos de tocar instrumentos e para isso acabamos gravando com evangélicos, sertanejos. A gente não consegue viver de música instrumental no Brasil porque não tem apoio da mídia, não se tem apoio governamental, empresarial, não tem apoio nem das gravadoras, que preferem gravar uma Kelly Key que tem retorno imediato ou aquele Dj Serginho do Pocotó. Elas preferem investir nessa música de consumo rápido porque tem retorno. E não na música instrumental.

JC – Dessa maneira, com a qualidade reconhecida do trabalho de vocês, em 12 anos de estrada conseguiram gravar apenas dois CDs... François – Para você ver, em 12 anos gravamos dois CDs independentes. É muito difícil viver da música instrumental no Brasil. Mas não é só aqui. A gente vê que a situação dos músicos americanos também não é muito diferente no caso da música instrumental. Entretanto, o americano tem uma outra cultura. Ele ouve música instrumental, não é como aqui que não se consegue encher um teatro com 500 pessoas. O público brasileiro é muito seleto e são poucos os músicos que conseguem destaque no cenário nacional e internacional temos o caso do Hermeto Pascoal, Sivuca, Egberto Gismonti e César Camargo Mariano. Então para sobreviver, para sustentar a família eu gravo Zezé Di Camargo e Luciano, Leonardo, Daniel, música evangélica. A gente é obrigado a fazer todo tipo de trabalho profissionalmente para cobrir a agenda financeira porque não dá para viver de música instrumental.

JC – Você acaba ouvindo os CDs que gravou com esse monte de gente? François – Não, não ouço não. Eu vou lá e faço o meu melhor, sou profissional e respeito o trabalho dos caras. Eles têm público, têm mercado e se venderam milhões de cópias e têm discos de platina, diamante, duplo, triplo é porque o trabalho deles tem valor. Não é o gênero de música que gosto de ouvir, mas vou lá e faço o melhor que posso e eles me escolheram por isso. Mas o Djavan, por exemplo, eu ouvi muito, ficamos trabalhando juntos cinco anos e temos uma identificação muito grande com o trabalho um do outro. O Djavan tem uma musicalidade única no Brasil e é capaz de compor uma série de estilos com uma competência incrível e a gente se identifica com isso. Já gravei com Ivete Sangalo, Rita Lee e Daniela Mercury trabalhos muito interessantes, mas não é o gênero que eu ouço. Gosto de ouvir trombonistas. O Raul de Souza que gosto muito. O Bocato que tem muito talento e admiro bastante. Alguns americanos que não tem como você deixar de ouvir ainda mais em tempos de globalização, que você pesquisa na internet. Mas eu ouço essencialmente música instrumental. Eu sou o cara que começou tocando em banda de escola, foi para a banda de baile e depois teve sua banda. Fiz estúdio, shows, um trabalho só meu, cinco filhos...

JC – Mas não vai negar que a música já te fez dar a volta ao mundo, tocar nos maiores festivais... François – É mesmo. Desde 86 toco em todo Festival de Jazz de Montreux, no Festival da Holanda, de Montreal. Toquei com a Gal Costa no Carnnegie Hall de Nova York, com platéia lotada. Gravei com Judith Ravicz, que é o Roberto Carlos de Israel. Viajei com o próprio Roberto, Fábio Jr., Ney Matogrosso, Jorge Benjor no auge de sua carreira. E com a Banda Mantiqueira, recentemente, fizemos uma turnê com a Orquestra Sinfônica de São Paulo, a Osesp, em São Francisco, nos EUA, e todo mundo aplaudiu de pé. Foi muito legal.

JC – Você está sempre muito alegre, tem uma presença contagiante no palco, toca muito e já tem uma história invejável. O que vem pela frente? François – Eu pretendo futuramente gravar o meu próprio disco, deixar de lado um pouco de estúdio, “me prostituir um pouco menos” e me dedicar à música e ao instrumento que tanto gosto. A música é a minha terapia, quando pego no instrumento acontece uma transformação. Quando ponho o trombone na boca eu esqueço tudo, ele é uma extensão do meu corpo e me proporciona o prazer de poder viver da música.