08 de julho de 2026
Regional

Entrelinhas apontam violência

Michelle Roxo
| Tempo de leitura: 2 min

Lençóis Paulista - Nos documentos de compra e venda, analisados pelo historiador, há registros de escravos vendidos com marcas nas costas, provavelmente provocada por castigos.

Entretanto, o historiador afirma que a documentação sinaliza, mas não detalha a ocorrência de violências explícitas. “O documento foi escrito pelo homem branco, a história é escrita pelo vencedor. É difícil. Você tem que enxergar a visão dos vencidos num documento escrito pelo vencedor. Temos que ler nas entrelinhas para vislumbrar alguma luz.”

O historiador afirma que, nesse sentido, as fontes orais são importantes para ajudar a reconstituir alguns episódios. “Mas precisaria de um outro tipo de estudo. Eu recorri a uma história quantitativa e serial. A história oral é uma outra vertente.”

Fernandes desconhece algum descendente de senhor ou escravo na cidade que poderia ajudar nesse processo. Segundo ele, grande parte das famílias tradicionais que moram atualmente em Lençóis são descendentes de imigrantes italianos, e chegaram ao local em um momento posterior à abolição.

Entre os poucos relatos de violência conhecidos por moradores da cidade, está o de um escravo que teria sido morto por seu senhor, depois de não ter conseguido cumprir uma tarefa de trabalho no tempo previsto.

O escravo teria sido enterrado próximo à Fazenda Faxinal, onde foi erguido uma pequena capela em sua homenagem.

Montando quebra-cabeças

Lençóis Paulista -Apesar de fazer uso de documentos frios e oficiais no desenvolvimento da pesquisa, Fernandes afirma que reconstruiu momentos da vida de seus personagens para tentar compreender o contexto em que viviam. “Um dos escravos eu encontrei pela primeira vez quando tinha 3 anos, depois encontrei-o no casamento dele, no nascimento do filho dele. E isso em vários documentos. Você vai ligando os pontos e montando um quadro.”

Entretanto, o historiador afirma que esse processo só foi possível até a abolição, quando os negros deixaram de aparecer por um longo período nos documentos oficiais. “Enquanto ele é escravo, ele aparece na história, tem documentos, é trocado, vendido, é dado como herança. Ele deixou ser escravo, desaparece”, afirma.

Segundo Fernandes, por conta disso, o destino dos escravos no período pós-abolição representa uma das maiores lacunas da historiografia brasileira.