08 de julho de 2026
Auto Mercado

Ele construiu a própria moto

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 5 min

Encontrar admiradores e colecionadores de motocicletas é um fato até comum. Mas o que dizer quando se trata de uma pessoa que, construiu sua própria moto? É o caso do torneiro mecânico bauruense José Horácio Farah Porto, proprietário de uma réplica de uma Amazonas 1600.

Montá-la exigiu, além de recursos financeiros, muita vontade e paciência. Depois de desenvolver o projeto, contou com a imensa colaboração de um amigo que se dispôs a desmontar inteiramente uma Amazonas. Todo esse trabalho era necessário para, segundo Porto, fotografá-la em seus mínimos detalhes. “Tirei 75 fotografias dela com todas as medidas e, a partir disso, comecei a fazer as peças”, explica ele.

Detalhista, Porto fez questão de confeccionar peça por peça da réplica da Amazonas, trabalho que durou cerca de três anos e que contou com o auxílio providencial de seu filho, também torneiro mecânico. “Só não fiz o motor e o câmbio, porque são da Brasília 1600. O resto fui comprando e adaptando, como os discos de freios do Corcel”, conta ele.

E, depois de tanto suor, veio a recompensa. Além de já ter sido homologada por um centro de inspeção credenciado pelo Inmetro, Porto conseguiu obter da réplica um bom desempenho. “Foram feitas várias vistorias, análises técnicas e testes de rodagens e ela passou sem problemas. Para se ter uma idéia, em ordem de marcha, com velocidade média de 130 km/h, a Amazonas chega a fazer 17 quilômetros por litro”, garante o torneiro mecânico.

O projeto deu tão certo que está motivando Porto a buscar parceiros na iniciativa de retomar a produção em série da motocicleta. “Minha preocupação inicial era homogá-la. Isso feito, a intenção agora é colocá-la em escala de fabricação. Tenho proposta de um representante de Taiwan que está em contato direto comigo a fim de abrir uma representação da marca lá. Além disso, ele tem interesse em investir no Brasil”, revela ele.

Nacionalismo 100%

Porto enfatiza que resolveu “ressuscitar” a Amazonas impulsionado por um intenso sentimento de nacionalismo nas veias. Para ele, que não admira motocicletas importadas, é necessário valorizar o que é brasileiro. “Sou 100% nacional. A Amazonas encontra-se totalmente fora da mídia, mas temos uma gama de pessoas que a cultuam”, afirma ele.

Segundo o torneiro mecânico, a Amazonas poderia representar no País o que as Harleys Davidsons significam para os americanos: verdadeiros mitos sobre duas rodas. Só não é desse jeito, conforme Porto, porque os brasileiros tratam com descaso tudo que é tupiniquim. “Em 1978, a Amazonas foi considerada a maior motocicleta do mundo em cilindrada, tamanho e peso. Ela só não emplacou no País porque o brasileiro não dá valor para o que é dele, e sim do estrangeiro”, destaca ele.

Para o bauruense, o interesse dos povos de outros países pela Amazonas é maior do que o existente no Brasil. “Tenho um site e recebo e-mails de vários países, como Taiwan e dos Estados Unidos, perguntando se essa moto vai voltar a ser fabricada. Diante disso, percebo os estrangeiros muito mais interessados em saber da Amazonas do que os próprios brasileiros.” O site a que se refere Porto é o: www.tmamotos.com.br.

Moto para poucos

Porto considera que a Amazonas é uma motocicleta para poucos privilegiados. “Ela é uma moto especial para motociclistas especiais. São pessoas limitadas que podem comprá-la, pois os que gostam precisam ter um porte físico grande, com pelo menos 1,80 metro de altura e 90 quilos de peso. Ela é uma moto grande que pesa 350 quilos seca, sem combustível e óleo.

Ao contrário de muitos que preferem as importadas pelo status que as mesmas proporcionam, o torneiro mecânico afirma preocupar-se com a qualidade e durabilidade de uma moto. “Posso ir com a Amazonas para qualquer lugar, pois ela é um pé-de-boi que topa qualquer terreno. Além disso, é de fácil e barata manutenção e proporciona um prazer de pilotar inigualável”, diz ele. Avaliada em cerca de R$ 20 mil, Porto garante que não a vende. “Mas se alguém quiser faço outra”, destaca.

Perfil

• Nome José Horácio Farah Porto

• Profissão Torneiro mecânico

• Lugares para passear Ilhéus (BA)

• Time do coração Santos

• Quem você levaria como passageiro da sua motocicleta?

“Se pudesse, minha mãe, que já faleceu.”

• Quem você não colocaria na garupa da Amazonas?

“Ninguém do governo do Fernando Henrique Cardoso, principalmente ele.”

• O que mais lhe irrita no trânsito bauruense?

“As filas de carros nas portas das escolas quando os pais vão buscar os filhos. Dizem que elas não podem existir, mas às vezes formam-se até filas triplas. Outro problema é a falta de atenção dos pedestres nas ruas.”

• Que nota você daria aos motoristas bauruenses?

“Por enquanto, sete, pois os motoristas daqui ainda precisam melhorar um pouco.”

Prazer

Para o torneiro mecânico, o verdadeiro motociclista é aquele que “gosta de tomar vento na cara”. “São aquelas pessoas que montam em uma motocicleta para, literalmente, andar nela e curti-la. Também está dentro desses princípios não fazer nada que prejudique os pedestres, motoristas ou caminhoneiros e nem fazer arruaças”, frisa Porto.

Outro grande prazer do bauruense é viajar, idéia para a qual ele já tem traçado alguns planos. “Junto com um amigo, pretendo ir até o Chile, no deserto de Atacama, ou para o Nordeste”, finaliza.

A paixão

O motociclismo esteve sempre presente no dia-a-dia de Porto, mesmo durante os 24 anos em que se dedicou à profissão de caminhoneiro. E foi justamente nessa época que ganhou o apelido de “Lindão”. “Tinha um “Fenemê” (FNM) 1972, que era muito bonito e admirado pelos companheiros de atividade. Certo dia uma pessoa de São Paulo me sugeriu que pintasse atrás, como se fosse um frase de pára-choque, a inscrição Lindão. Pintei e aí o apelido acabou pegando”, conta ele.

Para ele, ser caminhoneiro foi um erro de percurso. “Era mecânico de motocicleta e achava que o mercado estava fraco. Resolvi abraçar a profissão, mas nunca abandonei o motociclismo. Mesmo tendo caminhão, sempre ficava mexendo nas motos durante minhas horas de folga em casa”, explica Porto.

As primeiras experiências do torneiro mecânico com motos foram aos 11 anos, quando um de seus primos comprou uma Leonete. “Aquilo ali foi um problema. Para dar partida nela tivemos de empurrá-la durante uns quatro quarteirões. Ela pegou, embolamos em quatro pessoas em cima dela e não descemos dela até acabar a gasolina. Foi aí que a paixão começou a entrar na veia”, afirma ele. Desde então, Porto relembra já ter sido proprietário de pelo menos 30 motos.